Josefina Madeira . 6

Sebastian chegou ao pátio a sorrir para a casa e para a paisagem. Deu a volta ao lago, passando com mão como se alisasse a borda de pedra, chapinhou água para o Tritão, ao passar-lhe pela frente.
“- Vês como não tenho medo de ti?”
“- Que disse?”, perguntou Josefina.
“-Nada, nada… Estava a falar para mim.
Espera aqui que eu já venho.”

Encostou a sua bagagem, um saco grande, cilíndrico de lona verde, à parede húmida do lago, e desapareceu pelo lado esquerdo, para trás da casa.
Josefina ficou, a olhar em volta. O lago ficava em frente a uma porta de madeira azul escura, com um batente de garra de leão amarelo reluzente. Um pequeno telhado envolvido em heras, abrigava a entrada das intempéries. O terraço abria-se para frente da casa e das vidraças das salas de jantar e de estar, viradas ao rio. Josefina imaginava senhoras de vestido comprido, agitando leques, e senhores de casaca, a conversar entre bufaradas de charuto, refrescando-se após o jantar, no ar fresco do rio, como vira nas gravuras de um livro de princesas da professora Amélia. O rio fazia barulhos nos degraus e no cais. Os homens tinham amarrado o barco, mais à frente, e já haviam desaparecido. Um pássaro preto, grande, passou rápido sobre as águas, enquanto o sol desaparecia por trás dos montes altos. Os socalcos lá de cima, na outra margem, ainda estavam iluminados.
Sebastian não aparecia. Não queria ir atrás dele. Ele disse-lhe para esperar.

Estava quase para se sentar na pedra, quando a porta grande se abriu. Sairam Sebastian e D.Maria. Ela era muito mais pequena do que ele. Não que fosse muito baixa, ele é que era grande, mas o contraste aumentava porque vinham abraçados, ou melhor, ela vinha abraçada quase à cintura dele, com a cabeça encostada ao peito.
“-O meu menino, o meu querido menino que eu não via há tantos anos”, dizia D.Maria enquanto erguia os braços para lhe puxar a cara e pespegar mais uma sonora beijoca. Ela estava genuinamente emocionada, enquanto enxugava as lágrimas com um lenço que tirara do bolso do avental. “-Meu querido menino”. Sebastian olhava Josefina como um misto de embaraço e diversão, mas também se notava os olhos marejados, por mais que ele se contivesse.
“-Maria! Esta é Josefina. Ela veio comigo para aprender aqui umas coisas da vinha.”
“-Que alta e bonita”, disse Maria enquanto lhe dava dois beijos repenicados.
“-A D. Maria tem o nome da minha mãe”, ajeitou Josefina para tornear o embaraço do elogio.
“-Ó filha, Marias somos todas”, disse com um sorriso largo. “Vamos para dentro. Está a ficar fresco. Peguem nas vossas coisas!”

O hall abria-se, à direita, por dois degraus, para o salão de estar, Em frente, as escadas de mármore branco subiam até ao piso superior.
“-Vamos lá cima, para vocês se refrescarem da viagem. O jantar está quase pronto.”
As escadas terminavam na frente de um longo corredor de soalho de madeira escura, com uma tapeçaria vermelha, fofa e espessa, presa com ganchos de latão amarelo polido espaçados a cada três metros. As paredes eram revestidas a papel de parede, com flores azuis, em tom pastel, seis portas de cada lado, de madeira da cor do soalho. Entre as portas, pequenos candeeiros de parede imitavam velas em jarros de vidro fosco. A parede, ao fundo do corredor, era uma grande janela de vidro aberta para a encosta de vinha, que ainda deixava entrar a luz de fim de tarde.
Maria seguiu à frente e abriu a última porta do lado direito.
“-A menina Josefina fica aqui. É o meu quarto preferido.”
Josefina virou-se para Sebastian, que sorriu. “-Mas eu pensei que…”
“-Deixa-te estar! Depois conversamos com calma. Agora instalas-te e descansa. Daqui a uma hora temos uma sopa quente para comer. E mais qualquer coisa, se calhar.”
“-Não tenho relógio…”
“-Eu venho chamar-te”.
Deixaram Josefina no meio do quarto, saíram e fecharam a porta. Ela não percebia. Era uma empregada de armazém, que viera uns dias de trabalho, até à quinta, e instalavam-na num quarto de hóspedes, numa casa que lhe parecia um palácio.
O quarto tinha uma enorme cama de casal com uma cabeceira almofadada. Entre os pés da cama e o aparador acedia-se à janela de guilhotina, emoldurada por uma cortina pesada, que dava para o rio, sobranceira ao terraço do rés do chão. Ao lado, um criado mudo, um pequeno armário guarda vestidos e um sofá. Do lado oposto da cama, junto à porta do quarto, outra porta dava para casa de banho. Azulejos brancos de flores azuis, um lavatório de pé, sanita e bidé, e uma enorme banheira de ferro lacado a branco, apoiada em quatro patas de leão de latão amarelo.
Josefima estava incomodada. Pensava que ia dormir num dormitório ou camarata. Nem tinha roupas para aquele ambiente, fosse qual fosse o ambiente. Só trouxera duas mudas de roupa na sua pequena mochila. As da roupa de trabalho, as suas jardineiras.

Passado uma hora, bateram à porta. Era Sebastian.
“-Pronta? Vamos jantar?”
“-Estou, mas queria saber…”
“-Não te incomodes com nada. Vamos jantar e deitar cedo. Amanhã temos muitos quilómetros para fazer. E depois vemos tudo.”
Josefina percebeu que Sebastian estava deliberadamente a não querer ouvi-la. Depois falariam sobre isso.
“-Ali são os reservados da família e o acesso à torre das crianças.”, disse, a sorrir, apontando para um pequeno alpendre que dava para duas portas e uma escada de caracol, estreita, por cima da escadaria. Eram os quartos por cima do hall e o torreão.
“-Anda! Vamos à sopa.”

Nos rés do chão, junto à entrada, do lado oposto ao salão, um corredor de serviço passava pela casa de banho e dava, diretamente para copa e cozinha.
Na copa estava uma mesa posta para dois. A porta para a sala de jantar estava fechada.
“-Comemos aqui, junto à Maria. Está bem para ti?”
Ele parecia justificar-se. Ela já só encolhia os ombros e olhava para baixo, envergonhada.

Jantaram frango assado no fogão a lenha, com batatas assadas e arroz de forno. Estava delicioso.
“-Era um dos meus pitos”, dizia Maria a sorrir. “-Se sobrar, vou desossar e fazer um bom farnel para vocês, para amanhã.”
Sebastian e Maria passaram o jantar a falar de nomes e de gente que conheciam doutros tempos. Até do padre.
No fim, Josefina preparava-se para levantar e arrumar, mas Maria não deixou.
“-Está aí a chegar a Alzira e arruma e limpa tudo num instante.”
Pouco tempo depois, entrou uma miúda pouca mais velha do que Josefina, que olhou para ela com cara séria. Era uma das ajudantes de Maria, para os trabalhos pesados. Maria tinha um estatuto de cuidar, orientar e cozinhar. Comportava-se como a dona da casa.
“-Agora, dormir! Amanhã, despertar às seis. Eu bato na porta do teu quarto.”

Josefina deitou-se no melhor quarto em que já estivera. Só conhecia o seu de casa, é certo, mas este era o melhor que já imaginara. Não fechou as cortinas. A noite estava escura, sem lua. Queria adormecer a ver o contraste dos montes no céu estrelado.

No dia seguinte, desceu o dia ainda mal despontava. Sebastian tinha-a acordado há pouco mais de meia hora, e já estava sentado à mesa, na copa, com mapas, maços de folhas soltas impressas e um dos seus blocos de apontamentos, com uma caneca de café.
“-Vamos dar a volta à quinta. Vou-te mostrar tudo o que temos e como fazemos. Estás preparada para andar? São sete horas de caminho. Só paramos para beber água e comer.”
Josefina preparava-se para responder e já aparecia D.Maria com um cesto de pão, ovos cozidos, manteiga, queijo, compotas, um jarro de leite e mais café.
“-Bom dia, menina. Não quero que vá para sua casa dizer que a tratamos mal.
Podem comer à vontade. Já tenho ali separado o vosso farnel, com o frango que sobrou do jantar.”
Josefina já só agradecia. Sentou-se a comer.

Às sete em ponto, saíam pela porta da cozinha, para as traseiras da casa que dava diretamente para a vinha. Um longo caminho íngreme subia quase na vertical, entre socalcos.
Sebastian, com as suas calças curtas, meias de cano alto, botas de montanha, camisa branca, chapéu de abas largas e lenço ao pescoço, levava uma mochila com os seus papéis e instrumentos, garrafa de água, e o farnel de D. Maria.
Josefina ia com a sua roupa de trabalho, jardineira, botas, camisa branca, agora percebia a utilidade do chapéu de abas, e um grande lenço branco, emprestado por Sebastian, atado ao pescoço, “-Para o suor, para afastar as moscas e para proteger do sol do meio dia”, dizia ele, e uma sacola a tiracolo, com uma garrafa de água, um bloco de notas e lápis.

A primeira subida, no fresco da manhã, quase derrotava Josefina. A inclinação era bastante acentuada, parecia interminável, mas o pior é que Sebastian parou três vezes. Em cada uma delas olhou as folhas das videiras, observou os pequenos cachos e tomou apontamentos. Quando chegaram ao cimo, a vista era deslumbrante. Banhados pelo sol nascente, estavam num dos pontos mais altos em vários quilómetros. Era um cume careca de onde se via a casa, a adega e os anexos, ao fundo, junto à água, a curva do rio, o cume na outra margem, quase tão alto como este. O monte era quase cónico, com um vale profundo onde corria um riacho, do lado sul para poente, até ao rio, e um estradão de terra, do lado nascente, a serpentear na descida até à adega, a confinar com novas elevações também com vinhedos em socalco.
“-Cada monte, cada encosta, cada socalco, tem uma casta, a sua idade e uma história. Os ventos, as humidades, os orvalhos, tocam cada planta de maneira diferente, consoante a sua disposição em relação ao sol e ao rio. Os nevoeiros matinais e a duração e orientação solar, são fundamentais, a par da qualidade, da química e da irrigação do solo, para a força e fecundidade da planta. Também temos de escolher a casta mais apropriada a cada uma destas condições. Depois é preciso cuidar de cada pé, como o ser vivo independente que é. Podá-lo, penteá-lo, vacinar como uma criança, medicá-lo se necessário. Um bom viticultor conhece cada um dos seus milhares de pés.”
“-Tu conheces cada um deles?”
“-Eu, não. Mas há cá gente que os descreve a quase todos de cor.
Hoje estou a fazer uma vistoria de rotina. Venho confirmar a saúde e a produção do ano”, disse enquanto abria o mapa que tirou da mochila.
“Nós estamos aqui”. Apontou para o centro de um conjunto de linhas de nível quase circulares. “Vamos descer por aqui, atravessar esta pequena ponte, subir lá cima”, e estendeu o braço para o riacho a sul e para o monte a seguir. “Depois vamos descer outra vez, almoçar aqui, numa sombra com água”, seguia com o dedo no mapa e apontava com o braço, como se fosse lá para longe, para trás dos montes. “Cada vinha, cada encosta, tem um nome. Vamos passar por todas. Anda!”

Desceram a encosta. Sebastian parava, tomava notas, fotografava, observava as folhas, media os cachos, alguns chegou a pesá-los, com um pequeno dinamómetro. Atravessaram no riacho, subiram a outra encosta. Sempre com as mesmas rotinas, as mesmas análises e registos.
Quando chegaram ao segundo cume, não tão alto como o primeiro, já apertava o sol do meio da manhã.
“-Paragem técnica”. Sebastian tirou do saco uma bisnaga amarela. “-Australian sunscreen”, e começou a espalhar um óleo castanho nos braços, pescoço e na cara. “Peles claras como as nossas não suportam estes raios solares”.
Josefina não sabia o que era. Nunca tinha visto tal coisa, mas fez o mesmo, quando ele lhe passou a bisnaga. O cheiro era agradável.
Depois tirou o lenço do pescoço e atou-à volta da cabeça, de maneira que lhe caía sobre os ombros. Pôs o chapéu na cabeça e era como se tivesse uma cortina a toda a volta, por debaixo do chapéu. Ficava cómico mas parecia eficaz.
Pegou no dela e fez-lhe o mesmo. Era agradável. Fazia sombra no pescoço e nos ombros, e o ar circulava à volta da cabeça. Só a cara ficava destapada, mas protegida com o perfumado creme australiano.
“-Já foste à Austrália?”
“-Não. Mas gostava de ir para lá fazer vinho. As terras são boas para isso. Queres vir comigo?”
Josefina corou. “Claro que vou!”, respondeu sem mexer os lábios.

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