Josefina desceu para jantar. Maria e Alzira conversavam animadamente, da festa de São Lourenço, que seria daí a duas semanas.
Ofereceu-se para ajudar, mas o jantar já estava adiantado e mesa posta. Mandaram-na sentar e aguardar, com a autoridade de quem serve e trabalha, e assim fez com a naturalidade que se ganha com respeito.
Embora o santo padroeiro da terra fosse Sebastião, com celebração sentida e festa rija, a vinte de janeiro, o dez de agosto de São Lourenço aproveitava o estio e anoitecer tardio para juntar gentes na festa da sua capela, virada ao rio e à vila, do cimo do cume com o mesmo nome.
O frio de janeiro da festa do São Sebastião obrigava a samarras, capotes, chapéus e gorros, aquecidos à volta da fogueira na praça central da terra, onde se cozia carne de porco e batatas em panelas de ferro com três pernas, para o tradicional almoço comunitário de agradecimento ao santo pela proteção contra a fome, a peste e a guerra, desde que, após forte devoção, uma chuvada providencial derrocara a estrada de Chaves, poupando-os à passagem dos exércitos de Soult, em março de 1809.
Estendia-se a mesa e servia-se a carne e batatas com broa de milho, vinho corrente das pipas, num trabalho comunitário de oferendas juntadas entre todos, vilões e forasteiros, até ao fim da tarde recolherem-se a casa, corridos pelo frio que anoitece.
O verão de São Lourenço atraía juventude, crianças, festa, animação, petiscos e vinho, e, com o acordeão do Albino, desgarrava-se e dançava-se até altas horas, no adro da capela.
A fama da festa chegou a concelhos vizinhos, pela farra e alegria, mas também pelo temor e assombro do espetáculo das lágrimas de São Lourenço, fenómeno natural e científico, explicado e desvalorizado pelo padre, mas associado pelos jovens casadoiros a bons augúrios de felicidade e fertilidade.
Entre finais de julho e meados de agosto, a translação da Terra intercepta a órbita de detritos do cometa Swift-Tuttle que, queimados na alta atmosfera, provocam a ilusão de uma chuva de meteoros, que no seu pico de intensidade, na noite de dez de agosto, chegam a sessenta episódios por hora, um por minuto.
Diz a tradição que cada lágrima é um pedido concedido, recebido com júbilo e devoção pelos casais tementes, uns sentados, outros ajoelhados, no terreiro da capela.
Josefina ouvia, divertida, o entusiasmo de Alzira com os pedidos a São Lourenço, para o seu futuro com Armando, entrecortado com a troça madura de Maria. O que pediu não dizia, mas descrevia como iriam assistir a todas as lágrimas, de mãos dadas, contando que uma delas seria a sua.
Lá no escuro, segura-lhe bem as mãos, aconselhava Maria, olhando de soslaio para Josefina, que fingia não perceber.
Sebastian entrou na cozinha, aparentemente muito melhor do seu pé, sob efeito do analségico, com certeza, saudando e elogiando o aroma que enchia o ar.
Josefina sorriu-lhe, mas não foi retribuída, nem foi olhada. O embaraço do jovem era evidente, mas o não lembrar, não perguntar nem referir a fragilidade, perante as outras senhoras, foi apreciado, com reserva, por ele.
“-Sebastian, já viu as lágrimas de São Lourenço?”, perguntou Josefina.
“-Claro que sim. As Perseidas são sempre um grande espetáculo.”
“-As quê?”
“-As Perseidas. Uma chuva de meteoros que vem da direção da constelação de Perseu. É no princípio de agosto, por alturas do São Lourenço. Estavam a falar disso? Cheguei a ir lá cima ver, à festa, com a Maria. Era pequenito.”
Baixou a voz e aproximou-se
“-Mas vê-se em todo lado. Até em Grosmont.
Depois mostro-te.”
Maria pousou na mesa a assadeira de barro vermelho com uma posta de vitela assada com batatas, um pote de barro preto de arroz de forno, uma travessa branca com grelos cozidos passados por azeite e alho, um cesto de broa de milho e uma garrafa de vinho tinto, mas só para provarem, como dizia.
A conversa continuou animada, sobre as festas da terra, enquanto comiam e elogiavam o assado, na pequena mesa da copa que, mesmo que quisessem, não dava cabimento para os quatro.
Maria e Alzira faziam comida para mais do eles os quatro, serviam Sebastian e Josefina, arrumavam tudo rapidamente, e recolhiam às suas casas, ainda a tempo de partilharem a ceia, com o muito que sobrava e levavam dali. Assim também ficavam todos mais à vontade.
Depois do jantar, despediram-se das senhoras, que praticamente já tinham tudo arrumado na pressa de recolher cedo a casa, ainda com a animação da conversa das festas, e foram sentar-se nas cadeiras de verga do terraço virado ao rio, como na véspera e antevéspera, já com as primeiras estrelas a despontar no céu.
Sebastian já não coxeava. Ficou de pé, num silêncio prolongado, a distinguir a curva do rio, na crescente escuridão, e o contorno dos montes em redor, no contraste do céu estrelado.
A curiosidade de Josefina era tão grande como o receio de deitar tudo a perder, na precipitação de querer saber o que parecia não querer ser dito.
“-Ainda não te disse. Vamos embora amanhã. Íamos ficar até ao final da semana, mas amanhã sai um barco para baixo, pela hora do almoço, e o nosso trabalho ficou composto hoje. Fiz relatórios, não encontrei incongruências, não me suscita grandes dúvidas. Ficar é perda de tempo. Temos muito que fazer lá em baixo.”
“-Sim, claro. Se está feito.”
Josefina concordou, naturalmente, mas não disfarçou a desilusão na face e tom de voz. Calaram-se.
Não terão passado mais de cinco minutos, mas o peso do tempo do silêncio esmaga a percepção da realidade.
“-Hoje foi um dia estranho. Desculpa!
Estava cansado, dorido e portei-me mal com o padre Rogério.”
Josefina não assentiu nem sequer reagiu. Não era assunto dela. Não compreendia o mal estar de Sebastian. Tudo era novidade: o local, as pessoas, a circunstância, o comportamento dele. Não tinha de ter opinião nem lhe competia ter opção. Estava ali em trabalho, às ordens do chefe, em condições que uma empregada da sua condição jamais almejaria.
“-Não sei para onde vamos”, continuou depois de mais um silêncio de longos minutos.
“Amanhã preciso de falar com o padre. Tenho de falar com ele e pedir desculpa pelo meu comportamento. Eu sei que tenho razão mas vou ter de lhe falar.”
Ficou pensativo mais um tempo.
“Amanhã às 11.00 horas, encontramo-nos aqui em baixo, de malas feitas. Eu vou arranjar maneira de falar com ele.
Vamos dormir?”
Josefina quase não falou e foi-se deitar desiludida, por não ficar mais dias, mas também por não compreender a tensão de Sebastian. Sentia-se protegida e acarinhada, no seu paternalismo, ele falava abertamente, contava histórias, explicava, ensinava, mas não dizia nada da sua vida adulta, dos planos e frustrações, porque era tão carinhoso e distante, ao mesmo tempo, com um travão que tanto a frustrava como fascinava.
A pouca experiência e juventude não lhe permitiam sequer compreender as dúvidas que tinha, mas a intuição despertava-lhe curiosidade e imaginação por caminhos e pensamentos audazes que a faziam corar na intimidade.
Josefina desceu pouco passava das nove horas. Cozinha deserta, porta aberta, cesta de pão na mesa, com compotas, queijo e manteiga, cafeteira e fervedor de leite mantendo-se quentes pousados na borda do fogão a lenha.
Sentou-se com à vontade para se servir. O lugar de Sebastian tinha algumas migalhas de quem já se tinha aviado, sem esperar por ela.
Maria entrou com um sonoro bom dia, abraçada a um molho de couves acabadas de colher.
“-Bom dia, menina Josefina. Ainda bem que se serviu. Estava aí tudo para si.
O menino Sebastian foi à vila, tratar não sei de quê. Saiu muito cedo, mal falei com ele Levou a velha bicicleta lá da adega”
Sebastian sabia da velha bicicleta. Estava no rol de existências da adega. Raramente era usada. Já não era a do seu tempo, mas era igualmente velha, e servia para o feitor deslocar-se, ou mandar alguém, às vinhas, para levar água, mantimentos ou instruções para o pessoal.
De manhã cedo, abriu o portão da adega com a chave que sabia guardada no chaveiro do hall de casa, e procurou a bicicleta atrás do velho tonel à entrada, do lado direito. Limpou o assento, atestou os pneus com a bomba de ar, lubrificou a corrente com a almotolia que o inventário dizia estar na segunda gaveta do armário do outro lado da porta, e montou a máquina. Felizmente os pneus não estavam furados.
Subir o estradão de terra, pelo meio das vinhas, ao nascer do sol, fez-lhe recordar os tempos difíceis mas infantilmente felizes de quinze anos atrás.
Pedalar era confortável. Não lhe magoava o tornozelo ferido.
A missa das sete era a mais concorrida do dia, antes do trabalho começar. Sebastian chegou pouco antes da hora e sentou-se no antepenúltimo banco, discretamente, como se fosse possível. Ninguém o conhecia mas todos sabiam quem era o menino Sebastian, da quinta grande, que estava por lá, e também estranhos, por ali, não havia muitos
No final da cerimónia saiu e dirigiu-se à porta lateral, por onde saía o padre, com a bicicleta pela mão.
“-Bom dia senhor padre. Preciso de falar consigo.”
“- Sebastião, que bom ver-te”, e abraçou-o com um sorriso largo, como se já o aguardasse. “Se estás aqui a esta hora da manhã é porque é assunto sério”.
“-Não lhe quero tomar muito tempo.
Estou em falta consigo e tenho de lhe pedir desculpa, que me perdoe a minha impertinência, da forma como lhe falei ontem.”
“-Nem reparei”, mentiu piedosamente. “Conheço-te de miúdo. Enérgico e decidido, com todas as certezas do mundo. Não gostas de ser contrariado nas tuas decisões. Isso é uma qualidade nos tempos que correm, sabias? Faltam-nos homens inteligentes e com convicções. Corajosos, também. Vires aqui falar é um acto de coragem e de respeito para comigo.
Anda, vamos ali a casa. Tenho algum tempo disponível.”
Contornaram a igreja até à casa do padre e entraram.
Sentaram-se nos mesmos lugares da véspera.
“-Espera! Vou buscar café que tenho ali feito. Ainda deve estar quente, do fogão.”
Pousou duas canecas, a cafeteira e um prato com biscoitos doces.
“-Então que te traz aqui tão cedo?”
“- Senhor padre, estou para lhe falar há muito. Já estive para lhe escrever”.
O padre não reagiu. Curioso com o início de conversa, sem saber para onde ela evoluiria, mas suspeitando do que se seguiria.
Sebastian fez uma pausa, como que a ganhar coragem. O padre, sabedor das angústias das almas, deu-lhe tempo e espaço para se compor, sem a pressão de quem tem pressa, pouca paciência ou julga saber a solução de um problema de que nem ouviu.
“- Ontem fiquei triste com as suas palavras. Perdoe-me dizer-lhe que me desiludiu. Contava mais contenção e serenidade da sua pessoa, de um padre católico de um país nobre e conservador, e surpreendeu-me a ligeireza com que encara a nossa sociedade e o sucesso das nações.”
“-Vens dar-me lições de contenção? Não te imaginava um conservador. Tu? Porquê tu?”
“- Não sou conservador. Tenho é receio do que pode vir a seguir à libertação descontrolada das amarras e normas, caducas mas ainda assim formadoras que nos regem. As erupções descontroladas resultam em pior do que os processos evolutivos. E desconfio muito da bondade dos que se dizem progressistas.”
“- Também leste George Orwell?”
“- Claro. The Animal Farm foi tema de discussão no colégio. Nós, os alunos, sentíamo-nos os porcos revoltados. Fazia parte da nossa conduta de adolescentes revoltados com o rigor das pesadas regras. Mas os líderes da revolta, que nunca chegou a ser, eram piores do que os contínuos mais severos. As praxes e castigos de quem não seguia as regras revolucionárias eram muito mais violentas do que as normas vigentes.”
“- Isso é normal, na convivência entre jovens confinados num internato.”
“- Mas a discussão nasceu pela circunstância de sermos minorias dentro da minoria. O colégio era católico, o Ampleforth College, no Yorkshire.
Lá, a maior parte dos alunos era de uma grande minoria, os católicos ingleses. Mas também tínhamos anglicanos, claro, e vários alunos das colónias, de várias raças: africanos, indianos, árabes, judeus e caribenhos.
Em 1945, no fim da guerra, quando lá entrei, o ambiente em torno dos temas racial, religioso e social, naquele pequeno universo, estava explosivo. Durante a guerra, tudo fora prometido. Agora tudo era esperado. Para adensar o ambiente, o Animal Farm sai nesse ano e torna-se um sucesso imediato. O diretor chegou a proibir que se abordasse as questões polémicas nas aulas, mas dúvidas eram muitas e as cópias circulavam por todos os dormitórios.
Eu sei que a história é uma sátira à revolução bolchevique de 1917, mas encaixa-se em qualquer ambiente de rigor e regras apertadas, onde uma revolta leva quase inevitavelmente à corrupção do poder e traição dos ideais revolucionários.
O colégio era confessional mas não exclusivo. Eu tinha colegas judeus, árabes e indianos, tanto hindus como muçulmanos.
Em Agosto de 1947, dá-se a independência da Índia e do Paquistão. Eram todos indianos mas deixaram de se falar nessa altura.
Mas o pior foi em 1948, com a fundação de Israel. Para judeus e árabes, que chegaram a fazer pandã, antes, contra o mandato britânico, a partir dessa data foi o fim do mundo. Os judeus acabaram mesmo por abandonar o colégio.
Quando eu saí, em 1952, praticamente só sobravam africanos e caribenhos, além de ingleses. Os outros tinham saído quase todos, entretanto, em conflito.
Havia um ambiente de revolta e vingança. Não tinha de ser assim, os fins nem sempre justificam os meio, mas as sementes estavam lá todas. Árabes, judeus, indianos e pasquistanes estavam em conflito entre si e contra nós.
Mas o exemplo vinha de cima. Durante a guerra, o Mufti de Jerusalém, Amin al-Husayni, esteve em Berlim. Foi procurar apoio nazi para a causa palestiniana, sabendo do ódio dos alemães aos judeus. Eu compreendo que, por vezes, o inimigo do meu inimigo torna-se meu amigo. Mas isto foi um exagero.
Também da Índia, Subhas Chandra Bose foi a Berlim, em 1942, procurar apoio para a sua causa independentista. Criou uma aliança com a Alemanha Nazi e o império japonês. Os alemães até prepararam uma brigada de combate, a Indische Legion.
De um momento para o outro, já não podíamos confiar nos indígenas, nem planear o futuro do império britânico.”
Fez uma pausa para beber o café que já não estava quente.
“-O meu pai morreu a defender o Egipto e a Palestina do jugo racista nazi. Hitler chegando lá, se conseguisse, não sei se ia exterminar só judeus.”
“- E em que parte é que entras em conflito comigo?”, perguntou o padre, desafiador.
“-Mal ou bem, o problema já está criado no Médio Oriente e na Índia. Judeus e árabes, de um lado, e paquistaneses e indianos, do outro, já se começaram a matar. Mas agora o mal vai para outras paragens. Os franceses já estão em guerra, na Indochina, e vão ter grandes sarilhos na Argélia. Num lado como noutro, guerrilheiros comunistas instigados por russos e chineses.”
“-Mas queres perpetuar a ordem colonial?”
“-Claro que não. Mas acho que só se deve dar independência com um referendo a todos os residentes, europeus e locais.”
“-Mas ao longo de séculos, os territórios foram retirados pelos europeus aos locais.”
“-Mas também levaram civilização, lei, ordem e progresso.”
“-Não é assim, Sebastian. Nos tempos que correm, temos de repor os direitos dos povos, compensar os saques de séculos.”
“- E nos Estados Unidos, Brasil ou Austrália? Os brancos também devem sair de lá?
“-São casos diferentes. Os brancos são em número muito elevado e as independências já foram há muitos anos.”
“-É só uma questão de tempo e número? Qual é a moral? Para isso, os portugueses estão há mais tempo em África, ou na Índia, do que os ingleses na América ou na Austrália. Também lá estão em número significativo. Mas os americanos acham que têm de sair e, inocentemente apoiam grupos terroristas.
O General Eisenhower foi agora eleito presidente. Ele, como bom americano, é completamente a favor das rápidas autodeterminações dos povos. São uns ingénuos, manipulados por Estaline. Todos os movimentos revolucionários são instigados e financiados pelos soviéticos. Quando acordarmos, a Ásia, África e América Latina serão todas exploradas pelos soviéticos.
Os povos estão a ser manipulados por pequenos grupos, bem organizados e financiados por Moscovo, com o objetivo de ocupar o poder esvaziado pela retirada dos europeus. Ao mesmo tempo, as sociedades europeias estão a ser instrumentalizadas para aceitar a bondade das intenções soviéticas, cedendo e facilitando a emergência destes grupos armados como legítimos representantes do povo, sem eleições nem sequer formação cívica adequada. Estes poderes nacionalistas, mas ao mesmo tempo internacionalmente socialistas, vão tomar o poder pela força e enriquecer a explorar minérios e combustíveis. Vai acontecer uma usurpação e substituição dos poderes coloniais, por outros poderes de matriz desconhecida e controlados por uma potência, a União Soviética, com valores e leis muito diferentes dos nossos. O que vai acontecer é só uma substituição de poder. Nós vamos perder mas os povos indígenas vão perder muito mais.”
O padre olhava-o atentamente. Mais do que aceitar ou discordar, estava surpreendido com o activismo político do jovem. Nada fazia prever que atrás daquela capa de tranquilidade, rigor e trabalho, também estivesse uma personalidade tão interessada e incisiva no governo do mundo. Rogério era um homem viajado, atento à evolução, aberto aos novos ventos de mudança. Nascido num ambiente de pequenos proprietários e funcionários públicos de cidade de província, viajara pela Europa de entre guerras, estivera em Paris nos anos vinte das revoluções sociais e culturais, mesmo sem perceber exatamente o que estava a acontecer, e assistira à ascenção e consolidação do poder de Mussolini, em Roma, com apreensão. Regressado a Portugal, em plena crise europeia do final de 1929, não de encaixou no ambiente conservador e militante da ditadura militar instaurada anos antes com a cumplicidade dos católicos mais conservadores.
Foi quando surgiu a oportunidade da missão em Moçambique. Lá, conheceu a realidade colonial portuguesa de Lourenço Marques e o atraso endémico do interior de África, de subnutrição e doença, mas em liberdade e comunhão com a natureza. Também viajou pela Rodésia colonial e pela jovem república da África do Sul, onde viu racismo e exploração. Solidarizou-se com a necessidade e ingenuidade daqueles povos autóctones que nunca eram ouvidos nas decisões de soberania.
Sebastian continuou.
“-Não concordo com a sua visão do mundo. Com o que acha ser o melhor para as pessoas.
Se percebo e aceito que devemos dar o voto democrático às populações, temos de ter a certeza de têm o conhecimento e liberdades suficientes para decidir corretamente.”
“-É assim que achas que deves actuar? Manifestares-te a reclamar ao vento?”.
O padre já não escondia a sua irritação.
“-Estive na guerra. Voluntário.”
O padre levantou o sobrolho. Não sabia do que é que ele falava. Qual guerra? Já tinha acabado há mais de dez anos, quando ele era miúdo.