Josefina Madeira . 7

Pelo meio da tarde, já subiam o último cerro por onde passava o estradão que ligava à vila. As pernas de Josefina estavam naquele ponto em que pesam, mas mal se sentem.

“-Agora só falta descer até lá baixo pela estrada. Vai ser rápido. Depois, descansar até ao jantar”.

O rápido dele era muito relativo. Ainda pararam duas vezes para nova observação, medição, fotografias e longos apontamentos. Enchera quase dois blocos com textos, números, esquemas, mapas.
Fotografara cachos, folhas, socalcos, montes, paisagem. Mudou de rolo três vezes.

Passaram pelas portas da adega e do armazém. Bateu, mas já não estava ninguém por lá.
“-Amanhã vimos para aqui.”

Sebastian foi direto ao terraço virado ao rio. Maria colocara lá dois cadeirões e uma mesa de apoio, de verga, com almofadas, que, àquela hora do dia, já estavam na sombra da casa. A porta de correr para o salão estava meio aberta.
“-Vou só lá cima pousar o saco e venho já para baixo.”
“-Sim. Também vou”
Quando Josefina desceu, Sebastian estava sentado na cadeira, com Maria de pé, a pousar um tabuleiro com uma caneca e dois copos.
“-Menina Josefina! Tem aqui uma limonada acabadinha de fazer.”
Josefina hesitou, embaraçada com o tratamento a que não estava habituada, mas sentou-se e serviu-se, depois dele. Estava cansada e água com limão iria saber mesmo bem.
D.Maria retirou-se e Sebastian ficou a olhar o rio, com o copo na mão, sem dizer palavra.
Durante longos minutos só ouviam a água no rio e alguns pássaros. Josefina estranhava. Sebastian era falador, contava histórias, ensinava muito, e agora estava ali, como se a ignorasse. Ela não se atrevia a interromper o silêncio.

“-Vivi nesta casa. Já cá não vinha há treze anos. Tudo mudou para mim, na minha vida, mas isto está na mesma. Até Maria.”

Josefina queria saber mais coisas, mas ele falava sem tirar os olhos da paisagem. Tentava não mostrar, mas estava comovido. Não olhava para ela. Serviu-se da limonada sem desviar o olhar. Ela já lhe conhecia estes momentos de isolamento.

“-Meninos! Vou servir o jantar às sete e meia.”
D.Maria interrompeu o silêncio quando Josefina já sentia o desconforto da brisa do rio. Os dias eram quentes, mas os montes e o rio arrefeciam o ar rapidamente, depois do pôr do sol.
Já eram quase sete horas, Josefina levantou-se. Precisava de tratar das suas roupas, queria saber com D. Maria onde lavar, como fazer.
Veio com ela para dentro.
O jantar já cheirava deliciosamente na cozinha.
“-A menina é minha convidada. Não faz nada. Faça o favor de me dar o que precisa que nós, amanhã, tratamos de tudo, e fica pronto ao final do dia.
A Josefina é convidada do menino Sebastian”, disse com um genuíno e rasgado sorriso.
Josefina insistiu, mas foi em vão. Foi ao quarto buscar as roupas que necessitava lavar e entregou a Maria.

Carne de vaca estufada com cenouras, ervilhas, e arroz branco. Pelos vistos era o prato preferido de Sebastian. Ele não o escondia. Serviu-se três vezes. Tanto que, no fim, foi ao salão buscar vinho generoso, para ajudar à digestão, num copo de pé alto. Ofereceu-lhe mas ela não quis. Nunca tinha provado mas sabia bem os efeitos nos imprevidentes.
Elogiaram o jantar e agradeceram, despediram-se de Maria e Alzira, que ficaram na cozinha, e foram para o terraço, com o compromisso de deixar tudo bem fechado, quando fossem dormir. Elas, quando saíssem, iriam pela porta da cozinha, nas traseiras.
Levaram as camisolas pelas costas, para prevenir os frescos do rio.

“-Vim para cá no outono de mil novecentos e quarenta e dois, pouco depois de fazer sete anos.”

Sebastian começou a falar, com o pequeno copo de vinho na mão, sentado na mesma cadeira do fim de tarde, a olhar para o rio, sob o céu estrelado, sem que Josefina lhe tenha perguntado nada. Como se se justificasse de tudo o que não dissera. Como se percebesse todas as dúvidas dela. Como se compreendesse que o estatuto dela não permitia fazer perguntas. E não permitia mesmo, pelas regras do trabalho, de género, de classe social e até de diferença de idades.

“-Vivia com a minha mãe em Grosmont, North Yorkshire.
O meu pai morreu em Al Alamein, em outubro desse ano. A minha mãe decidiu trabalhar na fundição do meu avô e dos meus tios. Era preciso ajudar no esforço de guerra.
Fundiam peças pesadas para máquinas, barcos e construção, componentes para locomotivas, carruagens e caminhos de ferro. Metalurgia pesada. Durante a guerra, começaram a produzir o que o governo pedia, de dia e de noite. Com os homens mobilizados, precisavam todo o tipo de mão de obra. A minha mãe, como sabia conduzir, foi guiar camiões.”

Aconchegou a camisola nos ombros.

“Eu não tinha com quem ficar. Durante semanas fiquei só, em casa, dias seguidos, com a minha bicicleta. Percorri milhas e milhas naquele tapete de flores rosa-púrpura. E o mar, aquele mar. Os penhascos sobre o mar. Passava dias inteiros sem ver ninguém. A brisa, o cheiro, os pássaros, o sol do fim de tarde a espreitar entre nuvens, o mar, eu e a minha bicicleta. A minha mãe não sabia que eu passava os dias fora de casa, naquele outono de quarenta e dois.
Um dia levo-te aos moors, North Yorkshire Moors.”

Fez uma pausa.
Estavam no escuro da noite, iluminados pelas estrelas.

“-Onde é Al Alamein?”, perguntou Josefina.

Levou o copo à boca mais tempo do que o necessário para beber.

“-É no Egito, perto de Alexandria.
Meu pai chamava-se Gerald Coleman. Era capitão do 1st Battalion, The Rifle Brigade.
Estavam cercados pelos alemães da Afrika Korps, mas avançaram, sob fogo pesado, e conseguiram romper o cerco. Foi o início da recuperação. Deixaram de recuar e só pararam em Berlim, três anos depois.
O meu pai morreu em combate, na primeira noite da batalha, quando romperam o cerco. Dizem que ia à frente dos homens, a apontar o caminho.
Madrugada do dia vinte e quatro de outubro de mil novecentos e quarenta e dois.”

Outra longa pausa

“Recebemos uma carta de condolências assinada pelo rei, meses depois. E uma condecoração póstuma, no fim da guerra.”

Olhou as estrelas.

“-A minha mãe foi muito abaixo. Quis ir trabalhar imediatamente, para se ocupar. Também tinha medo de uma invasão ou outra loucura de Hitler. Queria proteger o filho. Portugal era neutral.”

Sebastian pausava as palavras. Como se falasse só para si. Parecia que estava falar pela primeira vez.

“Os Richardson são nossos primos. Estão em Portugal há muitos anos. Durante a guerra, os meus primos John e George, foram mobilizados para Inglaterra, para serviços de apoio à tropa. O pai deles, que era viúvo, ficou só, a tomar conta do negócio.
John vinha visitar o pai, no Natal de 1942. A minha mãe, sabendo disso, pediu que me trouxesse com ele. Ela tinha medo e pouco tempo para mim, com o trabalho
Arranjou autorizações e documentos, e vim cá passar o Natal.”

Josefina queria saber mais, fazer perguntas, mas continha-se

“-Quando cheguei, não me dei bem em casa do primo Wiliam, na cidade.
Era tudo muito austero. Casa grande, escura, vazia, fria, pessoal sisudo. Não gostei nada.
Em janeiro, depois de John voltar a Inglaterra, ele pegou no carro e viemos passar uma semana aqui.
Ia ser uma semana. Foram quase três anos.”

Saboreou o vinho outra vez e vestiu a camisola. Josefina imitou-o.

“-Eu não sabia uma palavra de português. Era uma quinta portuguesa mas não muito diferente da nossa cottage em Grosmont. Campo, animais, estrume, humidade.
Fui recebido por Maria. Praticamente adoptou-me como o filho que ela nunca teve. Era viúva. O marido dela tinha morrido novo, mais ou menos quando eu nasci.
Quando cheguei, Wiliam quis que eu ficasse no quarto ao lado do dele, naqueles por cima das escadas, os deles. Um quarto enorme, decoração pesada, cheio de retratos. Tive medo. A primeira noite foi um terror. Não dormi, chorei, mas não pedi ajuda. A casa faz barulhos. Parece assombrada. Eu era muito pequeno, tinha saudades da minha mãe.
No dia seguinte, Wiliam perguntou-me se tinha dormido bem e não consegui esconder. Confessei que tive medo, não conseguia dormir sozinho. Ele não me disse nada, era de poucas palavras, mas nesse dia perguntou a Maria se podia fazer companhia à criança.
Assim na segunda noite, Maria ficou comigo até adormecer. Foi assim, todos os dias, até eu voltar para casa, no fim da guerra.”

Apontou para o caminho para a adega.

“-Maria morava na casa do caseiro. Onde vive agora, embora já não haja caseiro. Nesses três anos, viveu comigo aqui. Dormia no quarto onde estás agora. É o quarto dela. É o especial, para pessoas especiais.
Ela é que diz. Não sei.”

Se não estivesse escuro, Josefina teria-o visto sorrir, depois de lhe terem escorrido lágrimas com as recordações.

“-Mas só dormi naquele quarto, dos primos, mais uma noite
O William confiava muito na Maria. Ela percebeu que eu precisava de um quarto de criança e, então, pediu-lhe para arranjar o quartinho da torre.
Os meus primos, os tios antes deles, e outros, talvez, usavam a torre, em miúdos, como quarto de brincadeira. O quarto dos brinquedos era a torre do castelo, na imaginação das crianças.
Sobe-se pela escada de caracol. Depois mostro-te.
Maria pôs lá uma cama, arranjou a seu gosto, e fez o meu quarto, o meu castelo. Das janelas mais altas, vigiava tudo e Maria vigiava-me as escadas. Sentia-me seguro.”

As recordações andavam mais depressa do que as palavras.

“-Cheguei lá, ontem à noite, e ainda é o meu quarto. Está igualzinho a quando eu fui embora. Não houve mais crianças. Os meus primos, John e George, que são mais velhos, nunca casaram nem tiveram filhos. Ficou o meu quarto.”

Estava a ficar tarde. Já eram quase onze horas, pelo relógio dele. Na manhã seguinte tinham de se levantar cedo. Sebastian queria chegar à adega antes de todos, como sempre. Gostava de ver as pessoas a entrar. Dizia que ganhava mais de meio dia de trabalho, com isso.
Recolheram as almofadas dos cadeirões e fecharam bem a porta, como recomendara Maria. Subiram ao primeiro andar, Josefina seguiu para o último quarto do corredor, à direita, e ouviu os passos de Sebastian nos degraus de madeira da escada de caracol, que ainda subia mais um ou dois andares. Ficou curiosa. Ele disse que mostrava.

Josefina deitou-se a pensar na história fantástica que Sebastian contara. Guerra no Egito, orfão de pai, carta do rei, longe da mãe. Estava no quarto de Maria, a guardiã do menino.
Sentia uma convulsão de sentimentos, confusos para os seus verdes treze anos.
Sebastian era um líder, sabia tudo. Duro, autoritário, exigente, mas justo e sempre doce e atento com ela, quase paternal. Mas ela também sabia que não o desiludia. Aprendia rápido. Era fina, como dizia a sua mãe. Não tinha medo ao trabalho e, com ele, aprendia coisas novas, todos os dias. Ele mostrava-lhe um mundo que ela nem sonhava. E contava e explicava-lhe tudo.
Era um irmão mais velho. Ou um tio mais novo, talvez. Faziam dez anos de diferença.

Ele hoje parecera-lhe um menino, como ela nunca tinha visto. Ficou com inveja de Maria, que o deve ter abraçado e consolado tantas vezes.
Também queria abraça-lo.

Adormeceu a sonhar com príncipes e castelos.

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