Josefina Madeira . 19

Já passava das quatro da tarde, quando desciam para a adega no silêncio do cansaço da longa jornada.
Desde manhã cedo, fizeram praticamente o mesmo percurso de cinco anos antes, com as mesmas paisagens, as mesmas subidas e descidas, paragens, apontamentos, fotografias, mas, agora, os horizontes alargavam-se, os limites estendiam-se, a quinta tinha quase o dobro do tamanho, embora, para Josefina, o espaço parecesse quase igual, até mais confinado, estreito e acessível, contrabalançado pela natural redução de escala, da perspetiva dos olhos que se tornaram adultos.
Os Richardson tinham comprado vários terrenos contíguos, pequenas vinhas desgarradas, de produções familiares, aumentando substancialmente a capacidade e rentabilidade, por economia de escala, sem reforçarem, nem sequer mudarem, os procedimentos de trabalho. A adega e os armazéns tinham dimensão suficiente para processar as novas necessidades, só contratando mais mão de obra para podas, tratamentos e colheitas, aquando do seu tempo. E o plano para os próximos anos era de contínua expansão. Havia mais áreas disponíveis para incorporar e mais adega para rentabilizar.

O processo produtivo, da vinha à mesa do cliente, era o mais eficiente da região e assentava em três pilares, a saber.
O sucesso de George Richardson no mercado inglês, de longe, o mais importante do negócio, conseguia manter um nível de procura elevado, com significativa valorização do produto, vendendo caro. Para isso, não terá sido alheio o bom trabalho efetuado no período de guerra, quando as vinhas dos concorrentes dos outros países continentais estavam a ferro e fogo.
O vinho dos Richardson nunca deixou de fluir e o seu consumo ficou associado a tempos sombrios mas finalmente vitoriosos, numa associação feliz de consumo com emoção, para momentos especiais, celebrações gloriosas, ou simplesmente saborear pacificamente em família.
Também nesses tempo de guerra, aproveitaram para entrar no capital de vários distribuidores locais, fragilizados pela economia de guerra e pela falha de fornecimento de vinhos franceses, italianos e espanhóis, numa estratégia arriscada de financiamento dos seus próprios clientes, capilarizando o controlo da entrega até à loja de bairro e beneficiando de parte dos lucros da distribuição.
No fim da guerra, muitos destes clientes recompraram a posição e voltaram a deter a totalidade do negócio, mas as relações mantiveram-se, com reconhecimento e confiança.

Outro pilar era o retorno do forte investimento na mecanização da produção feito nos últimos anos.
Dos bons contactos que a família tinha com clientes da velha fundição do Yorkshire, como produtores de camiões e de outros veículos de transporte, John Richardson conseguiu aproveitar e adaptar ferramentas e projetos do tempo de guerra, adaptando-os para tratores e outras máquinas especialmente dimensionadas para o trabalho em socalcos, possibilitando o transporte rápido e sem esforço de toneladas de uvas, ou calda de tratamentos, pelos íngremes desníveis, num formidável progresso face ao tradicional trabalho braçal.
Nos anos a seguir à guerra, a indústria metalomecânica britânica havia entrado numa crise profunda. Tinha-se dimensionado para os enormes volumes de equipamento de guerra e para as suas especificidades, com encomendas constantes do governo, em quantidades crescentes. De um momento para o outro, com a paz, viu-se a braços com a sobredimensão e obsolescência de enormes linhas de fabrico e montagem de canhões, tanques, aviões e navios.
Num interessante trabalho de engenharia, John buscou todo o tipo de material novo, por estrear, abandonado, que pudesse adaptar à sua atividade, comprado a preço de sucata, desvalorizada pela abundante oferta.
O seu maior sucesso era o pequeno trator, com reboques acopláveis em comboio, com potência mais do que suficiente para atrelar um ou vários pequenos mas robustos vagões com pneus, estreitos o suficiente para circular nos socalcos. Nas vindimas, enchiam um por socalco, numa passagem rápida, que era logo substituído por outro vazio, num contínuo carrossel, entre vinhas e adega, de vários tratores e dezenas de vagões.
Quem via o trabalho nem imaginava a origem de tão estranha maquinaria. Estes pequenos tratores e vagões mais não eram do que os transportadores de bombas para os bombardeiros de guerra. Cada bomba pesava cerca de quinhentos quilos e cada avião levava até vinte ou trinta unidades, pesando até dez toneladas ou mais. O carregamento era feito por baixo do avião, entre rodas, elevando uma a uma, pela escotilha ventral. O socalco da vinha não era mais estreito do que os rodados, nem mais alto do que a boca de bombas do Lancaster, reparou John Richardson.
Com o mesmo espírito inventivo, também adaptou cisternas rebocáveis, concebidas para combustível, para aspergir cauda bordalesa. As cisternas baixas e pequenas o suficiente para circular por debaixo das asas dos aviões, pareciam à medida das vinhas, bombando e aspergindo o, agora, mais pacífico sulfato de cobre, numa verdadeira revolução agro-industrial na viticultura local.

O terceiro pilar do sucesso era o nível de organização logística, com elevada eficiência no armazenamento, transporte, engarrafamento e embalamento, com total conhecimento e controlo de existências e fluxos, promovido por Sebastian, e por mim já bem descrito.

O resultado é que tinham a produção toda tomada, o mercado absorvia os sucessivos aumentos anuais, conseguiam entrar nos patamares mais altos, de preço, do mercado mais sofisticado da época, o inglês. A sua produtividade era a mais elevada da região e estavam a conseguir ombrear com outras regiões de morfologias e climas mais favoráveis, ou seja, ganhavam bom dinheiro por cada garrafa vendida. Por último, o nível de eficiência logística permitia-lhes responder rapidamente às solicitações, tanto em variedade como quantidade, sem aumentar existências nem espaço de armazenagem.
George, no mercado, John, na mecanização e Sebastian, na logística, tinham desenvolvido a empresa ao ponto de a tornar um modelo que começava a ser cobiçado e imitado.
Mas também, nada disto teria sido possível sem as particularidades do clima e do terroir, sem o revolucionário conhecimento oitocentista trazido pelos engenheiros franceses, no início do século, e sem o esforço e dedicação disciplinada de Francisco, na adega, e José, nas vinhas, no seguimento da melhor tradição dos seus antecessores, encarregados e feitores.

Josefina ouvia deliciada a descrição pormenorizada do estabelecimento do negócio. Sebastian tinha todo o processo na cabeça, fluxo produtivo, estrutura de custos, posicionamento no mercado, margens e estratégia.
“ – O futuro imediato está alicerçado na rentabilidade da mecanização e logística, e na solidez do mercado inglês, a manter a todo o custo.
Mas a médio prazo terá de ser suportado por um novo investimento na química. Tudo o que fazemos vem de conhecimento com muitas décadas, mas o século vinte está a correr muito depressa. Há descobertas novas todos os dias, a biotecnologia já é uma realidade de laboratório que vai saltar para os nossos campos.
No vinho, tenho sabido de experiências muito interessantes que se têm feito na Austrália.”
“ – Outra vez a Austrália?”
“ – Sim. A inovação vai chegar de lá.
Eles estão a fazer muita investigação na enologia e verdadeiros milagres com matéria prima, as uvas, de qualidade inferior à nossa, mas com resultados surpreendentes.
Os mercados mais inovadores estão muito atentos.
Vamos ter de investir nisso e ir lá ver como é, aprender.

O outro grande passo vai ser abrir o mercado americano. Temos de colocar os nossos vinhos nos filmes de Hollywood, filmar uma perseguição de barco por este rio acima, criar um suspense de crime nas vinhas. Familiarizar os americanos cinéfilos com uma paisagem de sonho que vão querer visitar, naquela ronda europeia, naquela viagem que fazem uma vez na vida, e recebê-los como se estivessem na casa dos avós distantes, em que, aturdidos pela excitação das sensações que lhes proporcionamos, confundem as memórias dos filmes com as contadas à lareira, na mesma infância.
E vender-lhes muito vinho, para depois recriarem a emoção em casa, num desarrolhar de cortiça portuguesa.”

Sebastian sorria, entusiasmado, enquanto ornava as palavras com gestos e movimentos de corpo, na descrição dos esses da corrida no rio, o dedo indicador da pistola do crime, o rodar do pulso no saca rolhas, e o estalo de lingua da abertura da garrafa.
Seguia descontraído porque vira a vinha cuidada, os tratamentos aplicados, as ervas apanhadas. Receara que o aumento de área pudesse ter prejudicado a harmonia da centenária quinta, mas não aconteceu.
Parecia mesmo que nada se tinha alterado. Quem não soubesse nem suspeitava que quase metade da área tinha sido adicionada à propriedade há menos de cinco anos.

Chegaram à adega, onde Francisco e José os aguardavam.
Cumprimentaram-se rapidamente e Sebastian iniciou uma longa volta pelo armazém, mas agora em silêncio. Observou tudo cuidadosamente, fez alguns apontamentos e reviu notas.
Josefina seguiu a seu lado, um passo atrás. Os outros dois seguiam-nos a alguns metros, apreensivos.
Atentamente, ela procurou perceber o que ele olhava e o que pensaria, e não teve grandes dúvidas.
Atentou à limpeza e arrumação geral, verificou a disposição das máquinas e ferramentas, a etiquetagem das cubas e barris, abriu os livros de inventários, folhas de obra e calendário de trabalhos, registos passados, cadernos de campo, dispensa de produtos químicos, até o estojo de primeiros socorros.
Depois de tudo visto, abeirou-se da porta e parou. Em silêncio quase teatral, olhou em volta, sério:
“-Vou à casa de banho.”
Josefina não conteve a gargalhada.

Sebastian presenteou-os com rasgados elogios, que eles a princípio estranharam, por não contarem nem estarem habituados, até se incharem de vaidade.

José foi felicitado pelo primoroso trabalho que tivera na composição das vinhas. Principalmente no sentido estético, porque tecnicamente Sebastian não duvidava da sua competência.
Alguns pequenos arranjos nos muros e caminhos, trabalho da sua autoria e iniciativa, harmonizaram a propriedade, incorporando os novos domínios.
“-Esta quinta sempre foi muito bonita. Agora está crescida organicamente, não parece que foi acrescentada. Muito bem. Parabéns pelo trabalho”, disse cumprimentando José, que, com os olhos a marejar de emoção orgulhosa, quase traiu a sua contenção e timidez.

“-Francisco! Não estou surpreendido.
Está tudo no lugar, arrumado, catalogado e limpo. Melhor do que na última vez. Muito bem.
Vejo que seguiu bem as minhas indicações e sugestões, e o aumento de produção foi bem acolhido no esquema que temos montado.
Mas o que eu tenho mesmo de felicitá-lo é pela limpeza da casa de banho, a água quente do chuveiro e o papel higiénico na sanita. Agora, sim!”

Sebastian estendeu-lhe a mão e Francisco agarrou-a com as duas mãos, abanando-a fortemente, com um sorriso rasgado a mostrar os dentes grandes com um intervalo ao meio, que juntamente com a monocelha e o cabelo preto penteado para a frente, fazia lembrar, a Josefina, a figura do Zé Povinho a fazer manguito ao fiado.
“-Muito obrigado, Senhor Sebastião.”

Despediram-se e caminharam em silêncio até casa. Sebastian seguia mais calado do que habitual. Talvez cansaço.

Maria estava na cozinha, em amena cavaqueira com Alzira – tinham sempre conversa animada e em voz alta – agora casada e já mãe de um rapaz.
Combinaram jantar para as sete e meia e subiram aos quartos. Um retemperador banho quente de espuma aguardava Josefina.
Habituar-se-ia facilmente a esta vida no campo.

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