Josefina Madeira . 25

A última curva abria a paisagem sobre a vila de pequenas casas, de chaminés negras de fuligem da queima da hulha, emparedadas a tijolo vermelho e geminadas em ruas de habitação de mineiros, operários e ferroviários, entrecortada pelo brilho dos carris reluzentes na linha do comboio que saía do túnel escuro até se perder no meio verde de suaves colinas a caminho do mar, com telhados molhados reflectindo o sol tímido de fim de tarde à espreita entre rápidas nuvens cinzentas empurradas pelo inclemente vento do mar do norte.
Parou na berma, desligou o motor, desabotoou o casaco, tirou o capacete e os óculos, baixou o lenço da face para sentir o cheiro a terra molhada e vegetação putrefacta batido na cara pelo vento húmido desta charneca por onde passou a outra metade da sua infância, e, sentado na Bessie, deixou-se como o cavaleiro no promontório do terreiro de luta nos alvores da derradeira batalha, debatendo-se sobre a vida passada, ainda curta, mas preenchida, as suas dúvidas e pequenas angústias, o sentido da sociedade e da civilização, a sua falta de apego aos básicos valores que invejava nos outros, o fingimento que o tornava normal, o temor de se mostrar excêntrico, esse questionar de tudo que lhe perturbava o sono.

Desceu o troço final das últimas centenas de metros do longo caminho dos últimos dias, até às primeiras casas.
Toda a Grosmont estava igual com a excepção de alguns asfaltamentos novos reluzentemente marcados a branco, discretos reclamos luminosos que despertavam sobre pequenos novos comércios em casas velhas de outras vendas de vidas passadas noutras décadas, ao longo da via principal, e automóveis, não muitos, mas mais do que alguma vez se recordara de ver por ali, num sinal promissor de progresso e gente nova que estava ansioso por confirmar.
O ronco do escape ecoou nas ruas estreitas, de apertados cruzamentos e curvas fechadas, já iluminadas pelo farol da motocicleta, até se abrir o espaço aberto da longa recta de asfalto paralela à linha férrea, da saída para Whitby.

Meia milha depois do fim do casario surgia do lado esquerdo, oposto ao caminho de ferro, num plano superior à estrada, a longa fachada fabril, verde com um friso de vidros canelados a meia altura, a encimar um longo jardim relvado com arbustos rasteiros, em declive até à berma do asfalto.
A meio, um grande portão abria até baixo, rasgando o jardim, permitindo cargas e descargas ao nível da estrada, de onde um par de carris atravessava a estrada até à linha férrea, e a uma plataforma giratória que permitia rodar os vagões noventa graus, alinhando-os com a direção da linha num pequeno ramal paralelo.
No fim do edifício da fábrica, o jardim subia até um velho carvalho, mais velho do que a própria vila e tudo o que por ali se construíra nos últimos duzentos anos, majestoso sob o relvado, unindo, num contínuo de verde, a cornija fabril às portadas de madeira do primeiro andar da residência Thompson.
A casa impunha-se sobre a estrada, a um carvalho de distância da fundição barulhenta e fumegante. Um passante desatento diria que era uma outra entrada do mesmo edifício, da mesma fábrica, pela arquitetura da mesma época da construção do caminho de ferro.

Reavivou as memórias de infância.
O pequeno portão com um degrau junto ao asfalto, a entrada de pedra de dois vãos de escadaria, à esquerda e à direita, iguais e simétricos, em quadrado, com um tufo de relva ao centro, noventa graus para os primeiros sete degraus, outros noventa para mais nove degraus virado para a casa, outros noventa para mais onze contrários aos primeiros até à junção dos dois caminhos no largo patamar pétreo defronte à porta principal.
Subiu pela esquerda, como sempre. Aquele lado era-lhe familiar, confortável como uma superstição.
Poderia ter entrado pela porta de serviço, em rampa, por onde entravam os carros da casa e das visitas, contornando o terreno que se estendia ao longo da estrada, e estacionado na gravilha a seguir à casa, mas sentia-se como um visitante que chega sem aviso. Tinha escrito à mãe, a dizer que vinha no fim do mês, mas o fim do mês tem dias, mais de uma semana, como na regressão para as calendas vindouras.

Já era noite. A Bessie ficara na rua, mas não por muito tempo, só o suficiente para os cumprimentos, satisfações e felicitações do reencontro após tantos anos – quantos anos? Cinco. Cinco anos é muito tempo. É um quinto da vida de um jovem antes dos trinta anos. Um quinto pode ser pouco, dirão, mas é suficiente para mudar de vida, crescer, transformar, viver, arruinar, ou morrer.

A porta, de duas folhas de madeira, pesada, também verde mas num tom mais escuro do que o da alvenaria, com dois vidros do mesmo canelado dos vitrais da fábrica, arqueada com bordadura cinzenta, centrava as cinco janelas para cada lado, no rés do chão, e secundava o vitral que se lhe sobrepunha, no primeiro andar, que também centrava outras cinco janelas à esquerda, simétricas das da direita.
Pisava aquelas pedras, olhava em volta, e recordava a sensação, de criança, daquele ordenamento ortogonal, recto, simétrico, sem alma nem criatividade, memória de um tempo industrioso, rico, determinístico, que já passou.
Havia luz na última janela do lado esquerdo, no quarto principal, no topo virado ao carvalho e à fábrica, e nos vitrais da entrada, da refracção da luz de presença da escadaria interior, que se recordava estar ali.
Largou duas vezes o pesado batente. A modernidade da anunciação elétrica ainda não tinha irrompido nestas paragens. Ou se calhar já, mas a teimosia da certeza das coisas mantinha o que se julgava ser certo e definitivo.

A luz de dentro ficou mais forte e de seguida acenderam-se os dois candeeiros laterais. A porta abriu-se a um homem calvo, mas ainda jovem, com calças de uniforme de trabalho e jaqueta de malha. Olhou sério e fixamente antes de perguntar:
“- Good evening, sir. Do you have an announcement or require any assistance?”
“- Don’t you recognise me, Tom?”
O homem franziu o sobrolho e manteve a inexpressividade de contida incompreensão.
“- I’m afraid I don’t, sir.”
“- I’m Sebastian, the expat.”
Tom Sherman recuou um passo, deu passagem, e curvou ligeiramente a cabeça, sem desviar o olhar, discretamente curioso, para Sebastian.
Mantinha a austeridade da juventude. Todo ele era uma história de vida.

Era o filho de Samuel Sheman.
Samuel fora um vigoroso e competente encarregado fabril, exímio no cumprimento das ordens, imposição da disciplina e particular aptidão para a mecânica, veterano de França, condecorado por bravura na batalha de Somme. Sebastian não se recordava de Samuel mas a história fora contada e repetida vezes sem conta na sua infância.
Herói de guerra, forte, corajoso, líder, inteligente, rapidamente se destacou no trabalho da fundição, principal empregadora da terra. Não tinha horários, a energia era inesgotável num poço de força, sagacidade notada, mas também não conseguia esconder os fantasmas da violência da guerra.
Bebia demais, não evitava rixas no pub, e era temido pela particular violência que empregava, obrigando vários homens a segurá-lo para evitar consequências extremas, como se a explosão de fogo e trovão dos canhões, os espetos dos estilhaços dos morteiros, a correr entre os cambaleantes camaradas gaseados e os gemidos dos moribundos a chamar a última vez pela mãe, a escorregar no chão da trincheira enlameada de sangue e tripas dos esventrados à baioneta, lhe toldassem a cabeça quando ultrapassava o limite que ninguém sabia onde estava, numa simples provocação.
A década de vinte foi de expansão e crescimento económico, de encomendas para o ano inteiro mas também de extensas mudanças sociais. As mulheres entraram para a produção fabril para ocupar os lugares deixados vagos pelos jovens mortos e estropiados na guerra, e ganharam o direito a voto, equilibrando os orçamentos familiares, criando tensões nas dores de crescimento e desenvolvimento da sociedade local, pressionando o emprego, vagando os lares, concorrendo nos pubs, falando alto a fumar em público. Ao mesmo tempo, os bolcheviques organizavam a revolução inspirada em 1917 com permanente ameaça de greve e cada vez mais influência na gestão e planeamento do trabalho. No Yorkshire de 1920 não se vivia a tensão das fábricas de Birmingham, mas as células comunistas estavam instaladas nos meios de produção, articuladas com a internacional socialista.
Foi neste combate que Samuel se destacou, ao lado dos Thompson, impondo a sua força e autoridade, principalmente nos anos a seguir a 1929, em que o estalar da crise pareceu vir dar razão aos prognósticos do fim do mundo liberal capitalista.

O guerra voltou em 1939, no que parecia ser uma refrega simples e rápida no leste da França, travada na linha Maginot, mas o rápido avanço alemão, atropelando a neutral Bélgica, e o cerco embaraçoso de Dunquerque em maio de 1940 demonstrou o real perigo do monstro nazi.
Foi neste maio de 1940 que a família Thompson é surpreendida com o irrompimento da polícia na sua fundição para a detenção de Samuel Sherman, acusado de conspiração e traição ao Rei. Sem ninguém saber na sua terra natal, Samuel era membro do British Union of Fascists desde 1932, e participara na batalha campal de Cable Street, no East End de Londres, em 1936, ao lado de Oswald Mosley, fazendo-lhe a guarda pessoal.
Ficou detido até 1945. Nesse período, os Thompson acolheram em casa o jovem adolescente Thomas Sherman, que já havia perdido a mãe anos antes, como aprendiz, por caridade e reconhecimento pelo leal passado do pai, agora traidor.
O pai Samuel voltou ao trabalho no fim da guerra, com cadastro de traição mas sem factos que justificassem mais detenção após a incondicional derrota fascista, num ambiente pesado.
Perdera a posição de chefe e não se integrava com os colegas que não lhe perdoavam a traição aos familiares e amigos mortos na guerra.
Apareceu morto, algumas semanas depois, esfaqueado na madrugada e largado na valeta da estrada para Whitby. A investigação policial foi sumária e convenientemente inconclusiva.

O jovem Thomas revelou-se reconhecido, trabalhador, um exímio motorista, e tornou-se o fiel lugar-tenente da agora gerente da fábrica, a viúva Coleman, mãe de Sebastian, herdeira da família Thompson.
Tom era cinco anos mais velho do que Sebastian. Em 1945 tinham quinze e dez anos, aquela diferença de idades tão distante na infância e juventude, que se aproxima no início da meia idade.
Eram praticamente uns estranhos.
Sebastian estivera sete anos no colégio interno, mais quatro no serviço militar, prosseguindo outros cinco anos em Portugal, com meses de intervalo, passara dezoito anos fora de casa, enquanto o tímido e reservado Tom aproveitara a benevolência dos Thompson para sobreviver e reintegrar-se na sociedade local, aprender um ofício, e ambicionar uma posição que a falta de herdeiros naturais Thompson lhe proporcionaria, não esquecendo, mas camuflando, a vergonha e mácula deixadas pelo seu pai.

A reserva e frieza servil, embora digna, de Thomas Sherman, coincidia com a descrição regular e meticulosa nas cartas que Sebastian recebera de sua mãe.
Beatrice Coleman mantivera sempre o hábito da escrita semanal para o seu único filho, mantendo-o ao corrente dos seus sentimentos e pensamentos, descrevendo as vitórias e dificuldades do seu dia a dia profissional e pessoal, não porque fosse particularmente extrovertida ou sentimental, mas sim pelo desejo secreto de o trazer para a origem, responsabilidades e tradição da família.

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