Os dias, semanas, meses, passaram numa sucessão tranquila e ordenada, naquela forma suave que percebe as rotinas, hábitos, gostos, impulsos e limitações que compõem a moldura de personalidade e circunstancialismo dos outros, sem atritos nem inquirições.
Josefina não fazia perguntas mas na proximidade de várias horas diárias de trabalho e organização, conhecia cada vez melhor o homem responsável pela mudança na sua jovem vida.
Sebastian dormia grande parte das noites no pequeno quarto contíguo ao seu gabinete, de forma tão discreta que nunca deixava qualquer vestígio de desarrumação nem objectos pessoais expostos, durante o dia, como se a mobília estivesse pregada ao chão e a coberta da cama fosse rígida, evitando deslocações noturnas para casa dos primos, nos curtos dias de inverno em que trabalhava até tarde e levantava cedo.
No verão, mais descontraído, também acabava por ficar várias vezes a dormir no seu quarto de trabalho, ao fim de semana. Gostava de se divertir na boémias dos bares e casas de fado ribeirinhos. Bebia demais e deitava-se tarde, entre cantorias e discussões de bêbados com marinheiros de navios de várias nacionalidades, que todos os dias aportavam no cais, e conversas inconfessadas com espanholas de companhia. Não era de exageros, nem de passar vergonhas. Falava-se disso entre o pessoal, à boca pequena, mas, na verdade, ninguém sabia de conflitos ou faltas de respeito. Nesses dias era um embriagado com personalidade.
Josefina começou a ouvir essas histórias e notou o crescendo de episódios. O que seria novidade, ou excentricidade, passou a regra semanal. Como se Sebastian escondesse uma dupla personalidade, da qual não se orgulhava, que irrompia a horas certas num grito de alerta do marasmo da disciplina e racionalidade quotidianos, contraditório porque ele mantinha a afabilidade no trato e a competência no trabalho.
Em momento algum se percebia a saturação ou o cansaço, mas a intuição, cada vez mais madura, fazia-a perceber o tumulto naquele espírito fascinante e imprevisível, despertando-lhe um instinto maternal que a surpreendia.
Pelas onze horas da manhã, saía ruidosamente da garagem, na sua Bessie, para jogar a partida de golfe diária, e voltava pelas três da tarde. A Bessie era o orgulho de Sebastian, a sua BSA Gold Star 350 Highland Green.
Fazia a estreita estrada marginal, junto ao rio, pelos armazéns e estaleiros, até à foz, cruzava a aldeia dos pescadores, divertido, com as crianças a correr atrás dele por entre estendais de roupa a secar ao sol e ao vento, acelerava por estradões de terra entremeados com troços de asfalto e empedrado, atravessando os pinhais junto mar, até chegar ao bairro de traçado geométrico das casas burguesas e dos dois sanatórios, onde doentes acamados nas varandas soalheiras de helioterapia, acenavam na sua passagem pontual, despertados pela emoção e ruído do potente motor monocilíndrico.
Sebastian jogava a volta completa de nove buracos, aproveitava o balneário para o banho diário e muda de roupa, comia uma sande no club, e voltava pelo mesmo trajeto, na repetição de acenos convalescentes e infantis corridas, a tempo do meio dia da tarde de trabalho.
No julho do ano seguinte, Sebastian fez as visitas às vinhas, à adega e, claro, a Dona Maria, deixando Josefina com a responsabilidade total do armazém de expedição. Não lhe deu qualquer indicação ou recomendação. Avisou na noite da véspera que no dia seguinte embarcava rio acima, para verificar produções e condições de vinificação. Foi tudo tão natural e descontraído que ambos surpreendeu. Josefina dominava os procedimentos de armazém e mostrava-se habilitada a gerir tranquilamente rotinas e imprevistos.
Sebastian descontraía-se como se se desinteressasse do trabalho, na tranquilidade de saber que Josefina, miúda com recentes dezasseis anos, já quase podia substituí-lo, se necessário fosse, nas rotinas e responsabilidades do trabalho.
Na escola comercial, ela também demonstrava a capacidade que ele lhe reconhecera de início, passava provas sem sobressaltos e com valores acima de bom, adquirindo conhecimentos a revelarem-se úteis no trabalho diário.
Os filmes sucediam-se no cinema ao ar livre. No verão seguinte, um deles marcou a audiência, os irmãos Marx no circo, e teve de ser repetido duas vezes, com a mesma agitação e gargalhadas. Outro passou despercebido, mas ficou a ser o filme da vida de Josefina.
Viu-o com Sebastian, das poucas vezes que se encontraram fora do trabalho, por convite e insistência dele. Ele queria revê-lo.
A história rodava em torno de uma mulher fatal casada com um gangster, envolvida com o subalterno do marido, traições, enganos, mortes forjadas, política, ameaças e violência, com elegância natural.
“-Pareces-te com ela!”, sussurrou-lhe Sebastian, com um sorriso tímido, já a meio da segunda parte, na primeira e única vez em que se referiu à sua figura.
Uma mulher de uma beleza magnética, pouco óbvia, olhos penetrantes, cara angulosa, olhar altivo, voz quente. O cabelo da atriz era parecido com o de Josefina, que no preto e branco do cinema confundia o seu castanho claro como o ruivo do ecrã.
Pela primeira vez sentiu-se mulher, desejada e apreciada, como aquela atriz americana. Não percebeu bem a história, nem se interessou. Só atendeu à pose, à voz, ao jeito, ao penteado, à fatalidade, que iria copiar e seguir toda a sua vida.
Gilda. Rita Hayworth, leu e memorizou, no genérico final.