Faltava menos de um mês para as vindimas, já havia espaço na adega da quinta para as pipas do vinho novo, o armazém da cidade já estava arrumado com o que entretanto viera rio abaixo, e o calor do pino do verão não aconselhava engarrafamentos.
Josefina aproveitava para verificar todos os barris, vertimentos e arrolhamentos, e, principalmente, se estavam bem calçados. Ela já deveria ter martelado todas as cunhas do armazém duas ou três vezes, nos meses que levava de trabalho. Levava a obrigação muito a sério. Nem queria imaginar o desperdício de um barril quebrado no chão ou o risco de um desmoronamento, para si e para os outros trabalhadores.
Toque-toque-toque, ouvia-se a martelar todo o dia, nas últimas semanas. Toque-toque-toque com tanto esmero que valeu-lhe alcunha posta por Sebastian: “Woody Woodpecker”, o pica-pau vivaço que escapa sempre dos apertos.
Josefina não conhecia o pica-pau personagem de desenho animado, mas poderia saber, como sabia do Mickey, que passava nas projeções na praça do mercado da beira rio nas noites dos sábados de verão, por iniciativa do fotógrafo da avenida, que obteve autorização para apontar o seu animatógrafo portátil à parede lateral da igreja, num cinema improvisado ao ar livre de cadeiras de jardim e lugares de pé, negócio de donativos recolhidos no momento e patrocínio dos cafés da praça.
As sessões já eram famosas. A cultura cinéfila crescia a entre a população ribeirinha. O género preferido era o western, mas também se apreciava a justiça moral sobre nazis, gangsters de Chicago na disputa do mercado do uísque, exploradores em subida pelos rios africanos, beduínos a lutar por oásis, Tarzan entre os leões. Aplaudia-se sapateados e assobiava-se as pernas das bailarinas. Nem todos sabiam os nomes dos atores mas as faces de James Cagney, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Johnny Weissmuller, Fred Astaire e Ginger Rogers, Cary Grant ou John Wayne, passaram a ser tão familiares como as de qualquer caixeiro viajante, cobrador, ou outro forasteiro, dos muitos regulares que passavam por lá.
Toque-toque-toque.
O pica-pau enérgico e decidido nunca passara no cinema de ar livre da praça do mercado, mas morava na imaginação de Sebastian, do fundo da sua memória de infância.
Todos os dias, de manhã cedo, verificavam documentos de transporte e ordens de serviço, planeavam movimentações e marcavam horários de operação. Sebastian vigiava e orientava os trabalhos, produzia documentos e relatórios. Josefina executava tarefas e orientava trabalhos.
“-Tens treze anos e seis anos de escolaridade. Quero que vás fazer o curso comercial no horário noturno. Quero que vás estudar.”
Foi assim de rompante, mais imperativo do que sugestivo, numa segunda feira do princípio de setembro, que Sebastian decidiu o futuro imediato de Josefina.
“-Estás aqui há pouco mais de seis meses e gosto do teu trabalho. Aprendes rapidamente, és curiosa e trabalhadora. A evolução do teu inglês é formidável, muito melhor do que o meu português, e isso é um ótimo indício da tua capacidade de aprendizagem.”
“-Mas eu não sei se sou capaz. Tem coisas difíceis, é preciso estudar muito.
Eu gosto de trabalhar…”
“-Gostas de trabalhar mas tens de evoluir. Não vais passar a tua vida toda na adega. É um desperdício.”
Ela ouvia, mas não se entusiasmava. Não se imaginava a perder tempo a estudar matérias abstratas que nunca viria a necessitar na sua vida, coisas que ninguém do seu trato conhecia.
Saber ler e escrever e fazer contas, sim. Saber linhas do comboio, rios e serras, também.
Gostou de aprender francês. No ano anterior, na pensão, tiveram de a chamar, a ela, simples lavadeira, ao salão, para perceber um estrangeiro que só falava francês. Pouco adiantou mas o homem sentiu-se mais confortável por se fazer entender.
Saber medidas de peso, distância e volume também é necessário, mas decorar aquelas coisas das ciências naturais já lhe parecia tão difícil como desnecessário.
Também não queria passar os serões de inverno fora de casa, na escola. É escuro, frio e cansativo. Chegar a casa depois das onze horas da noite e ter de levantar antes das sete horas da manhã.
Estudar para quê? Já tinha um trabalho bom e de certeza que ninguém lhe iria dar um muito melhor do que este, por mais que estudasse.
“-Quero que aprendas dactilografia, contabilidade, economia, direito comercial, além de matemática, português, mais inglês, e outras disciplinas que tenhas”.
Josefina não estava a conseguir travar o entusiasmo dele.
“-Vão ser anos cansativos…”
“-Não vai ser nada.
Eu deixo-te sair às cinco horas, para ires a casa e começares as aulas às seis e meia. Depois também te deixo, de manhã, chegar depois das oito meia. Se for preciso estudar, se precisares de dias para exames, também se arranja.”
Ela começou a perceber que o incentivar do estudo não era um capricho dele ou uma benesse de chefe. Era uma obrigação, uma ordem. Ele estava a ordenar o estudo.
Nessa noite falou com a mãe.
“-Vais estudar para quê? Sabes ler, escrever e contar, tens boa cabecinha e falas bem estrangeiro. Tens um bom emprego, és apreciada pelos patrões e respeitada pelos colegas. Se calhar podes chegar a encarregada, como o Ernesto, coisa nunca vista numa mulher, para mais, filha de lavadeira.
Isso é coisa de ingleses, que não precisam de trabalhar para viver.
No dia seguinte, ao fim da tarde, Sebastian acompanhou Josefina a casa.
“-Dona Maria, venho aqui pedir-lhe autorização para inscrever a sua filha na Escola Comercial.
Ela é inteligente e trabalhadora, tem capacidade para progredir na vida.
O mundo está a mudar muito depressa. Temos de aprender coisas novas todos os dias. Mas, para isso, precisa de estudar, adquirir conhecimentos que a prática, só no trabalho, não lhe proporciona.”
Perante o silêncio de incompreensão, ignorância e desconfiança mal disfarçada, prosseguiu.
“-Em nada será prejudicada.
Vou permitir que saia meia hora mais cedo, todos os dias, para poder vir a casa jantar e chegar a tempo à escola. De manhã, também poderá chegar meia hora mais tarde, para descansar.
Depois, quando tiver exames, vou autorizar horas para estudar.”
Sebastian percebia que não era convincente. Ia repetir o discurso, quando Maria falou de supetão, sem tirar os olhos do chão
“-Ela faz bem o que faz. Se vai estudar, pode perder-se e não conseguir. E os senhores podem pôr um moço no lugar dela. E depois nem estuda e perde o trabalho, volta para o tanque, subir e descer a rua com o cesto da roupa à cabeça. Os outros que fizeram o trabalho dela, não estudaram. Desde a minha meninice que venho homens a tratar das pipas. Porque é que a minha Fina tem de saber mais do que os outros, trabalhar mais ou estudar? Não quero que ela se perca do trabalho.”
“-Não tem de fazer mais do que os outros.
Ela é mais do que os outros. Não de pode desperdiçar isso.”
Maria mantinha a expressão dura e olhos baixos. Tinha medo das mudanças. O seu mundo era o de sempre. Desde o tempo da sua avó que havia ingleses no vinho, barcos no rio e comboios na estação. Carvão, fruta e bacalhau descarregados nos muros de amarração, estaleiros na praia, burros e carros de bois rua acima. A escola não era para elas, mulheres do povo. Ficavam nas limpezas e trabalhos menores.
Mal sabia ler e a sua filha já tivera de ficar na escola até aos dez anos. Mais do que suficiente para saber muito mais mais do que ela aprendera.
O liceu era para os filhos dos fidalgos. A professora da filha ainda a convencera a fazer a sexta classe, a trabalhar ao mesmo tempo, até aos doze anos. Já muito tinha feito.
Vendo que nada conseguia, Sebastian atalhou a conversa.
“-Ela precisa de estudar para continuar a trabalhar. Se não estudar, não a quero a trabalhar.
A escola começa no mês que vem. Amanhã, vou lá com ela, matriculá-la. Mas depois, preciso que a Dona Maria vá lá comigo.”
Sebastian foi duro, mas sorria.
“-Muito obrigado, Dona Maria.”
Despediu-se com uma vénia e saiu, decididamente, como sempre.