Josefina Madeira . 24

Era um mundo diferente do que ele conhecia. Na verdade, além de Josefina, Sebastian não lidava com pessoas mais novas, e a realidade portuguesa, onde ele tinha vivido nos últimos seus anos, era muito diferente da que se lhe deparava agora.

Chegara a Manchester ao fim da tarde, de um dia cansativo de chuva e trânsito, entrando nos arredores sul da cidade pela A34. Depois da Oxford Road, passou o Victoria e o Whitworth Park, e avistou “The Queen’s Arch, Bed and Breakfast, Garage”, em frente ao “Café en Seine”. Pareceu-lhe perfeito. Cama e pequeno almoço, garagem para a Bessie, e um café parisiense para jantar.
Chamava-se “The Queen’s Arch” mas podia ser Metropol ou Central ou outro qualquer nome vulgar de hospedaria de cidade. Ia buscar o nome à pequena praça quase defronte, com um pequeno arco de pedra num jardim relvado, e nada tinha de clássico ou majestático. Entrava-se por uma porta de vidro e metal para o topo de um longo e estreito corredor paralelo à garagem onde guardara a mota. A pequena portaria ficava à direita, debaixo das escadas para o andar superior, guardada por um rapaz indiano que fazia questão de não mostrar os dentes. Não que se importasse, mas apreciava alguma atenção e simpatia.
O edifício não era propriamente a seu gosto, numa construção citadina recente, de paredes rebocadas a branco e quartos com mobiliário em fórmica, pretensamente modernista, luzes pálidas, mas suficientemente confortável e limpo para uma noite de descanso de viajante.
Pousada a bagagem, refrescou-se e desceu, para atravessar a rua, dificultado pelo trânsito na chuva do fim de tarde, para o café de Paris.

Nunca esteve em Paris, mas, como qualquer um que se interesse por literatura ou cinema, estava habilitado a reconhecer monumentos e ambientes, a ponto de julgar já não se perder numa caminhada pela cidade luminosa.
Uma porta branca, ao lado da montra aberta à rua, de vidro martelado com as letras “Café en Seine” em caligrafia francesa, a meia altura e a toda a largura, e com um debruado romântico florido, encaixilhada num rebordo de madeira do mesmo branco, abria para uma pesada cortina vermelho sangue, protetora do quente e enfumaçado ambiente interior, que se afastava para entrar.
As paredes espelhadas, dois enormes candeeiros de tecto, de vidros a imitar cristais, ementa escrita a giz em vários quadros de lousa, mesas redondas de tampo de mármore rodeadas de cadeiras de madeira escura sem estofo, um balcão do mesmo mármore iluminado por cima com pequenos focos ocultos entre copos pendurados, rótulos resplandecentes na barreira dupla de garrafas semi-abertas encostadas ao espelho de fundo. Ao lado, uma abertura despachava serviço, da movimentada cozinha.
Sebastian ficou parado, de pé, a olhar em volta. O café estava cheio e barulhento. Seria estranho se tivessem reparado nele. Muita juventude. Falavam alto, principalmente as raparigas. Várias raparigas. O espaço não era amplo, não seriam muitos, mas falavam entre si, entre mesas, com louça nas mesas, de café, chá e copos de vinho. Aqui bebia-se vinho. Que bom, já tinha saudades.
Encontrou uma mesa junto ao balcão, com uma única cadeira. As outras já tinham sido tiradas para reforço de algum dos grupos.
Atrás de si, um quadro de cortiça fixava algumas dezenas de velhas fotografias. A maior parte de clientes no café, pessoas jovens que seriam agora importantes, ou frustradas nos alçapões da sorte, ou simplesmente pessoas, mas uma foto, em destaque, chamou-lhe a atenção. Um militar com a farda do exército britânico posava com uma jovem, na Pont Neuf, com o Sena atrás, e a silhueta da Torre Eiffel ao fundo por cima dos telhados da margem esquerda. Eram as caras dos adultos no café. Quarentões, ele, atrás do balcão, sério, servia bebidas e atentava ao movimento da sala e da cozinha, ela uma senhora bonita e roliça, de saia preta e camisa branca, com pequeno avental também branco à cintura, corria entre as mesas com simpatia maternalmente autoritária e um delicioso sotaque francês tão forçado como eficientemente divertido. Ele, mancunian de gema, ela, parisiense, reunidos nos acasos da guerra, estabelecendo, com gosto, a cultura dela no noroeste industrial da Inglaterra dele.
O exotismo do romantismo francês, na cinzenta Manchester de bairros operários de tijolos vermelhos enegrecidos pela fuligem do carvão, resultou bem na vizinhança da Victoria University. Cruzava o velho espírito revolucionário francês, de boémia e coragem cultural, com os novos tempos libertários dos baby boomers ingleses num movimento estudantil em polvorosa, de música rock e contestação. Um ambiente exótico para Sebastian, que ele seguia à distância dos jornais, com atenta curiosidade.

Estava com fome, cansado da viagem fria à chuva, e não resistiu à oferta da sopa de cebola gratinada e do boeuf bourguignon. Deveria ser comida a mais, mas hoje era um dia especial, o último de viagem antes de chegar a casa e reencontrar a mãe.
A mãe não cozinhava muitas vezes, nem sempre comiam juntos nas poucas vezes que estava em casa, nos intervalos lectivos. Entre trabalho na fábrica, beneficência e compromissos vários que ele nem compreendia, ela deixava prontas ou meio prontas a maior parte das refeições. Sebastian não se importava, solitário, entre livros e longos passeios de bicicleta pelos moors até à costa e a pé nos promontórios e areal. Apreciava as longas horas de pensamento, sonho e imaginação, pilotando a sua bicicleta como se fosse um Spitfire na sua imaginação. Mas a mãe era boa cozinheira e gostava de seguir receitas de cozinha francesa. Dizia que se era para ter trabalho, ao menos que valesse a pena. Deixou-lhe o gosto.

As raparigas usavam as saias muito curtas, com os joelhos à mostra e às vezes muito mais do que isso, no cruzamento das pernas, que ele fingia não reparar, entre duas garfadas e um gole de vinho tinto. A desenvoltura delas surpreendia e divertia-o. Falavam alto, mais do que eles, exibiam-se, mostravam e expunham o que pensavam. Uma delas destacava-se. Christine.
Percebeu o nome porque era assim que os outros chamavam. Era o centro das atenções, uma líder a quem todos gostavam de agradar e seguir as opiniões. Sebastian percebia os novos tempos, uma mulher a liderar um grupo em que a maioria, por muito pouco, ainda era masculina. A única vez que se recorda de ver algo assim parecido tinha sido em sua casa, mas lá era só a sua mãe e ele, e ele era uma criança.
Christine era uma mulher bonita, embora num padrão quase vulgar e estereotipado em Inglaterra. Era assim como um modelo natural para pintura ou escultura da deusa Britânia. Cabelo louro apanhado, mas com um franja negligenciada sobre a face, cara suavemente angulosa mas proporcionada, nariz afilado, boca de lábios finos mas com o inferior, mais grosso, a sobrepor-se ao superior, num tique nervoso de irritação quando discordava do que ouvia, que lhe dava um charme particularmente original.
Ela sabia do impacto sobre os outros e sobre Sebastian. Reparava nele, sem grande constrangimento, entre gestos e argumentações, não porque ele fosse bonito ou particularmente interessante. Ele era um eco do passado. Não era operário, nem camponês, nem pobre ou simplório, era uma personificação, ainda jovem, da geração dos pais deles. Sebastian vestia-se e comportava-se como a geração dos pais daqueles jovens ter-se-á comportado, de uma pequena elite rural ou burguesa, do tempo de antes da guerra.
Christine percebeu isso e conduziu a conversa de forma ameaçadoramente provocante. Os outros talvez não tenham percebido, mas os olhares dela, os jeitos e o sorriso docemente cínico, fazia-o sentir-se o centro das atenções.
Naquele pequeno ambiente, ele tornou-se o alvo da revolta de uma geração, não porque estivessem contra ele, mas porque pretendiam mudar o mundo.
Falaram de tudo. Dos Beatles, da música popular, das drogas, da liberdade sexual, de aborto, de política, de pacifismo, de racismo, da guerra, até de Marx e Engels, que cem anos antes escreveram os fundamentos do comunismo naquela mesmo Manchester. Uma pequena minoria daqueles estudantes, dois rapazes, e uma rapariga de calças e cabelo curto, assumiam-se como comunistas, para surpresa e curiosidade de Sebastian.
Ele sentia-se o alvo da comunicação, como se representasse toda a sociedade conservadora que era preciso transformar.

Já era tarde. Tinha de se deitar para acordar cedo, para a jornada final do dia seguinte. Pagou, levantou-se e atravessou a sala ruidosa sob o olhar atento de Christine, a quem saudou com uma pequeno aceno de cabeça. Ela retribuiu com um sorriso simpático mas vitorioso, de olhar fixo, de quem sabia que havia conquistado mais um para a sua luta.
Ela não sabia, mas ele era um alvo fácil.

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