Era a casa da mãe, a casa da família, mas pouco sentia como a sua casa. Do que se recordava bem da sua infância era aquele ano inteiro que viveu na “cottage”, o velho casal isolado nas colinas húmidas e ventosas dos “moors”, a poucas milhas de distância para nordeste, a modesta e centenária casaContinue reading “Josefina Madeira . 26”
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Josefina Madeira . 25
A última curva abria a paisagem sobre a vila de pequenas casas, de chaminés negras de fuligem da queima da hulha, emparedadas a tijolo vermelho e geminadas em ruas de habitação de mineiros, operários e ferroviários, entrecortada pelo brilho dos carris reluzentes na linha do comboio que saía do túnel escuro até se perder noContinue reading “Josefina Madeira . 25”
Josefina Madeira . 24
Era um mundo diferente do que ele conhecia. Na verdade, além de Josefina, Sebastian não lidava com pessoas mais novas, e a realidade portuguesa, onde ele tinha vivido nos últimos seus anos, era muito diferente da que se lhe deparava agora. Chegara a Manchester ao fim da tarde, de um dia cansativo de chuva eContinue reading “Josefina Madeira . 24”
Josefina Madeira . 23
Sebastian saiu cedo, depois do pequeno almoço combinado, tratado e pago de véspera.Quando desceu, às sete horas, tinha mesa posta só para si. Deveria ser mesmo o único hóspede desse dia. Deu sinal de si à miúda de ar tímido, atrás do balcão, que mal balbuciou “ Good morning!”. Sentou-se por indicação dela, aguardou unsContinue reading “Josefina Madeira . 23”
Josefina Madeira . 22
O cargueiro acelerava para norte, deixava o conforto da costa e lançava-se no escuro Atlântico adentro, rompendo as vagas, em sucessivas explosões de espuma. Sebastian agarrava a amurada e olhava o horizonte. Finisterra, fim da terra, fim do mundo romano, terra de Santiago, de Pelayo, dos reis de Leão, de nevoeiro, morrinhas e bruxas, deContinue reading “Josefina Madeira . 22”
Josefina Madeira . 21
Acordou com uma ligeira dor de cabeça. Nada a que não estivesse habituado, nem que não se resolvesse. As réguas venezianas da janela, a nascente, filtravam a luz do sol da manhã de verão, refratada nas ondas da cortina branca transparente.Ligeiramente indisposto, mas com uma sensação agradável. Como se estivesse bem, correu bem, passou bem,Continue reading “Josefina Madeira . 21”
Josefina Madeira . 20
Josefina divertia-se a ouvir a descrição da vida de várias gerações, passadas e futuras, do século dezanove ao século vinte e um, encadeadas como se o mundo fosse um contínuo temporal de tarefas e desafios, trabalhos herdados e deixados, em que nenhuma se podia gabar do êxito sem se lembrar e agradecer a todas asContinue reading “Josefina Madeira . 20”
Josefina Madeira . 19
Já passava das quatro da tarde, quando desciam para a adega no silêncio do cansaço da longa jornada.Desde manhã cedo, fizeram praticamente o mesmo percurso de cinco anos antes, com as mesmas paisagens, as mesmas subidas e descidas, paragens, apontamentos, fotografias, mas, agora, os horizontes alargavam-se, os limites estendiam-se, a quinta tinha quase o dobroContinue reading “Josefina Madeira . 19”
Josefina Madeira . 18
“-Mãe! Vou estar fora dois ou três dias no final da semana. Tenho de ir à quinta dos patrões, organizar coisas.”“-Sim, filha. Vai.”“-Vou com Sebastian.”Maria continuou na sua lide, como se não desse atenção.“-Ele, depois, vai para Inglaterra, dois ou três meses, tratar de coisas dele, e vai deixar-me a cuidar do armazém.”A filha jáContinue reading “Josefina Madeira . 18”
Josefina Madeira . 17
As ruas da cidade enchiam-se na noite mais curta de ano, a do início do verão, a noite de São João. Fogareiros à porta, sardinhas e febras das brasas para fatias de broa, vinho a jorrar de garrafões para malgas e canecas brancas, preparavam a noitada de rusgas, saltos à fogueira e alhos porros, ervaContinue reading “Josefina Madeira . 17”