Mais cedo ou mais tarde

Não sendo catastrofista nem apóstolo do fim dos tempos, vejo chegar o momento em que dificilmente avançaremos sem deixar alguns para trás.

A luta contra a globalização, a coberto do combate ao capitalismo e na defesa da classe operária confortada do ocidente, pretendia condenar os milhões do terceiro mundo à mendicidade piedosa e à pobreza da simples extração das matérias primas do seu subsolo.
A mesmo luta repete-se, agora, na xenofobia contra o desafio da imigração de gente que vê, na sua barraca sem água e de esgotos vertidos na rua, as mesmas notícias e a mesma Netflix, difundidos pelos mesmos satélites, e se imagina rico a disputar um lugar num transporte público de subúrbio ou numa sala de espera de centro de saúde.

O simpático activismo jovem das ações climáticas colide de frente com o bloqueio de tratores da agricultura moderna, que alimenta milhões, com preços estabilizados por excedentes de produção subsidiados, e com a indústria dos manifestantes de colete amarelo, num embate para já apartado, mas inevitável, entre urgências, a ambiental ou a civilizacional, qual delas a mais importante.

A esquerda refugia-se na esgrima arrogante da razão que sempre julgou sua, enquanto a direita reforça-se e alimenta-se na demonstração das evidentes e inconsequentes contradições marxistas.
E os outros, os do meio, provavelmente virtuoso, enleados em preguiças e facilidades mal disfarçadas de incompetências e corrupção, animados por lutas tanto justas como unânimes, mas igualmente fátuas, terão de acordar, mais cedo, para calear as mãos, ou mais tarde, para as ensanguentar.

E alguns vão mesmo ficar para trás.

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