Josefina Madeira . 14

O sol do fim da manhã inundava o terraço onde Josefina aguardava, sentada, com a bagagem ao lado, o pequeno saco de lona da cor da farda, bebericando a limonada que Maria fizera entre elogios ao limoeiro abrigado à porta da cozinha, orgulhosamente plantado por si há muitos anos, de cujos limões extraira o suco, e que nunca a tinha deixado mal, de tão sumarentos e saborosos.
As horas passavam, as onze já se tinham ido, os barqueiros mostravam ansiedade, o farnel de Maria embrulhado no cesto de vime para a viagem esperava em cima da mesa e Sebastian não aparecia.

Na feição da corrente, a viagem seria mais rápida, mas nunca menos de seis horas e meia.
Embora podendo aproveitar todas as horas de sol de um longo dia de julho, o piloto não queria adiar mais a partida para não correr o risco de chegar na penumbra, atrasado por um qualquer imprevisto da navegação.
O barco não partia sem Sebastian e ele tinha dito que vinha mesmo. Após a segunda escalada do piloto para tentar confirmar a partida, preocupado porque não queria sair depois da uma, já passada a meia hora da tarde, Josefina toma a decisão de embarcar, carregar a sua bagagem e a de Sebastian, que entretanto ficara pronta no hall ao fundo das escadas, despedir-se de Maria e trazer o farnel.
Josefina sentou-se descontraidamente no banco corrido da barcaça, junto à cabine, cruzou a perna e ajeitou o chapéu. Quando piloto já olhava para o último minuto antes da uma, no relógio de navegação do barco, um ciclista assoma na entrada da quinta, iniciando rapidamente a descida sinuosa.
“-Ligue o motor, que já se faz tarde!”, ordenou Josefina, na sua primeira manifestação de autoridade, não usurpada porque já havia sido concedida por Sebastian por mais de uma vez, com o impacto da sua juventude nos dois homens, que também não perceberam por qual canal etéreo se correspondera a miúda com o inglês.
Sebastian largou a bicicleta à porta de casa, deu um abraço a Maria, que o esperava, numa despedida breve de quem não vai ficar longe por muito tempo, chapinhou provocadoramente o Tritão na passagem pela fonte, e desceu as escadas do cais, em corrida e sem coxear.

“-Won’t you wait for me?”
“-Course not”.
Sebastian sorriu
“- … arrived just in time.”
“- I know the priest had an appointment at one o’clock.”
“-How do you… Forget!”, com um gargalhada.

Passaram a ponte do comboio, já o sol se punha atrás da cidade alta, para lá da foz.
A viagem tinha sido tranquila, quase monótona, numa repetição de paisagem, agora invertida, já sem a expetativa da novidade, na conformação do regresso da festa.
Sebastian passou quase todo o tempo a escrever páginas no seu caderno, algumas vezes texto corrido, de virar folhas, outras de caligrafia trabalhada como se desenhasse calmamente. Se calhar desenhava. Josefina não consegui ver o que fazia.
Sentado em cima da escotilha de madeira, larga, de acesso ao pequeno porão, encostado à cabina, escrevia contra os joelhos dobrados em suporte ao caderno. Se ele quisesse mostrar, tê-lo-ia feito. Seguia distraído do rio e das margens, como se já não lhe interessasse a rever a paisagem, ou como se outra coisa mais importante lhe tivesse acontecido. Josefina sabia que a disposição aliviada vinha da conversa com o padre.
Estava em paz porque desabafara a sombra que pairara da conversa da véspera e revelara parte da sua vida que o formou, marcou e condiciona a vida.

“-Qual guerra? A guerra passaste-a aqui e eras miúdo”, perguntara-lhe o padre, horas antes.
“- A guerra nunca acabou, só mudou de lugar, baixou de intensidade e tornou-se subversiva.
No Egito, Nasser anda a brincar connosco, às voltas com o Suez.
O canal foi construído por franceses, mas foi cuidado e financiado por nós.
O que trouxe o canal até aos nossos dias foi o financiamento, em 1875, negociado por um dos nossos mais brilhantes primeiros-ministros, Benjamin Disraeli, por sinal descendente de judeus sefarditas portugueses.
Naquela altura, o canal estava falido, gerido por egípcios e franceses corruptos, e os únicos interessados éramos nós, para a ligação do Mediterrâneo ao Índico, para ligar a Europa à Ásia, a Inglaterra à Índia. Unir a civilização.
Disraeli dispôs de meios e tropas para manter a navegabilidade em segurança, que perdurou por mais de um século. Se tivesse continuado entregue aos egípcios e otomanos, provavelmente assoreava-se por desleixo ou destruir-se-ia em atentados nas múltiplas revoltas da decadência dos mamelucos.
Eu não tenho nada contra autonomia e independência dos povos do Império, mas os nossos investimentos devem ser salvaguardados em proveito mútuo, as leis devem ser aplicadas e a justiça entregue a tribunais justos.”
O padre olhava-o atentamente, apreciando a argumentação mas sem concordar.
“-Sabes que a minha visão não é essa.
Eu acredito que um povo deve ter o direito de viver na sua terra, ser senhor dos seus domínios e decidir livremente o seu futuro. Se os egípcios querem o canal e se o canal é no Egito, os colonizadores só têm de o largar o mais rápido possível. É assim que tem de ser.”
“-Mas eu não estou a discutir a posse só pela posse.
O que eu sei é que de todas estas novas nações, que estão a nascer neste processo de independências em curso, apadrinhado pelos americanos e pela ONU, poucas têm capacidade de se governar. O que vai acontecer é que ingleses, franceses e portugueses vão ser expulsos das suas colónias e substituídos por russos ou por grandes companhias americanas, a explorar recursos energéticos e minerais. Vai ser o substituir de um pelo outro, com perda cultural e identitária das novas nações.
A propriedade pode passar para os locais, mas a gestão e controlo do negócios vai ser entregue a estrangeiros, com novos hábitos e desligados da realidade, de grandes companhias americanas ou apparatchik.
O que aconteceu na Índia foi uma afronta, e agora repete-se no Egito. Nós só estamos a ser substtuídos nas administrações.”
“-Disseste que estiveste na guerra?”, perguntou o padre, para soltar o imbróglio argumentativo.
“-Eu saltei de paraquedas sobre Port Said, com a 16ª Brigada Aerotransportada.”
“-Na crise do Suez?”, perguntou o padre surpreendido.
“-Sim. Operação Musketeer. Vai fazer dois anos a 5 de novembro”.
Sebastian referia-se ao assalto de paraquedas da 16ª Brigada Aerotransportada Britânica, onde cerca de 2000 homens e 200 toneladas de equipamento, em 100 aeronaves, numa operação conjunta de franceses e ingleses, tomaram controlo de Port Said e do canal do Suez, na noite de mau tempo de 5 de novembro de 1956.
A operação foi um sucesso militar. A 16ª Brigada permaneceu em Port Said até a sua retirada, em março de 1957, por pressão dos Estados Unidos, União Soviética e da ONU. Foi um desastre político.
“-Não fazia ideia de que foste militar.”
“-Ninguém sabe. Aqui, só os meus primos, e reservam-se.”
Sebastian falava com amargura. O padre olhava-o com curiosidade.
“-Não fomos bem recebidos no regresso da missão. Em Inglaterra, há cada vez mais gente a pensar como o senhor, mas nós estávamos certos. Fomos traídos por Eisenhower.”
“-Passaste lá o tempo todo?”
“-Vim embora no final de janeiro. Fui ferido numa emboscada. Um sniper. Provavelmente um terrorista da Irmandade Muçulmana. Matou um camarada meu. Eu fui atingido no calcanhar esquerdo.”
“-Por isso coxeias?”
“-Não é nada. A bota quase aguentou o projéctil. Os sapatos ingleses são os melhores do mundo.”
“-Mas feriu-te.”
“-Tive de fazer uma pequena cirurgia. O médico disse que recuperava num ano. Já vai a meio do segundo, mas há-de passar.”
O padre apreciava o rapaz. Decidido, culto, inteligente, corajoso, trabalhador, mas também idealista e orgulhoso. Um romântico fora de tempo.

O barco acostou na margem, já a sombra da cidade cobria o rio com luz de fim de tarde. Josefina pegou na sua pequena bagagem e no cesto ainda meio cheio que Maria recheara. Sebastian juntava o seu cadernos, lápis e folhas soltas, no saco verde cilíndrico que lhe fazia de mala.
“-Até amanhã, Josefina.
Espero que tenha sido proveitoso e agradável”.
Josefina sorriu.
Além dos ensinamentos que recolhera, sobre vinhas, tratamentos e vinificação, que lhe encheram o caderno de notas, tinha crescido na sua maturidade no relacionamento com as pessoas.
Nos poucos dias ou horas que estivera na quinta, percebera um pouco o que era uma vida de privilégio e conforto, a diferença entre exercício da autoridade por hierarquia e delegação e a sua imposição natural por sabedoria e experiência, o temor e reverência que o poder provoca na perspetiva de quem manda, a responsabilidade da consequência das ordens que se dá, a necessidade de tudo saber, nas três perguntas que Sebastian repete sem parar – o quê? como? e para quê?, a necessidade de pensar os grandes problemas com mais de uma década de antecedência, inovar e imaginar soluções para resolver o que provavelmente vai acontecer, fazer pensar, explicar e melhorar.
“-Muito obrigado”.
Josefina não conseguia verbalizar os pensamentos e sensações que lhe passavam na alma.
Sebastian olhava-a fixamente, com um sorriso, de pé, no cais junto ao armazém, cabelos louros em pala sobre a testa esvoaçantes à luz vermelha do poente, enorme saco verde tropa, cilíndrico, a tiracolo na vertical, como chegado da guerra.
Ele sabia exatamente o impacto da sua presença e palavras numa criança inteligente, já endurecida pela dureza da vida e necessidade de sobreviver pelo trabalho.
“-Peço desculpa por algum excesso, mas, como compreende, voltar lá foi muito exigente emocionalmente.”
Foi maravilhoso, obrigado. Foi o que Josefina pensou mas não conseguiu dizer.
“-Amanhã, às oito horas, estamos aqui outra vez.”
“-Obrigado”. Foi apenas o que disse.
Despediram-se com uma vénia.

Josefina subiu a Rua Direita, que agora ainda lhe parecia mais torta, desviando-se das sujidades orgânicas que escorriam para o rio, com passos largos e decididos, com o saco sobre o ombro direito e o cesto de Maria na mão esquerda, ainda com a maior parte de farnel intacto que Sebastian insistiu dar-lhe.
Cruzou alguns vizinhos que cumprimentou apertando a pala do chapéu, naquele gesto rápido de quem simula tirá-lo, com o sorriso e voz colocada do emigrante bem sucedido chegando a casa.

“-Ai, minha filha. Não tenho nada para o teu jantar”, exclamou na sua instintiva preocupação maternal, “Não te esperava”, num rápido abraço.
“-Não se preocupe. Trago comida para as duas.”
“-Trataram-te bem? Comeste?”, já numa observação atenta da nutrição e de outros indícios só perceptíveis às mães.
“-Muito bem, mãe. Foi muito bom”, com uma desenvoltura e disposição que abafou a preocupação dos últimos dias, mas despertou para uma pequena alteração que a mãe ainda não compreendia. A filha olhava-a de frente, descontraída e feliz.
Maria já vira muito do mundo e desconfiava de homens mais velhos, de outras paragens. A sua menina estava diferente. O seu pensamento não saía do temor do abuso do poder e ilusão, no mais básico das relações humanas, e só não queria que a filha se perdesse aos seus treze anos num equívoco que marcaria a sua vida, naquele meio de gente simples como ela, naquela meia milha do rio ao apeadeiro.

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