Josefina Madeira . 23

Sebastian saiu cedo, depois do pequeno almoço combinado, tratado e pago de véspera.
Quando desceu, às sete horas, tinha mesa posta só para si. Deveria ser mesmo o único hóspede desse dia. Deu sinal de si à miúda de ar tímido, atrás do balcão, que mal balbuciou “ Good morning!”. Sentou-se por indicação dela, aguardou uns minutos a folhear o jornal da véspera, e veio um tabuleiro com um prato de feijão branco com molho de tomate, dois ovos estrelados, bacon frito, salsichas, tomate frito às rodelas, um cesto de pão torrado, compotas e manteiga, e uma caneca de café fumegante. O suficiente para se satisfazer e ainda sobrar para a sanduíche do almoço.

A manhã estava fresca mas o sol já aquecia e secava a humidade da véspera chuvosa, num dia relativamente limpo, com farrapos de nuvens de verão no azul anil. A previsão era de melhoria para os próximos dias, embora tímida, mas sempre tão incerta que fazia tema de início de qualquer conversa.
Seguiu para norte sem olhar para o mapa. Contava lembrar-se da sucessão de terras aprendidas nos mapas das linhas de caminho de ferro, gozava a condução sem grande atenção, até passar Cirencester e surgir-lhe um cartaz de madeira com letras brancas elegantemente manuscritas, “Welcome to the Costwolds”.
Entrou num cenário cuidado de colinas ondulantes verde esmeralda, aldeias de ruas estreitas, casas e igrejas centenárias de calcário cor de mel dourado pelo sol bordejadas por jardins floridos de verão. Não chegou a parar, mas apreciou, reduzindo a velocidade durante vários quilómetros, a passar Cheltenham, cidade de termas reais, edifícios neoclássicos da Regência, e corridas de cavalos. Divertiu-se a pensar que talvez um dia tivesse tempo ou estatuto para se passear por lá, o que chegasse primeiro.
Ao fim da manhã, parou num amplo descampado sobranceiro a Worcester, terra das luvas e do molho de carne, mas também da recente renovação urbanística, demolidora da herança medieval, que se escusou a ver, numa boa hora para tratar das sobras do pequeno almoço.
À tarde, prosseguiu viagem, sempre para norte. A região das West Midlands era bastante mais densa, numa sucessão de povoações, indústrias e trânsito, tornando o passeio mais cansativo e monótono. Pequenas camionetas e camiões, ciclistas e motociclistas, carros, gente a pé, charretes e cavalos, cruzando passagens de nível, numa mistura desordenada de indústria, agricultura e habitação, de dois séculos de revolução industrial, mineração intensiva e imigração irlandesa, enchendo os campos de chaminés fumegantes rodeadas de bairros operários de tijolo vermelho, entupindo as estreitas estradas rurais, numa já evidente decadência prestes a explodir, ou implodir, dependendo do ponto de ignição da inevitável rotura de libertação das forças sociais, e se se der de dentro para fora, ou ao invés.

Aproximava-se da grande Birmingham e procurava um poiso confortável para comer e dormir. Passou por vários, que não lhe agradaram, até que, já bastante cansado, decide parar no “The Black Horse Inn”, ironicamente o segundo cavalo do dia.
Os pequenos pubs de província, disponibilizando quartos para viajantes, não eram muito diferentes entre si, proporcionando comida confortável e pouca imaginativa, apropriada a quem não está com disposição para grandes invenções e experiências. Este cavalo preto era bem mais modesto do que o cavalo da manhã, reflexo da zona do país que atravessava, mas era suficientemente confortável para descansar num quarto do primeiro andar, e jantar sossegado numa mesa de canto do pub, repetindo o programa da véspera, nesta imersão na relembrança da vida e paisagens britânicas.
Sebastian pousou rapidamente a bagagem no quarto estreito, de cama de solteiro, e desceu.
O chão junto ao balcão cheirava a azedo de anos de cerveja vertida no soalho de madeira escura, em conversas, distrações, pequenos acidentes ou discussões. As paredes destes pubs confessionaram décadas ou séculos de histórias, de vitórias e derrotas, medos e bravatas, numa evolução orgulhosa do génio britânico.
Pegou na Guiness e sentou-se na mesa livre junto à coluna. Abriu o mapa depois de molhar os lábios na espuma morna. Localizou Birmingham, a nacional A38, os subúrbios a sul da cidade, a linha de comboio, e identificou a sua localização: Longbridge.
Reconheceu imediatamente o nome. Longbridge, a sede da Austin e da linha de montagem do orgulho do engenho inglês: o Austin Mini, que desde há cinco anos inundava as estradas da Europa. Confirmou a localização ao pedir a segunda Guiness.
“- A entrada da fábrica é ao fundo da rua, à esquerda. São os meus melhores clientes. Mais meia hora, há mudança de turno, e enchem-me aqui o bar antes de irem para casa.”
E assim foi. Não vieram todos os milhares de trabalhadores da fábrica, mas duas ou três dezenas entraram, em pequenos grupos.
Sebastian manteve-se em silêncio, com a sua pint, a observar e divagar sobre as gentes deste grande país. Eram todos homens, encarregados, técnicos e administrativos. O copo diário do fim de tarde não era acessível aos operários. Pela idade seriam veteranos da guerra mundial, experientes e orgulhosos do sucesso comercial do Mini, exportado para toda a Europa, batendo-se com Fiat 500 e o Volkswagen nas mesmas paragens onde eles tinham marchado vitoriosos vinte anos antes.
O ambiente era diferente dos outros pubs. Não discutiam política ou desporto, antes exaltavam peripécias da sua rotina de trabalho, orgulhosos das virtudes do seu pequeno carro conquistador, com produção tomada por vários meses. Sebastian conhecia bem as virtudes do Mini, dos jornais ingleses, que não se coibiam de elogiar o genial projecto de Alec Issigonis, e da correspondência trocada com o seu amigo John Pelham.

Pelham, engenheiro e militar, que fora responsável pela manutenção dos veículos e equipamentos na aventura do Suez, passara à vida civil e entrara na vaga de quadros Ford para a instalação da novíssima fábrica de Liverpool, que desde 1961 produzia o promissor Anglia 105E. Correspondiam-se regularmente. Apreciador e conhecedor de vinhos, mostrara-se sempre muito interessado pela aventura vitivinícola de Sebastian
Pelham transpirava cultura Ford, de desportividade e eficiência, mas não conseguia esconder, nas suas cartas, a inveja pelo genial e inovador concorrente projecto Mini, com motor transversal e tração à frente, pequenas rodas de dez polegadas amarradas a suspensões de cones de borracha sem volumosas e pesadas molas, abrindo espaço para quatro adultos e bagagem, num fundo plano dos pedais ao parachoques traseiro. Mas confortava-se amargamente repetindo que a Austin perdia dinheiro em cada Mini saia da linha de montagem. Trinta libras por cada unidade, segundo relatórios internos da Ford.

Sebastian observava estes homens orgulhosos do seu trabalho, enquanto molhava as chips que acompanhavam o fish em ketchup e maionese, numa saborosa ianquização do tradicional frito inglês. Eram de uma geração mais velha do que a sua, a mais sacrificada e esforçada de todas, orgulhosos das suas conquistas, montados num sucesso inovador que fazia moda – não havia artista ou actor que não tivesse um Mini colorido, mas também alheios a um futuro que já estava aí: o mundo da rentabilidade e da competitividade. Os britânicos desenhavam as máquinas do futuro com a mentalidade do passado, confiantes que a velha estrutura social do império lhes garantisse o mercado.
Pelham escrevia-lhe que a Ford já olhava para o mundo global, encarava os europeus com admiração, engenhosos e sofisticados, mas a atenção recaía sobre as novas técnicas de produção e controlo de qualidade, da escola americana de Joseph Moses Juran, aplicadas nas fábricas japonesas da exótica Toyota.
Detroit previa, e até receava, uma revolução na indústria automóvel, enquanto Longbridge exaltava com um sucesso que talvez nunca chegasse.

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