Josefina Madeira . 21

Acordou com uma ligeira dor de cabeça. Nada a que não estivesse habituado, nem que não se resolvesse. As réguas venezianas da janela, a nascente, filtravam a luz do sol da manhã de verão, refratada nas ondas da cortina branca transparente.
Ligeiramente indisposto, mas com uma sensação agradável. Como se estivesse bem, correu bem, passou bem, bebeu demais, nada de estranho.
Lembra-se de se levantar, ainda no terraço. Levantou-se e inclinou para esquerda, como se tivesse o giroscópio avariado. Agarrou-se para não cair. Agarrou-se, não, agarraram-no. A doce e fiel Josefina. Que vergonha! A miúda teve de segurar-me. Também gosto de ti, lembra-se de ouvir. Ela disse-me mais de uma vez. Gosto de ti. Repetiu porque lhe perguntei, com certeza. Que vergonha. Que mais lhe terei dito? Ela a segurar-me e eu a incomodá-la. Que mais lhe terá dito, para ela lhe falar assim, na memória vaga? Ela ajudou-o a subir as escadas. Até onde? Com certeza foi só até ao corrimão, depois ele conseguiu. De certeza. Não se lembra.
Continuava deitado. Olhava o tecto do quarto. Estava tudo sereno. Nada de especial deve ter acontecido. Estava no quarto, deitado. Bebera demais, mas acha que se controlou. Talvez algum calor de emoção. Sabia que lhe dava para o sentimento. O uísque ajuda. Nada deve ter acontecido.
Desviou os olhos do tecto, olhou em volta. O quarto estava arrumado, os sapatos ao canto, junto do saco. O relógio de pulso na mesinha de cabeceira. Tudo normal. A aterragem na cama tinha sido tranquila. A roupa da véspera nas costas da cadeira. Olhou outra vez. Não pode ser. Não se lembra de ter pousado a roupa. Nunca o fazia quando se deitava meio desalinhado. Às vezes ficavam mesmo pelo chão. Agora estavam ali as calças, dobradas longitudinalmente, esticadas, a camisa aberta por cima das calças, como num criado mudo, e o pulôver dobrado no assento.
Não pode ser, nunca fazia isso e Maria ainda não tinha ido quarto.
Continua na cama tentando perceber o que tinha acontecido. A hipótese Josefina começava a envergonhá-lo. Teria passado das escadas, da provação do corrimão ondulante como uma cobra? Recorda-se do corrimão não parar quieto. Maldita escada de caracol. Teria vindo ao seu quarto?
Outra constatação sobressaltou-o. Estava de pijama vestido. Calças de pijama e camisa de dormir com todos os botões apertados. Alguém o vestira. Despertava cada vez mais com a surpresa do que se passava.
Tinha a cabeça pousada na almofada de fronha branca. Era a almofada mais fofa, mais confortável para dormir. Tinha outra, mais dura e mais alta, de fronha castanha, que estava mesmo ao lado, encostada à sua. As duas almofadas, lado a lado. Poderia tê-la usado, poderia ter preferido um apoio mais firme, ou elevar a cabeça para ler, mas não. Nem se lembra de lhe ter pegado.
A almofadas castanha estava mesmo ao lado da sua. Estava amassada. Uma cabeça tinha estado ali, alguém dormira ou, pelo menos, se deitara a seu lado.
Sentiu vergonha e receio do que se teria passado, do que terá dito ou prometido, do que expora, fizera e como. Não fora um sonho.
Tenho medo, pensou para si. Tenho medo do que disse e fiz. Tenho medo.

Justiça talvez fosse o sentimento mais forte no guiamento da sua vida, não no sentido de ânsia de compensação, muito menos vingança, mas, sim, como reconhecimento e valorização do esforço e trabalho de muitos anos, primeiro com sua mãe e depois por si mesma, bem como o semear e cultivo de valores, imediatos, como a honestidade e a gratidão aos outros, a Deus ou à sorte, e contingentes, como a paciência e a perseverança, fruto da experiência quotidiana.
Aos dezoito anos, Josefina sentia maturidade e confiança, como se nada a surpreendesse nem assustasse, mas sabia o seu lugar no mundo e na sociedade, do seu estatuto menor, de mulher, para mais sem dote nem apelido casadoiro. Tinha confiança em si, vontade de aprender, discernimento, mas sentia o peso da sua condição de rapariga humilde e conhecia as barreiras que lhe impunham e ainda lhe imporiam mais à frente.
Atingia a maioridade com uma descontração natural que só para si não era estranha. Tinha consciência que o seu espírito já tinha rompido os limites do casario natal encasquetado nas encostas do rio de tortuosas ruas engorduradas de esgoto corrente na pendente, de pregões matinais e rixas noturnas.
Nos últimos cinco anos, Sebastian fora o tutor, mestre, chefe, instrutor, mas também um amigo próximo, companhia de muitas horas, cheio de defeitos que só se perdoam a quem dá muito mais do que estraga, generoso, respeitador e encantadoramente enigmático, com certeza ignorando que a sua figura masculina, mais velha e excêntrica, moldava em definitivo a personalidade de moça, na sua perspectiva e apreensão, no relacionamento com os rapazes da sua criação. Se ela, já de si, pelas leituras que devorava, se distanciara das demais meninas da escola primária, a frequência da escola comercial, com miúdas de outros bairros, outras famílias, outras classes sociais, abriu e moldou-lhe interesses muito para além da sua condição de filha do sapateiro e da Maria lavadeira, obrigando-a a esforço para não se alhear do seu meio, mas, mesmo assim, espaventando rapazes, para seu inconfessado alívio. Confiança que lhe permitia conduzir-se entre solicitações e importunações, curiosidade e desejo, numa segurança tranquila sem certeza de vir a ser recompensada, no amor, no romance ou na estabilidade do casamento. Não tendo pressa, nem sequer um fito traçado, deixava-se levar no caminho emparedado pela moral e pelo despertar hormonal, sem vergonha, nem receio. Dizia e fazia o que queria, quando e como lhe apetecia, numa reserva pública tão natural, que até para si relativizava e perdia importância na banalidade.
Na inocência da sua adolescência, de corpo generosamente moldado, que causava a inveja delas e a cobiça deles, sabia do efeito que causava nos homens, dos rapazes imberbes aos velhos maduros, pelos silêncios tímidos, olhares subtis, uns, lascivos, outros, piropos importunos. Percebia, num despudorado cinismo que não a envergonhava, que a sua bela fragilidade feminina, desde que aplicada no ponto certo, poderia ajudar a erguer, qual alavanca arquimediana, a sua experiência e formação na escola e no trabalho, para uma vivência adulta que vislumbrava do cinema, e do que lhe contavam. Já não era criança e chegara o momento de ser mulher adulta.

Soldadinhos de chumbo, estáticos há muitos anos, recriavam um momento de alguma batalha que ela desconhecia, vermelhos em frente a azuis, com chapéus altos, mosquetes, espadas e porta-bandeiras. Ao lado, um modelo, cinzento, de um avião com quatro hélices, um bombardeiro, apontado como se aquecesse os motores para correr até ao fundo da estante de madeira escura. Livros, muitos livros, deliciosamente gastos do manuseio de várias gerações. Um mapa-múndi amarelado e com cantos gastos cobria a parede acima, com setas, cruzes, pontos marcados, nomes de cidades sublinhados a lápis, no centro da Europa, norte de África, Itália e todo o Pacifico, um diário de guerra de registo de miúdo. Um velho rádio preto a válvulas, com dois enormes botões castanhos e um mostrador transparente com nomes de terras estranhas entre os das capitais conhecidas, selecionados por um ponteiro branco, pousado na mesa de canto, ao lado de um ursinho de peluche Merrythought, que guardara os sonos de miúdo. No outro canto do quarto, um lavatório de louça branca pintada a azul, numa estrutura de ferro forjado, com uma toalha branca pendurada de lado, e um jarro de água da mesma louça e mesmos padrões azuis, na prateleira inferior, sob a pia. Pelo chão o saco, roupa, sapatos.
Era o quarto de criança, como um quarto de brinquedos com cama ao meio, de um rapaz agora feito homem, forte, inteligente, tão frágil e sensível como só os melhores sabem ser.
Josefina nunca se sentira tão amada, tão bem, tão confortável, tão útil, tão desejada, tão adulta, tão necessária no apaziguamento do tumulto despertado naquele espírito contido de timidez, e insuspeito medo dos outros, até o repouso da respiração profunda e pausada anunciar a paz.

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started