O cargueiro acelerava para norte, deixava o conforto da costa e lançava-se no escuro Atlântico adentro, rompendo as vagas, em sucessivas explosões de espuma.
Sebastian agarrava a amurada e olhava o horizonte. Finisterra, fim da terra, fim do mundo romano, terra de Santiago, de Pelayo, dos reis de Leão, de nevoeiro, morrinhas e bruxas, de encontro com a redenção na peregrinação, para os que vêm de lá para cá, até Muxia, e com a eternidade, para os que esbarram, de cá para lá, na Costa da Morte.
Embarcara a Bessie no porão, entre barricas e caixas de garrafas de vinho, azeite, cortiça e conservas, bem oleada e agasalhada com um toldo, amarrada ao chão, para aguentar a agitação e salitre do ar, ocupando um pouco de espaço cedido pelo armador, em consideração pelo importante cliente produtor de vinho, com destino a Southampton. Três a quatro dias de viagem, dependendo das correntes e dos humores do tempo.
A rotina embarcada era muito simples. Pequeno almoço, almoço e jantar em horas fixas, com a tripulação, às seis horas, meio dia e seis horas da tarde, longas horas na cabine destinada a passageiros, que ocasionalmente fazem a viagem em navio mercante, mesmo ao lado da do comandante, escrevendo sobre tudo o que sabe, o que julga saber e o que gostaria de aprender, e longas caminhadas pelo convés, da popa à proa, de bombordo a estibordo, tempo mais do suficiente para acertar as ideias sobre o que haveria de vir.
Desde o princípio, sabia que o seu futuro não passaria pelo vinho. Foi um desafio que aceitou pela aventura e pela oportunidade de desenvolver um sector tradicional e conservador, pondo em prática a formação e experiência que obtivera na vida militar, primeiro na escola de formação logística do exército britânico, a Royal Logistic Academy, em Camberley, Surrey, e depois na preparação e execução do assalto a Port Said, com a 16 Divisão Aerotransportada, em 1956, onde o jovem Sebastian fora um dos responsáveis pelo planeamento e organização da logística, de deslocação e abastecimento.
A sua formação era bastante sólida, porque a organização logística militar britânica desenvolvera-se bastante na Segunda Guerra Mundial, fazendo escola, exemplarmente liderada pelos generais John Dill e Andrew Goslett.
Depois, foi o tirocínio no Egipto. Embora a guerra do Suez tenha sido um desastre político, a operação militar foi exemplarmente executada, tanto a nível operacional, como organizacional.
O verde da ilha de Wight, a correr ao lado do barco, despertava-lhe a memória e vontade de cavalgar a BSA de sul para norte, qual Alfred, rei dos saxões ocidentais, à conquista de Jórvík, o Yorkshire da sua infância, que já não via há mais de cinco anos.
O verde inglês, o verde de combate, o verde das lutas e das corridas, o verde das florestas e do musgo, um verde intenso, de cheiro forte, de esperança, de tantas saudades deste céu de chumbo e nuvens baixas, da humidade a ensopar-lhe a lapela, a sentir o regresso a casa, guiado por faróis e roncas, respondidos pela intermitência da sirene do barco, a entrar na estreiteza do Solent, por Portsmouth até às águas calmas das fozes do Itchen e do Test, misturadas nas Southampton Waters.
As formalidades desembarque foram rápidas – ninguém implica com um motociclista de regresso a casa, e Sebastian fez-se rapidamente à estrada, conduzindo da maneira que mais gosta: sem mapa, de memória, por instinto, a perguntar quando calha, com bússola na ausência de sol, sempre por estradas secundárias, entre muros, vilas e aldeias, alguns estradões de terra, camionetes, carroças e rebanhos. O caminho numa ilha, mesmo nas grandes, é simples: sempre para nordeste, nesta, e só se pára se se chegar à Escócia ou ao mar.
Passou por Salisbury, e pela sua catedral, fotografou-se em Stonehenge com a mesma perplexidade que sentira nas pirâmides de Gizé perante tanta história desconhecida e incompreendida, aproximou-se de Swindon. Percorrera cerca de sessenta milhas, por estradas secundárias e vilarejos, já estava cansado, o dia cinzento escurecia e não queria conduzir de noite.
“The White Horse Inn 2 miles”, leu numa placa a apontar para a direita. O nome parecia-lhe bem. Precisava de um banho retemperador, um bom jantar e uma cerveja, não necessariamente por esta ordem.
O cavalo branco estava pintado, sobre a porta em arco de tijolos vermelhos da frente da casa branca com telhado de várias águas de lousa preta, bem pronunciadas para invernos chuvosos, num desenho simples de letreiro de pub, desses que invariavelmente têm uma cabeça, um cavalo, uma armadura, ou um abade, quando não o próprio rei, na estética do século dezassete, o da gloriosa revolução, a correr da direita para a esquerda, sob o pôr de sol num prado verde.
Entrou.
Não conteve o sorriso pela lareira acesa em Julho, a aquecer e secar o ambiente, neste dia de verão húmido que não passou dos dezasseis graus, defronte a três grandes sofás com folhas verdes e flores rosa sobre fundo branco, estampadas num pano grosso e áspero, a convidar a serão lente e descansando. Do outro lado da sala, à esquerda, meia dúzia de mesas e cadeiras de madeira escura, onde dois homens conversavam separados por uma barreira de copos vazios, e outro, noutra mesa, procurava silencioso conselho no último terço da pint entre mãos. Ao fundo, o balcão da mesma madeira castanha escura, furado por tubos de torneiras de várias cervejas, coberto com algumas toalhas sorvedouras de espumosos corrimentos e do telhado de copos invertidos secados ao ar, servidos por um obeso desconfiado de forasteiros que chegam sem aviso.
“- Olá! Tem quarto para uma noite?”
“- Sim”
“- Então queria uma pint de Guiness, por favor.”
“- Percebo a urgência”, respondeu com uma sonora e descontraída gargalhada, olhando com condescendência para a roupa molhada e para o alforge e capacete, enquanto pousava o copo vazio debaixo da torneira.
Sebastian subiu ao quarto por uma escada estreita ao lado do bar, decorada com motivos de caça, quadros a lápis de cavaleiros, sisudos e altivos, e matilhas em corrida à raposa, e velhas espingardas ferrugentas, até ao primeiro andar. Seis portas, de quartos numerados de um a cinco, e o WC de serviço. O seu era o número dois, virado para frente, como pedira, para que a Bessie não se sentisse sozinha. Era grande, devia ser o melhor. Se calhar os outros estavam vazios.
Após um banho quente e roupa seca, desceu à sala. Já estava composta de gente a falar alto, alguns nas mesas, mas quase todos ao balcão. A lareira já quase tinha apagado, com tanta gente já não era necessária.
“- Que tem para jantar?”
“- A sair, carne estufada com cenouras e batatas. O resto, tenho de ver.”
“- Então uma pint…”
“- Também temos”.
“… e um prato dessa carne especial!”
Sebastian sentou-se numa mesa vazia, com o copo, e apreciou os outros clientes enquanto aguardava o serviço.
Uma dúzia de pessoas, dos quais só duas mulheres. Uma pouco falava, mas a outra percebia-se que era importante, pela importância que os outros lhe davam na discussão, não se lhe sobrepondo como é normal numa conversa informal de bar ou café. Pareciam pequenos agricultores, quase todos, mas dois ou três seriam de serviços da aldeia, o comerciante, o veterinário ou o carteiro, pensou Sebastian. A conversa era sobre política e seus escândalos.
Dividiam-se na discussão de responsabilidades do julgamento do caso que abalava a estrutura do governo e parlamento britânico, havia dois anos. O governo conservador, do primeiro ministro Harold Macmillan, fora arrastado para um escândalo de espionagem por causa de um triângulo mais sexual do que amoroso envolvendo uma jovem de dezanove anos, Christine Keeler, o adido naval soviético, capitão Yevgeny Ivanov, e o Secretário de Estado da Guerra, John Profumo.
Para ânimo da discussão, o novo líder trabalhista, Harold Wilson, mostrava um dinamismo que não se via desde que os Labours sofreram a primeira de três derrotas consecutivas, em 1951.
O grupo representava a proporcionalidade da sociedade inglesa, ou o que Sebastian entendia como tal, e dividia-se entre três conservadores, apoiantes fervorosos de Macmillan, dois trabalhista entusiasmados com Wilson, depois deste substituir o já desacreditado Hugh Gaitskell, que entretanto falecera inesperadamente no início do ano, e outra meia dúzia mais silenciosa, mas atenta, que ouvia e apoiava ou apupava os argumentos esgrimidos, consoante o juízo do momento.
Nesse verão de 1963, o país passava um dos momentos mais complexos e revolucionários dos últimos séculos.
Acabado de sair vencedor da desgastante segunda guerra mundial, a inesperada vitória eleitoral trabalhista, em 1945, sob a liderança de Clement Attlee, destronando Winston Churchill, faz o Reino Unido rasgar com o passado e entrar numa fase completamente nova da sua existência. Até 1948, são nacionalizados grandes serviços e indústrias, como bancos, siderurgias, minas, energia e caminhos de ferro, dá-se a independência da Índia, cria-se o Serviço Nacional de Saúde e implementa-se o inovador princípio de bem estar social, do berço até ao túmulo. Os conservadores de Churchill, ganham as eleições de 1951 por uma estreita margem, e ironicamente beneficiam da popularidade das políticas sociais trabalhistas, que entretanto tinham aceitado e adoptado, enquanto os labours se desgastavam em disputas internas, já históricas, entre radicais de esquerda e moderados.
O escândalo sexual no partido conservador rebenta num período em que o império britânico já não existe, a guerra fria está ao rubro, com a crise dos mísseis em Cuba, disparavam os gastos com o armamento, e as políticas sociais exigem cada vez mais das finanças públicas, dividindo a meio a sociedade, entre saudosistas da estabilidade da velha ordem e os atrevidos proclamadores da permanente inovação britânica.
Sebastian decidiu não intervir na conversa, enquanto saboreava o saboroso guisado de vaca com cenouras e batatas. O tema era complexo, do nível de infiltração da espionagem soviética, ao financiamento do estado social, passando pelos desafios económicos e sociais da nova realidade das ilhas sem império. À sua frente, esgrimiam-se argumentos vários, interessantemente fundamentados, que qualquer um aceitaria como válidos nestes tempos de indefinição e progresso acelerado, de poucas certezas e demasiados riscos.
“- Vocês, homens, falam de economia, armas, emprego e dinheiro, mas estão a esquecer-se da grande revolução em curso”, destacou-se a senhora que já havia chamado a atenção de Sebastian. De meia idade, elegante, cabelo claro, curto, vestia calças justas e jaqueta. Se estivesse um cavalo à porta, seria dela, com certeza.
“- Falam dessa gente toda sem repararem que tratam a miúda como prostituta gananciosa, oportunista, sem considerarem a sua inocência. O que é que ela lucrou com isto? Espiou ou foi usada? Não terá sido uma armadilha? Ou foi por vontade?
É sempre a mesma história da culpa, do pecado, da fragilidade masculina perante a perfídia feminina, e ninguém questiona se ela não quis mesmo dormir com eles.
A figura de um ministro inglês ou de um militar soviético desperta a líbido de uma jovem mulher. Pode ter-se envolvido nisto por vontade, ou vocês não acreditam na libertação sexual das mulheres?”
As palavras incomodaram os homens e praticamente acabaram com a discussão. Mais uns minutos, palavras vagas e inconclusivas, e começaram a debandar, um a um. Também já era tarde e Sebastian já estava cansado
Foi só balcão acertar as contas e satisfazer a curiosidade
“- Esta senhora, que acabou de sair, mora aqui na terra?”
“- Lady Winterton-Rhees. Vive no castelo Winterton-Rhees, a duas milhas daqui.
É viúva. O marido, Major John Wnterton-Rhees morreu na Birmânia, massacrado pelos japoneses.
Cria cavalos, com muito sucesso, dá emprego a muita gente e é a maior benemérita da terra.
Tenho o gosto de a receber aqui regularmente. Vem sempre com a sua assistente, Miss Merrick, que vive lá no castelo com ela.”
Sebastian quis perceber uma ligeira ironia preconceituosa nas palavras do estalajadeiro, mas, desta vez, na verdade, ele manteve-se impassível, com certeza pelo respeito que devia a Lady Winterton-Rhees.