A grande ilusão

Quando olhamos para a lua e para as estrelas, numa noite de céu limpo, nem imaginamos que estamos a ver uma grande ilusão. Na realidade, espaço está curvado, para uma dimensão que não vemos, pela massa dos corpos celestes, como bolas de bilhar pousadas numa cama elástica deformam o seu plano.
A analogia da cama ou tapete elástico é muito usada por divulgadores científicos. Mas eu prefiro outra.

Vamos dar uso à nossa imaginação, num mundo de fantasia:
Estamos no meio do mar, mas este mar é especial. É muito calmo e baixinho. Por mais que caminhemos por ele adentro, em qualquer direção, a água nunca nos passa acima do joelho. Estamos rodeados de água por todos os lados.
Para tornar este mar ainda mais estranho, vamos imaginar que não tem areia no fundo mas sim uma tela elástica deformável. Quando caminhamos não sentimos areia nos pés, mas sim um piso deformável, como borracha, e escorregadio.
Agora, como por magia, alguém coloca uma esfera enorme, do tamanho de uma casa, a uma distância razoável, a cerca de um quilómetro de nós, no meio deste mar, pousada no fundo elástico. O peso desta enorme esfera, de algumas toneladas, deforma o fundo do mar. Metade da enorme esfera fica fora de água, com vários metros de altura, e outra metade debaixo da linha de água, deformando o fundo, os mesmos vários metros, na vertical.
Depois de nos habituarmos à nova situação, olhar para a esfera semi-submergida, de longe, vai parecer normal. Vemos o mar calmo, continuamos com a água pelo joelho, a esfera imóvel. Assim como se fossemos um astronauta, no meio do espaço a apreciar, de longe, um planeta exótico.
Cheios de curiosidade, começamos a caminhar na direção da esfera. Algumas dezenas de metros à frente, algo de estranho se passa. A água começa a chegar aos calções. Está tudo igual, o mar, a superfície da água, o reflexo do céu, mas o mar é mais fundo e não percebemos porquê. Nunca tínhamos visto nada assim.
Agora tentamos recuar mas já não conseguimos. Escorregamos  no fundo plástico, no plano agora em rampa. Só conseguimos andar para o lado ou em direção à esfera. Estamos a descer mas não percebemos o que se passa. O mar continua igual, da mesma cor, o mesmo aspecto, mas não conseguimos afastar da esfera.
Até que acabamos por ficar tão perto que perdemos o pé e nadamos, atabalhoadamente, até nos agarrarmos às rugosidades da esfera. Assustados, conseguimos subir, a custo, para o topo da nossa esfera, que passou a ser o nosso mundo.
Sempre que tentamos sair, escorregamos, nadamos com força, afastamo-nos do nosso mundo, começamos a trepar o fundo em rampa mas escorregamos e voltamos à nossa esfera.
Do alto da nossa nova casa, olhamos à volta e vemos que há outras esferas na água, como a nossa, outros mundos lá muito longe, mas não lhes chegamos porque não conseguimos sair do nosso.
E sonhamos. Será que também está lá alguém a olhar para nós?

A nossa visão do universo, a três dimensões, é a da superfície do mar deste mundo bizarro. Vemos outras esferas, planetas ou estrelas, mas não vemos a deformação, inclinação, do fundo do mar. Sentimos e conseguimos medir esta deformação, que chamamos aceleração gravítica, desde Newton, mas não a vemos.
A gravidade não é uma força; é a deformação do espaço-tempo.
Sabemos que a massa dos corpos deforma o espaço-tempo, criando aceleração gravítica à sua volta, mas é tudo muito mais misterioso do que pensamos. Há coisas tão estranhas e misteriosas no universo que os cientistas já lhes chamam matéria e energia escuras. Escuras porque não se vêem, não interagem mas deformam o nosso velho espaço-tempo que nos rodeia.

Temas para próximas conversas:
– A anomalia Pioneer
– O absurdo da expansão acelerada do universo
– Matéria e energia escuras
– Porque é que o tempo não passa igual para todos no universo?
– Buracos negros.

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