Escreviam horas por dia, ele à janela, ela junto à lareira, num silêncio sereno de rotinas simples de quem se aceita e compreende, como se fossem de um para o outro desde o início, de refeições simples e prontas servidas da dispensa e do frigorífico, abastecidos em tempo quando decidiram recolher-se na montanha nevada, no fim do outono, sem telefone nem televisão ou internet, num retiro de cura emocional e inspiração criativa a que os dois se proporcionavam pela paz partilhada em longas horas de silenciosa companhia de olhares ternos e protetores, no alívio de tormentos confessados no calor do fogo ao serão, e nas longas noites retemperadoras de sono abraçado.
Quando a primavera floresceu, tinham muito mais do que dois livros feitos. Tinham histórias, aventuras, ensaios, um amor simples e diferente dos outros, e dos inventados no papel, que não conseguiam descrever, mas dava-lhes sentido à vida.
