“Não sejas abnegado, não gosto, fica-te mal”, disseste-me secamente quando, mais uma vez, te cedia o melhor lugar.
“Não sejas abnegado” ficou-me horas na consciência. Fui procurar a definição exacta. Conheço a palavra mas não me lembro de a ter usado uma única vez. Abnegação, auto-sacrifício altruísta, acto de renunciar a algo em benefício de outra pessoa.
Percebo a tua relutância. Numa relação entre iguais, rejeitas qualquer tipo de paternalismo ou cavalheirismo sexista que só distorce a saudável e necessária camaradagem entre pares. Concordo. Neste sentido, abnegação, aparentemente uma diminuição do indivíduo perante o outro, também é uma forma de superioridade, humilhação, criação de um ascendente, como se dissesse “eu sou tão bom que até te cedo o lugar à janela, porque janelas é o que eu tenho mais”.
Mas abnegação tem outro sentido. Abnegação também é a acção ou o acto de renunciar a algo, em benefício de um objetivo maior, do bem-estar ou das necessidades de um grupo.
Sempre que fui abnegado em função de um grupo, da família à sociedade em geral, contribuí para o bem estar de todos, inclusive do meu. É certo que, se tivesse feito valer os meus direitos ou vantagens, nesses momentos, teria obtido mais valor ou conforto para mim próprio, mas secaria tudo à volta, qual onanista na torre de marfim do deserto. Não me arrependo.
Comigo, vais sempre à janela, a desfrutar da paisagem. Os teus olhos vão ser os meus olhos, o teu conforto vai ser o meu conforto, a tua felicidade vai ser a minha felicidade.