Eles

Reconfortados no sol quente de fim de tarde de primavera ainda fresca, partilhavam as dúvidas, remorsos e lamentos do acumular de erros e hesitações da vida madura, procurando mutuamente o apoio improvável no aproximar dos espíritos, sempre arriscado pelo despoletar do desejo, ainda que travado e temperado pela memória das precipitações do passado que tanto os assombra.
Confessaram pecados, recordaram experiências duras, encobriram vergonhas destapadas, renderam-se ao destino final, prometeram ajuda incondicional, tiveram vontade de dar as mãos, de abraçar de apertar, de beijar, de chorar, de lamber a mágoa.
Não se mexeram. A condição, o local, a moral, a preservação do respeito, a garantia do amor leal já conquistado, não permitiram.
Ele, num movimento atrevido, esticou o braço e tocou-lhe o ombro com dois dedos. Ela não se afastou nem rejeitou. Só olhou na direção do sol, como a justicar o calor sentido.
Os dedos sentiram o tecido da camisa, imaginaram a maciez da pele, esbarraram no elástico da sustentação do que nem quis imaginar. Ela esticou o pescoço e cruzou a perna, num estiramento de relaxe.
Ele baixou o tom de voz, grave, e só lhe disse que gostava dela. Conteve-se.
Não se aproximou, não lhe cheirou o pescoço, não lhe mordeu o lóbulo, não lhe murmurou ao ouvido tudo o pensava e tanto queria, não a abraçou, não a apertou, não a sentiu a entregar-se, não lhe desapertou outro botão nem afastou outro elástico para lhe sentir o calor húmido de mulher.
Não. Mas prometeram-se em silêncio, no seu jeito estranho que sabem como é, paciente, que os sustenta e aproxima.

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