Amarguras, na solidão do fim do verão, com a condescendência que julgas sentir nos atos ou palavras dos outros, que gostam de ti, por ti, como tu és agora, e nem querem saber das metas impossíveis de cumprir, que te impões e te frustram.
Author Archives: Rui Rodrigues
Tranca do diabo
Os dias correm na sua entediante monotonia de lento desgaste, encadeando pequenas irritações com ainda menores entusiasmos, neste passeio de sentido único da vida diária que sabemos como acaba, acreditando que nos vamos aborrecer de morte antes que ela se aborreça de nós.Nada é pior do que a injustiça do chefe, as contas do fimContinue reading “Tranca do diabo”
Maresia #2338
Sete dias, sete músicas
Josefina Madeira . 3
O mês de janeiro era de grande azáfama nos armazéns de vinho, com os engarrafamentos de inverno, aproveitando estabilidade da hibernação sazonal da atividade biológica do envelhecimento em madeira, para a trasfega e deposição em vidro. Além do trabalho de enchimento, arrolhamento, lacragem e rotulagem, feito por pessoal efetivo e bem treinado, era necessário umContinue reading “Josefina Madeira . 3”
Um homem na corrente
Todos os dias entrava na corrente de gente que ia para lá, fosse para onde fosse, ordeira na pressão sobrelotada. Passava o torniquete, descia a longa escada mecânica, encostado à direita, como faziam os previdentes que se tinham levantado a tempo, chegava à sala grande das decisões, escolhia a direção que levasse mais gente, queriaContinue reading “Um homem na corrente”
Último dia
Ela vivia obcecada com o último dia da sua vida. Todos os dias de manhã, acordava a pensar que esse poderia ser o dia. Fazia listas do que faltava, do que queria, do que ia deixar, do que queria visitar, do que ficou por fazer, do que ainda não disse.Todos os dias acabavam por serContinue reading “Último dia”
W 75th St
Nunca vos contei a história dos meus vizinhos de baixo? Adoro-os. Vivem frente a frente, a um patamar de distância. Quando estão em casa nem fecham as portas, como se fosse um só apartamento. Ninguém se importa, nem o senhorio. Dão vida ao condomínio, não se metem com ninguém, têm as contas em dia eContinue reading “W 75th St”
Labirinto
Ando a abrir portas por corredores escurosSe calhar perdido. Encontrado não estou, com certeza Acendes uma luz, dás comigo aninhado ao canto. NuBerras e reclamas uma razão que já nem me lembroCulpa minha, de certeza. É sempre, confesso Não exijas mais do que te posso darDou tudo. Não sei quanto. Tudo Enquanto valer a pena.QuantoContinue reading “Labirinto”
Maresia #2337
Sete dias, sete músicas
Josefina Madeira . 2
Josefina desceu ao pátio e começou a estender roupa mecanicamente, sem pensar. A rotina do trabalho, o movimento, o esforço físico acalmou-lhe a emoção. Não percebeu o que aconteceu, foi muito rápido e inesperado. O desconforto do toque forçado e o medo da vulnerabilidade cobriram-na como um manto negro entorpecente. Só via as mãos, asContinue reading “Josefina Madeira . 2”