Maria não gostou do que viu. A filha, uma criança com treze anos acabados de fazer, a despontar mulher, vestida de homem, de roupas claras e cabelo quase solto, encantada no primeiro dia com um trabalho de rapaz, a lidar com um inglês sabe-se lá com que vícios, embora novo, vá lá.
Maria não era sensível aos mal-dizeres e pior-achares da vizinhança, até porque a sua vida já há muito caíra na má língua e julgamento da rua, mas tinha para si que as mulheres deveriam sempre ser discretas, vestidas de escuro, saia comprida, pernas tapadas, cabelo apanhado e cabeça coberta.
Parecia obra do demo. Um dia de trabalho, veste-se à homem, aprende coisas estranhas, fala inglês, que ela nem imaginava que sabia, vem com a cabeça no ar, infetada de outros ares, e um sorriso tonto que felicidade não haveria de trazer.
Isto não estava bem, mas não tinha alternativa. Que haveria de fazer? Fechá-la em casa? Mandá-la de volta para a pensão? Seja o que Deus quiser, há-de se resolver, e o que lhe pagarem, que não será menos do que ganham as lavadeiras, será sempre bem vindo para compor as contas do fim do mês.
Na manhã seguinte, obrigou-a a prender o cabelo com um puxo bem embrulhado, sem pontas soltas
“-O trabalho pode obrigar-te a andar com calças de homem, mas uma mulher decente só sai à rua com o cabelo bem amarrado.”
Mas o cabelo dela andava cada vez mais solto.
Os dias seguiram-se relativamente monótonos.
Sebastian tratava de burocracia dos papéis, rececionava guias de transporte dos barris desembarcados, destinava-lhes lugar no armazém, preenchia as grelhas de inventário, decidia que pipas iam para engarrafamento consoante os pedidos, atualizava inventário, fazia relatórios para a administração, preenchia livros de registo. Já confiava no trabalho de armazém de Josefina.
Ela verificava tudo, executava ordens e instruía os homens das cargas, nas cordas e nos carrinhos de mão, devolvia os documentos com a confirmação da execução, colocado no lugar ou despachado para expedição. Dava uso ao lápis, escrevia nas grelhas de existência, apontava no bloco o que se justificasse relatar, acendia a lanterna para confirmar os códigos na penumbra do armazém.
Mas ainda não vos disse para que servia o volumoso martelo de madeira que também trazia na sacola.
Tanto no chão como empoleirados em cima um dos outros, os barris assentavam em barrotes de madeira e firmavam-se com cunhas, também de madeira. Com o movimento de carga e descarga, era necessário que as cunhas e barrotes estivessem sempre sob tensão, para que não houvesse folgas e rolamentos dados ao desastre. Tinha de estar tudo bem firme. Um dos cuidados que Josefina tinha de ter era bater nas cunhas, tanto para apertar como para confirmar o aperto. Este foi um dos primeiros conselhos de Sebastian, logo no primeiro dia. Quando Josefina andava de volta das pipas recentemente remexidas, que era quase sempre, todos os dias, batia com o maço. O seu zelo fazia com o toque-toque-toque fosse recorrente.
Toque-toque-toque.
Passou uma semana, duas, o mês de fevereiro, chegou a primavera e o bom tempo. Abrandou o ritmo de engarrafamento. O vinho que envelhecia requeria repouso, e já havia mais espaço para novas chegadas. O que se vendia de garrafas saía do outro armazém, para lá do engarrafamento, e o que saia do de Josefina, era para reposição desse.
O trabalho dela era solitário. Mas quando era em equipa, com o pessoal das cargas, ela dava as instruções, o que não era bem aceite pelos homens. Receber ordens de uma adolescente vestida de homem e que falava a língua dos patrões. Josefina falava cada vez melhor inglês. Tinha jeito para as línguas, já se tinha apercebido a professora Amélia, em bom tempo, mas, agora, ela e Sebastian tinham combinado ensinarem-se mutuamente, a língua um do outro. Corrigiam-se e progrediam rapidamente no vocabulário. O sotaque dele é que continuava um desastre e trocava sempre os géneros. Porque é que um camião de carga é masculino e uma camioneta de passageiros é feminino? E ria-se com a sua própria piada.
Com a primavera, os hábitos e horários de Sebastian também mudaram. Continuava a trabalhar desde muito cedo, e ao fim do dia ainda ficava, quando todos já iam para casa, mas agora, durante o dia, saía por volta das onze horas e só voltava depois das três. Deveria ir almoçar a casa, pensava Josefina. Ela sabia muito pouco dele. Era reservado sobre a sua vida privada. Tão reservado que isso lhe dava cada vez mais confiança. Nunca uma palavra era mal interpretada, não era irónico nem indireto. Exigente, duro quando necessário, estava sempre disponível para a atender, formar e ensinar. Tinha sempre um sorriso para ela. Mas tinha um mundo só dele. Também não era muito íntimo dos primos Richardson. Josefina mal os via. Raramente iam ao armazém. Ficavam pelo escritório, que era ao lado do de Sebastian, mas entravam sempre pela porta principal, diretamente da rua do cais. Eram mais velhos, dois irmãos, com idade para serem pais dele. Andavam sempre bem vestidos, de fato e gravata, sérios e circunspectos. Recebiam muitas visitas, todos estrangeiros. Nesses dias, era quando ela os via. Vinham ver as pipas.
O edifício tinha um armazém no piso térreo, virado ao rio. Servia de garagem para os Richardson e para arrumos temporários. Não era usado para vinho por causa do risco de cheias, que ocorriam com demasiada frequência no inverno. O portão era mesmo ao lado da porta principal. A de acesso ao hall e às escadas que serviam os escritórios da administração, no primeiro andar.
Um dia, ao fim da manhã, Josefina foi ao cais acompanhar uma descarga de pipas para o seu armazém. Fazia confirmações de rotina, de referências e quantidades, quando ouviu um ruído forte de uma mota a acelerar. Virou-se e viu a figura inconfundível de Sebastian, alto de calças curtas, capacete de couro, enormes óculos de proteção, a sorrir-lhe enquanto saía da garagem, numa vistosa e ruidosa mota verde. Ele era surpreendente. Aquela imagem ficou-lhe, até pelo ridículo. Deliciosamente ridículo.
Nos dias seguintes, não teve coragem de fazer perguntas, sobre a mota, sobre ele, sobre a vida dele. Ele falava pouco, já disse, e nunca puxava conversa. Não era casado, mas devia ter noiva. A um rapaz tão bonito, inteligente e bem educado, não lhe faltariam pretendentes. Ele coxeava. Ela questionava-se se seria doença ou acidente. Acidente de mota? No trabalho? Queria saber, era curiosa, mas continuava sem coragem. E podia levar a mal. Ele falava de tudo, mas nunca fez perguntas da vida dela, nem falava da dele. Isso também a fascinava. Esse mistério, que a poderia incomodar ou afugentar, também a atraía. Ele nunca era indelicado, com boas maneiras, próximo, mas sempre a uma distância respeitadora, olhava-a nos olhos com confiança. Parecia um irmão mais velho, ou um tio novo, mas para melhor, sem o amargo e o risco do excesso de familiaridade.
Em meados de julho, aconteceu uma das melhores experiências da vida da jovem Josefina. Sebastian precisava de ir às quintas, às vinhas das terras altas, a montante no rio, combinar todos os procedimentos do pós vindimas que seriam em setembro. Ele não tinha nada a ver com o processo da colheita, mas era necessário prever quantidades e datas para que tudo corresse pelo melhor. As adegas das quintas tinham limitações de espaço, e era necessário conjugar trabalho com as caves de envelhecimento que ele geria.
Sebastian queria que Josefina fosse ver como era. Trataram de tudo antecipadamente, para que não houvesse urgências na ausência de ambos, e marcaram uma semana de trabalho de campo.
Sebastian fez questão de falar com Maria, para obter a sua anuência. Ela não gostou mas que mais podia fazer? Em seis meses, a filha já se tornara numa mulher que ela mal compreendia e já pouca mão tinha nela. Seja o que Deus quiser. O rapaz também é novo, parece atinado, Ernesto diz que é esquisito mas respeitador. Não há-de fazer-lhe mal, com certeza, e ela deve saber defender-se
Partiram num barco a motor, rio acima. Um dos barcos da companhia, que faziam descer o vinho. Aproveita-se o retorno para transportar químicos, ferramentas e produtos diversos. O barco era largo, de fundo chato, para passar nos baixios, uma barcaça de rio. Não era muito grande. Tinha uma pequena cabine, de comando, na traseira, que poderia abrigar passageiros, em caso de intempérie, e dois bancos corridos, com toldo, onde se sentara Josefina. Ela nunca tinha andado de barco. Não haveria problema, prometera-lhe Sebastian, a viagem era tranquila.
A viagem dura o dia inteiro, cerca de oito horas, trazem um farnel para o almoço. Além do piloto, e deles os dois, vêm mais dois homens, dos trabalhos das vinhas, que vieram à cidade e regressam com equipamentos vários, na carga.
A primeira hora foi interessante. A novidade, o casario, pessoas a acenar nas margens, as pontes vistas de baixo, mas depois a monotonia instala-se, na sucessão de curvas sem novidades ritmada pelo bater do motor.
Sebastian seguia de pé, na frente do barco, a observar tudo. Quando a paisagem começou a tornar-se chata para Josefina, ele tirou um pequeno bloco e um lápis da sacola, e começou a escrever. Também desenhava. Ela gostava de olhar para ele. O vento no cabelo claro, os olhos vivos, atenção a tudo. De vez em quando sorria-lhe. Mais à frente, meteu o bloco no bolso de trás das calças e o lápis na orelha, e tirou numa pequena caixa preta do saco. Olhou para ela, mexeu numa botões, e levou-a à frente dos olhos. Era uma máquina fotográfica compacta. Uma Leica IIIf, digo-vos eu. Josefina sabia o que era, mas nunca tinha visto uma máquina fotográfica portátil. Só conhecia a do fotógrafo da avenida, um caixote em cima de umas pernas altas, de quando tiraram a fotografia de família antes dos irmãos partirem.
O sol aqueceu e Josefina deitou-se no banco corrido da sombra do pequeno toldo e adormeceu. Quando acordou, com fome, Sebastian continuava de pé, lá na frente, a escrever e desenhar. Já tinha gasto quase meio bloco. Tirou mais uma foto. Ela não percebia. Parecia tudo igual. Margens com mato, árvores, casas dispersas, uma povoação de vez em quando.
Estava tudo normal. Ela sentia-se segura e confiante com ele.
A meio da tarde a paisagem mudou. Apareceram as primeiras vinhas e algumas imponentes casas de quinta. Apercebeu-se da excitação de Sebastian. Apontamentos, desenhos, esquemas e mais algumas fotos. Agora era mais interessante e já sentia a ansiedade de que iriam chegar a algum lado.
Numa curva larga do rio, para a esquerda, surgiu de repente, na margem direita, uma casa grande. Enquadrada por árvores frondosas, cor de rosa escuro, com janelas altas e telhados vários e pontiagudos, um enorme terraço na frente, com um Tritão a jorrar água pelo tridente para uma fonte redonda, uma escadaria descia até às águas do rio, com um pequeno cais. Era a casa mais bonita que ela já tinha visto. Quase não se via, quando se subia o rio, mas, vista de frente, impressionava.
Às vinhas desciam até perto do rio, em socalcos, tanto de um lado como do outro da casa. Afastado, ligado ao cais e à escadaria, por um estradão calcetado, havia um armazém e o que devia ser a adega.
O barco abrandou e manobrou para acostar. Sebastian deu-lhe a mão, para a ajudar a sair, e rapidamente começou a subir os degraus até ao terraço. Ele andava sempre depressa. Nem parecia coxo.
A casa era a habitação de férias dos Richardson, mas eles só ocupavam parte. Sobranceira ao pátio da frente, havia, no primeiro andar, uma varanda de pedra revestida a heras, com duas enormes portadas. Eram os aposentos privativos da família, que também incluíam o torreão lateral que subia acima do nível do telhado principal, com os quartos de crianças de várias gerações.
No rés do chão, virado ao rio, havia uma sala de jantar com uma mesa enorme rodeada de cadeiras, e outra sala, de estar, com cortinas grossas floridas de azul e amarelo, sofás com almofadas de várias cores separados por mesas baixas e abat-jours, paredes forradas a papel também florido, cobertas de quadros de paisagens românticas, águas paradas e fins de tarde mediterrânicos, espelhos, pratas e vasos, livros, muitos livros, candeeiros de cristais suspensos ao centro, e lareiras nos topos, uma em cada sala, decoradas com o negrume de fogos de invernos frios. Nas traseiras ficava a cozinha, a copa, sanitários e entradas de serviço.
No primeiro andar, além dos aposentos privados, havia um comprido corredor central, que terminava numa janela, com portas para os quartos virados ao rio, de um lado, e para os quartos virados aos socalcos, do outro. Seis de cada lado. Os quartos serviram hóspedes nas recepções que a família deu durante décadas, noutros tempos. Agora era para clientes, em ações comerciais,e alguns eventos.
D. Maria vivia numa das casas da quinta, a cerca de cem metros da principal, a caminho da adega. Era viúva de um antigo feitor que morreu novo. Por lá ficou. Cuidava, guardava e orientava a limpeza e manutenção. Além disso, e mais importante, era uma excelente cozinheira. Conhecia Sebastian desde criança, mas já vos conto essa história.