Josefina Madeira . 18

“-Mãe! Vou estar fora dois ou três dias no final da semana. Tenho de ir à quinta dos patrões, organizar coisas.”
“-Sim, filha. Vai.”
“-Vou com Sebastian.”
Maria continuou na sua lide, como se não desse atenção.
“-Ele, depois, vai para Inglaterra, dois ou três meses, tratar de coisas dele, e vai deixar-me a cuidar do armazém.”
A filha já não era um problema para Maria.
“-Não quero que haja problemas. Quero ir lá com ele, para anotar tudo o que for preciso.”

A mãe ouvia o entusiasmo da filha com a serenidade de quem já tinha cumprido a sua obrigação de criação.
Josefina, aos dezoito anos, já ganhava, num mês, mais do dobro do que ela ganharia em trinta dias de doze horas de lavandaria pesada, sem folgas. Trabalhava muito, é certo, em coisas que ela não compreendia, tinha estudado coisas difíceis, cheias de números. Tinha gosto e vontade de prosseguir.
O negócio do vinho também progredia bem. Sabia pelo Ernesto e por conhecidas que trabalhavam nos engarrafamentos sazonais. Havia cada vez mais trabalho.
A filha já era de quem se falava. Andava sempre com os ingleses, principalmente com o rapaz chefe dela. Ouvia-se más línguas, dizia-se coisas, por ser mulher entre homens, ou coisas piores, por andar sempre de calças, mas o trabalho dela já apagava tudo isso. Até já se dizia que parecia que era ela que mandava neles.
Maria não queria saber disso. Sentia-se fraca, com ataques de tosse nos últimos meses. Já evitava ir para o tanque nos dias mais frios, mas insistia em trabalhar. Não querendo depender da filha, tinha de ganhar para renda da casa e para o seu sustento, mas sentia um grande alívio em ver a progressiva independência dela.

“-Vai, minha filha.”
“-Mas a mãe fica bem? Agasalha-se e tome o xarope?”
“-Tem juízo! Tratas-me como uma velha. E são só dois dias…
Vai tratar da tua vida. Tem-la toda pela frente.”

Na quarta-feira, Josefina foi trabalhar com um pequeno saco de viagem. Desencontrara-se de Sebastian, na véspera, e não esclarecera se iam nesse dia ou no seguinte. Na dúvida, levou bagagem e avisou a mãe, que encolheu os ombros na incompreensão da descontração da gente nova.
“-Que não te percas no caminho.”

Esse dia foi mais complicado do que previam.
Grande parte do vinho já chegava por camião. As estradas e os veículos tinham melhorado muito, nos últimos anos, tornando o transporte rodoviário mais eficiente do que o fluvial. Um camião transportava o triplo da carga de um barco, mais rapidamente, de armazém a armazém, sem perdas nos cais, só ocupando um motorista por viagem. O investimento no camião era mais elevado mas amortizava-se rapidamente, sendo, também, mais fácil de subcontratar externamente.
Quando o grosso do transporte era feito por barco da empresa, os horários eram relativamente fixos, e sabiam que quantidade chegava por dia. Agora, quando calhava de juntar dois camiões, por vicissitudes dos transportadores, era como se chegassem seis barcos ao mesmo tempo. Não era um drama, mas, entre descargas e colocação nos sítios certos, tiveram de trabalhar quase seguido desde manhã cedo até às duas da tarde, com pouco tempo para conversas.
Quando acalmou, Josefina comentou com Sebastian
“-A que horas vamos amanhã?”
“-Pela hora do almoço… Acho que está bem.”
“-Não sabia se íamos hoje, e trouxe mala feita”, disse Josefina a sorrir.
Sebastian olhou para o relógio.
“-Tens mala feita? Podes ir hoje?”
“-Sim. Mas como é que vamos?”
“-Vamos é já! Esta semana não há engarrafamentos, e o que estava para chegar veio todo hoje.
Anda comigo, traz o teu saco!”

Atravessaram o armazém até ao escritório. Josefina aguardou enquanto Sebastian foi ao seu pequeno quarto. Ela ouvia-o abrir gavetas e portas de armário, remexer e exclamar:
“-Ok! Tenho cá tudo.”
E voltou para o escritório com dois pequenos capacetes, dois blusões e um alforje.
“-Vamos viajar. Anda!”, e saiu, em passo acelerado, para o corredor longitudinal à fachada do edifício, que dava acesso ao escritório e aos vários gabinetes e salas da administração, com vista para o rio, até às escadas que desciam à entrada principal.
Josefina nunca tinha descido estas escadas, de uso exclusivo da administração e convidados.
Dois lanços em curva, um de cada lado, com degraus de madeira escura e corrimões trabalhados, desciam do corredor até se encontrarem, frente a frente, com a porta envidraçada, deixando ao meio um amplo espaço no chão de mármore, em xadrez diagonal, para uma ninfa de tamanho natural, também de mármore, branco, receber os visitantes com um cântaro de vinho ao ombro.
Sobre a ninfa, no corrimão do corredor do primeiro andar, um grande relógio de ponteiros pretos, com o nome da firma manuscrito no mostrador branco, compassava o tempo para quem entrava, iluminado pela luz natural da clarabóia, redonda, ao centro do teto da sala.
Uma discreta porta lateral dava para um amplo pavilhão no rés do chão, ao nível do ancoradouro. Tinha quase metade da área do andar de cima, mas, além de estar limitado por dispersas colunas de suporte, o pé direito muito baixo também limitava a utilização funcional, e estava sujeito a cheias, que, por mais de uma vez, nas últimas décadas, o tinham alagado. Servia de garagem.
A nave estava vazia à exceção de um MGB verde, um Jaguar XK cinza e a BSA Gold Star 350.
Josefina sentiu excitação com a viagem prestes a inciar.
Sebastian amarrou o alforje e acomodou o saco de Josefina no seu interior.
Apertaram os casacos de pele castanha com gola de pêlo.
“-Para que precisamos de casacos tão quentes, no verão?”
“-Para proteger do vento. Em andamento não sentes calor.”
Colocaram os capacetes. Abertos na cara, rígidos na parte de cima coberta de pele castanha escura, que se prolongava, flexível, para a cobertura da nuca e orelhas.
Ela amarrou o cabelo com um laço e ele apertou-lhe um lenço branco ao pescoço, com folga suficiente para poder subir e proteger a face, na viagem. Também lhe arranjou uns óculos escuros de massa preta.
Ele colocou os seus óculos, apertou o lenço ao pescoço e calçou umas luvas pretas.
Estavam prontos para a viagem.

O estrondo do enorme monocilíndrico ecoou na velha cave, com o salto de Sebastian sobre o pedal de arranque. Josefina acomodou-se no selim com o à vontade de quem já não o fazia pela primeira vez. Arrancaram lentamente, saíram pelo portão aberto para a marginal e viraram à direita.
O par não passava despercebido e todos sabiam quem eram, para orgulho de Josefina.
Subiram à cota alta da vila, pelo rua do Torres que chegou a general na defesa da serra durante a guerra civil, entraram na avenida principal, para sul, até ao cruzamento com a estrada nova, inaugurada cinco anos antes pelo almirante presidente da república, que se abria para nascente, para o interior de curvas e montanhas, ainda passando por baixo dos arcos que, em tempos, levaram água para os conventos da cidade, encerrados pela vitória do mesmo Torres liberal.
A partir daí foi uma sucessão de bouças e pinhais, terras pequenas, e muitas curvas. Divertido mas cansativo.
Pararam várias vezes, fotografaram paisagens, consultaram o mapa, lancharam pelo caminho. Não tinham pressa. Sebastian avisara Maria para ter os quartos prontos, mas não marcou hora, nem sequer dia certo.

Chegaram à quinta pelo sentido contrário da estrada que descia dos montes para a vila, pelas oito horas da noite.
Já na sombra do sol poente, a casa surgia entre vinhas, abaixo da estrada, junto ao rio, numa exposição exatamente oposta à da primeira visita de Josefina. A altivez que a impressionara antes, chegada no pequeno barco, quase pedindo licença para acostar nos degraus ribeirinhos, minguou, mostrando-se agora acolhedora, pequena, expondo vulneráveis telhados de várias águas.
Viraram à esquerda e desceram as últimas centenas de metros da tarde, pelas curvas do estradão de terra entre vinhas.
A adega já estava fechada. O pessoal já tinha ido embora.
Pararam à porta de Maria, que nem foi preciso chamar, alertada pela estranheza do ruído, de motor de mota potente, por aquelas paragens.
“-Ai, menino! Veio de mota?
Ainda bem que não me disse. Tenho tanto medo dessas coisas barulhentas.
E a menina Josefina também veio? Aí que bonita que está! Uma mulher!
Que bom! Vou já preparar alguma coisa para o vosso jantar”.
Falara sem parar, na excitação da receção ruidosa do casal motociclista.
“-Não, Maria. Não é preciso nada.
Trouxemos jantar connosco. Compramos pelo caminho. Bola de carne, broa de milho e doces, raivas e melindres.
Aceito, talvez, umas fatias do seu famoso presunto, se é que ainda sobra algum.
E também sei onde está o vinho.”

Sebastian abraçava-a sem tirar o capacete, os óculos nem as luvas. Josefina também já desmontara e soltava os cabelos.
“-Meninos, vou já lá a casa abrir janelas, arejar. Podiam ter avisado.”
“-Agora não. Não faça nada.
Amanhã de manhã, vamos sair pelas sete horas, para ir às vinhas. E agradeço que prepare qualquer coisa coisa para comer de manhã e para levar, para merendar.”
“-Claro, menino. Deixe por minha conta.
Sabem ligar a água quente? A caldeira?”
“-Sim, Maria.”
Virou-se para Josefina e agarrou-lhe as mãos.
“-Está tão bonita! Não a via há quanto tempo? Três anos?”
“-Cinco.”
“-Credo!
Quer dizer então que já tem.. dezoito anos?”
“-Feitos em abril.”
“-Meu deus! Como o tempo passa.
Lembro-me bem. Era uma miúda espevitada. De treze aninhos.”, Maria de sorriso aberto, a olhar para cima.
“-Maria! Só preciso da chave e do pequeno almoço.
Agora, deixe-se estar que nós tratamos de tudo.”
“-A sério, menino?
Então, vou lá dentro. Esperem!”.
Deu meia volta e entrou rapidamente em casa.

“-Ficas bem com o que compramos, não ficas?”
“-Claro que sim.
Fazemos um piquenique no terraço.”
“-Boa ideia.
À luz da vela. Para afastar os mosquitos.”

Maria saiu com uma chave, numa argola, e dois embrulhos de pano branco.
“-Aqui está o presunto.
É um bom naco.
Comam o que quiserem. Não se estraga.
O que não comerem, embrulhem outra vez neste pano.
Também trouxe um queijo. É do leite das cabras do Vitorino”, como se eles soubessem quem era o pastor.
“-Obrigado, Maria.
Vamos lá.
Josefina, levas isto na mão? Eu levo a mota.”
“-Sim, claro”.
“-Até amanhã, Maria.”
“-Até amanhã”
“-Até amanhã“

Josefina caminhou os pouco mais de cem metros até à casa grande, enquanto Sebastian montou a mota, pô-la a trabalhar e levou-a a estacionar no terraço, junto ao Tritão, depois de circundar a fonte.
“-Ficas bem aqui.
Toma bem conta dela, pá!”

Pousaram a comida na cozinha e combinaram o jantar para daí a uma hora.
Sebastian verificou tudo, da toalha a talheres, antes de subiram aos quartos.
Josefina entrou no corredor, enquanto Sebastian continuou a subir ao torreão, e sentiu uma familiaridade reconfortante. O tapete grosso, o papel florido na parede, os candeeiros entre as portas, a janela de vidro ao fundo a mostrar a noite que já se punha.
O último quarto, do lado direito, virado ao rio. Sentia-o como seu. A decoração estava igual, as toalhas dispostas da mesma forma, as almofadas à cabeceira, a casa de banho no mesmo mármore. Era o seu quarto, embora agora tudo parecesse diferente. Mais pequeno e natural.
Já não era a criança de treze anos.

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