Todos os dias, ao passar das sete horas, sentia o focinho húmido de B no seu braço. Mesmo que estivesse acordada, deixava-o satisfazer o despertar, recompensado com afago apreciado com mimo.
D era o primeiro a querer sair, junto à porta. Sério, sem olhar diretamente, orgulhosamente dissimulado.
A era o mais fiel e monótono. Sentado, grande, olhava-a fixamente, aguardando pacientemente o começo de um novo dia.
Impaciente, E rondava o quarto e a sala, procurando todos os dias o buraco da casa o deixasse entrar e sair sem horários nem concessões.
Sofia levantava-se, passava rapidamente na casa de banho, e saía com a pequena sacola, a tiracolo, com a maçã, as bolachas e a velha máquina fotográfica digital, que retratava sempre a mesma paisagem, ao longo do ano, nas várias estações, num registo gráfico do relógio celeste. Os cães corriam pelo monte acima. E sempre à frente, D logo atrás, B indeciso entre a aventura com os amigos ou o conforto de Sofia, e A a seu lado, como uma sombra, pesadão, não se percebendo se protector se medroso.
Sofia vivia com os seus quatro cães. Eram quatro porque quatro é o número que lhe permite variar a companhia, como uma pequena multidão, sem dispersar a atenção que qualquer um deles precisa. Eram todos diferentes, gostava de cada um por igual, cuidava-os e atendia-os, queixava-se de uns aos outros, confortava-se no grupo perante a doença ou pequenos acidentes.
Já tinha tido um cão, Tobias, solitário, que lhe fez companhia quase dez anos. Quando morreu, decidiu ter muitos ou nenhum. Nenhum, para nunca mais sofrer, ou muitos, para partilhar as alegrias que lhe proporcionavam, e diluir os inevitáveis dramas dos seres viventes. Como não conseguia ter nenhum, escolheu o número quatro.
Batizou-os com letras, pela ordem com que lhe entraram em casa. Um nome marca a personalidade, como se a impuséssemos; uma letra, ou um número, não. Os seus cães seriam livres, nesta paisagem agreste, de pedras, arbustos e velhos socalcos construídos por agricultores que há muito emigraram para outras paragens menos duras, rodeada do eterno azul deste mar de segredos guardados desde os primeiros marinheiros.
C era um desses segredos. Provavelmente caído da falésia numa das suas imprudentes explorações que duravam dias, embora Sofia desejasse e acreditasse que tivesse sido roubado numa incursão de piratas, e que, agora, atravessava o Egeu de focinho levantado, na proa de um velho galeão espanhol apresado numa ruidosa batalha de canhões e espadachins.