Cada cidade tem a sua rua de restaurantes, competindo avidamente pela freguesia.
Tuga não foge à regra.
À entrada da rua 10 de Março, na esquina do lado esquerdo, fica o maior e mais bem sucedido restaurante da cidade, o Rosa.
Dois andares, amplo salão, um histórico, agora com nova gerência, liderado pelo jovem Pedro, cheio de ambição, depois da anterior se ter afastado, por problemas com as autoridades. Aliás, o Rosa tem um longo historial de problemas e contas com a justiça, mas a ementa tradicional, a boa amesentação e um serviço sólido e eficaz, tem fixado e satisfeito a sua fiel clientela.
Pintado de fresco, apresenta novos pratos, embora mantendo as suas especialidades tradicionais, junta modernas opções vegetarianas e orientais, num fusão que ainda está por provar. Para isso, contratou reforços para a cozinha, juntando-os à sua velha equipa.
Veremos como Pedro gere as várias tendências à frente do mesmo fogão. Os críticos estão muito atentos.
Mesmo em frente, na esquina do lado direito, fica o grande rival do Rosa, o Setas, com gerência, há cerca de dois anos, de Luís, ainda a tentar impor-se.
O Setas chegou a ser o restaurante mais bem sucedido da rua, quando teve um chef de cozinha algarvio, que revolucionou a gastronomia da cidade, mas nos últimos trinta anos só beneficiou da preferência dos clientes nos dois períodos em que o Rosa esteve quase para fechar portas, com os seus problemas.
Luís remodelou tudo, da decoração à oferta gastronómica, contratou reputados chefes, dos mais inovadores da praça, e apresenta novas soluções com base na tradição. Tem todas condições para o sucesso, mas a sua pessoa tem um defeito que, sendo menor, impede o reconhecimento geral: não cativa o freguês. Tem pequenos tiques e expressões que desagradam. Como quando lhe dizem “Queria dois cafés!” e não resiste a responder “Queria? Já não quer?”, com a melhor das intenções e simpatias no seu sorriso plastificado.
Para piorar, recentemente estourou um escândalo na sua filial, o Setas de Madeira. Ainda se está a apurar as consequências, para o negócio, das notícias que chegam de intoxicação alimentar e diarreia generalizada, provocada pelo chef local, Miguel Riscaomeio.
Ao lado do Setas, instalou-se o mais recente estabelecimento da cidade, o Paragem.
Gerido pelo dinâmico André, saído do Setas e levando alguns colegas consigo, impõe-se pelo dinamismo, ambiente despretensioso, algo barulhento, é certo, mas que tem atraído juventude e novos clientes.
Os críticos apontam a pouca imaginação na concepção dos pratos, por serem mais tradicionais e pesados, de digestão difícil. No entanto, o efeito novidade tem marcado posição e mossa na concorrência, em especial no Setas.
Em frente, ao lado do Rosa, encontramos o Canhoto e o Foice.
O Foice é o mais antigo restaurante da cidade, ininterruptamente em funcionamento há mais de cem anos. Passou por várias fases, inclusivamente uma clandestina, porque não cumpria com a regulamentação da época, quando só servia refeições para amigos, à porta fechada, e outra de grande pujança, quando a sua cozinha datada, de inspiração no leste europeu, fazia furor internacionalmente.
Hoje em dia é frequentado por saudosistas dessa culinária que já rareia em todo mundo.
A seu lado, o Canhoto, liderado por Mariana, pretende manter viva a tradição oriental do Foice, onde foi buscar inspiração e alguns colaboradores, cuidando de se apresentar mais jovem e inovador, com resultados ainda por provar.
Ao fundo da rua, em franca concorrência entre si, mas sem a dimensão e impacto dos restantes, abrem à rua o Liberitas, o Libero e o Pum.
Mau grado a semelhança no nome, na gerência de dois Ruis, e na ambição desmedida, Liberitas e Libero são estabelecimentos completamente diferentes.
O primeiro é gerido pelo Rui, dissidente do Canhoto, serve uma culinária de inspiração oriental, e não esconde a ambiciosa pretensão de vir a gerir ou substituir o grande Rosa.
De igual forma, o Libero é gerido pelo outro Rui, igualmente dissidente mas, neste caso, do Setas, copiando-lhe a cozinha, embora mais forte e temperada. Também não esconde a ambição de substituir ou ocupar a casa mãe.
No topo da rua, pretendendo não estar à esquerda nem à direita, o Pum surgiu com uma inovadora oferta vegetariana. Não passando despercebido, veremos que impacto ainda terá no mercado e na concorrência.