Pedro não era corajoso o suficiente para dominar a aleatoriedade da vida, nem homem de fé para resignar-se tranquilamente ao desígnio de uma amada entidade superiora, aceitando as orientações impostas por opções e prioridades alheias. Mas não se deu sempre mal. Os seus sucessos eram justamente invejados, mas sentia-se sempre a reacção de outros actores, conformando-se num mal menor de outras decisões, como se fosse um especialista tático na resolução dos problemas quotidianos, mas nem fosse ouvido, ou não se fizesse ouvir, ou nem sequer falasse, nas grandes decisões estratégicas do mundo em geral, e da sua vida em particular.
Vezes sem conta decidira acabar discretamente com o enfado do desgaste do conduto que lhe era imposto, mas sempre adiava com o mesmo beneplácito com que aceitava as regras.
Da última vez, quase foi longe demais, ao ponto de lhe perderem o rasto. Desapareceu, mudou de nome, apagou contactos, encerrou contas. Qualquer investigador a meio tempo descobriria-o facilmente, mas não ser seguido nem procurado deu-lhe paz. Confirmou-lhe que aparentemente já ninguém o queria. Foi como se tivesse morrido. Deve ter ficado como memória num qualquer episódio medianamente cómico, em que estorvou alguém, ou como aquele “que é feito dele?” que fica sem resposta num comentário a uma fotografia esbatida encontrada no fundo de uma gaveta.
Agora era um quase sexagenário, ou já sexagenário, não interessa, perdeu a conta; instrutor de vela na primavera, passeador de turistas pelas Cíclades, no verão, no seu Blues Siren II, o pequeno veleiro de doze metros, guardador e cuidador de barcos no inverno.
O outono era a sua época de descanso. Com o início das aulas, rareavam os clientes de instrução, normalmente jovens adolescentes, os turistas dos passeios já tinham regressado às suas cidades frias, e os barcos dos marinheiros de verão ainda mal tinham sido atracados, para as limpezas e manutenções de inverno. Era o tempo para si. Viajava sozinho, procurava novas paragens, novas ilhas e enseadas, novas paisagens, outros alvoreceres e entardeceres, na incansável procura do sentido da vida. Também voltava a pequenos portos conhecidos, para rever casas e gentes, cheiros e ruídos familiares, depois do bulício do verão.
Ancorou na baía de Faros, Sifnos, um dos pousos certos, nas suas deambulações, desde que se radicara na vizinha Milos. Pouco passava do meio da tarde. Era um bom local para passar a noite,
Chrysóstomos saltou primeiro do barco para o bote de borracha, para se deslocar a terra.
-Ok! Queres ir, vais.
Largou a amarra, puxou a corda de arranque do pequeno motor Honda, e partiram ruidosamente para terra, numa baforada de fumo azul.
Chrysóstomos pulou para terra, logo ao primeiro encosto, e correu para longe da vista, em busca de todos os cheiros e excitações. Durante quase meia hora não valia a pena chamar ou procurar. Era o seu momento de introspecção e convívio com a natureza, farejar cães, gatos, todos os animais, aliviar-se, marcar território.
Pedro deixou a malga de alumínio cheia de água fresca no cais, junto à amarração, como sempre, para ele se refrescar quando quisesse.
Sofia bendizia o tempo mais ameno de outono. Já podia sair de casa, depois de um almoço ligeiro, e fazer a habitual caminhada de uma hora por trilhos poeirentos, descendo até a borda de água, para uma leitura com café, no Captain George.
Os cães ficavam, tomavam conta entre si e cuidavam da casa aberta. Para não a seguirem, bastava dar a ordem a E, o mais dinâmico e nervoso, mas também o mais obediente. Onde ele estivesse, D seguia-o sempre, B ficava com a maioria, e o grande A olhava-a triste, vendo-a afastar-se, porque a sua maior felicidade era dormir na sua casa, aos pés de Sofia, com os três amigos por perto. Das três condições contentava-se com a conjugação de duas, fossem quais fossem: com Sofia em casa, com Sofia e os três amigos, ou em casa com os amigos, como agora.
O trilho até à costa era especialmente agradável na primavera. Encontrava alecrim, tomilho, lavanda, mirto, hibisco, oleandros, murtas e amoras silvestres, mas num outono seco, como este, deliciava-se com o cheiro a caril da perpétua das areias, nas pequenas dunas junto a Faros.
O Captain George era como uma venda de aldeia de apoio aos marinheiros. Vendia fruta, legumes, conservas variadas, produtos de higiene e limpeza, latas de óleo para motores a dois ou quatro tempos, ceras e parafinas, servia sanduíches, gelados caseiros, tostas, café glacé, o melhor expresso do mediterrâneo oriental, além de vasta variedade de bebidas alcoólicas e cocktails. Tudo primeiras necessidades.
No verão, já começava a ter turistas de calções e sandálias a autofotografarem-se com o pequeno casario e barcos de pesca como cenário de fundo, que chegavam de motoretas e carros alugados à saída do ferry de Kamares, mas em outubro só sobravam os locais e velhos marinheiros passeantes, reformados de outras vidas.
Sofia tinha pena de nunca se ter habituado a livros digitais, pela economia e racionalidade da transmissão de conhecimento por kbytes. Tinha particular gosto em folhear papel. Havia livros muito bons mas também de histórias banais, medianamente escritos, de que se lembrava do sabor especial das folhas ou do cheiro das tintas. Já começara a empilhá-los, já não cabiam nas estantes. Não precisava de ordená-los. Conhecia-os pela cor e letras das lombadas, sem as ler ou sequer recordar-se dos títulos. O grafismo das lombadas despertava-lhe as emoções que sentira a ler os livros. Uma biblioteca emocional. Emocionava-se com os livros, os que lia e os que escrevia. Lia os que comprava online; uma dádiva do progresso, que lhe permitia receber em casa livros das melhores editoras e livrarias do mundo. Os que escrevia publicava no seu blog; alguém leria. Felizmente não precisava disso para viver.
Na mesa ao lado, quase de frente para si, estava um casal britânico a falar com um homem mais novo, de costas para ela. Mais novo é um eufemismo. Tinha cabelo grisalho e já expunha o couro craniano entre a cabeleira que já tinha sido farta, mas seria vinte anos mais novo do que os velhotes.
Falavam de ventos e correntes, conversa habitual entre desconhecidos no Captain George. Ele não era inglês. Falava relativamente bem, mas com o sotaque internacional comum. Deveriam ser daqueles dois veleiros que abanavam o mastro no meio da baía.
Ela distraiu-se e embrenhou-se no seu livro, enquanto agitava as pedras de gelo no café. Estava bem escrito e com o ritmo certo, que nos puxa ansiosamente para o capítulo seguinte.
Pedro levantou-se e despediu-se dos seus amigos de circunstância. Ficava sempre espantado com a destreza e coragem destes velhos marinheiros. O casal estava a iniciar o trajecto de regresso a Plymouth, via Sicília, Sardenha, Baleares, Málaga, Algarve, Lisboa, Vigo, Corunha, Cantábria e Bretanha. No ano seguinte voltariam, para mais três meses no Egeu.
Regressou ao bote e Chrysóstomos já estava lá dentro. Sentado, a abanar a cauda com os olhos vivos que mal se viam no meio de tanto pêlo preto encaracolado. A malga já estava vazia. Pedro pegou nela e desamarrou a corda.
-Hei! Esse cão é meu!, ouviu num grito de mulher atrás de si.
O mais surpreendente não foi o berro no pacato silêncio calmo de Faros. O que o surpreendeu é que o ouviu num idioma que já não ouvia há muito tempo: em português.
-Ladrão! Roubaste-me o cão!