Pouco deveria passar das seis horas da manhã, quando Sebastian bateu à porta de Josefina. Ela dormia profundamente. Tinham-se deitado tarde e custara-lhe a adormecer. O cansaço do dia anterior prejudicara-lhe o sono, mas, mais do que isso, tinha sido pela excitação do serão.
Sebastian parecia-lhe agora uma pessoa diferente.
Não estava surpreendida. Ela já não se surpreendia com ele.
Ele parecia que sabia sempre mais, ou que tinha vivido sempre mais alguma coisa. Lidava com isso com a naturalidade que só os experientes, curiosos e serenos têm. Não se enervava, encarava um desafio como uma lição. Queria saber. Raramente respondia “não sei”. O que não sabia ia aprender e estudar. O que não se pudesse saber, teorizava e procurava uma explicação possível, para testar e comprovar mais tarde. Um racional, prático e metódico, com uma imaginação prodigiosa.
Mas aquele serão marcou-a também de outra maneira. Percebera uma tristeza, um vazio, uma mágoa, que ele não dissera mas agora ela sabia que tinha sentido. Ele era mais complexo do que parecia. Tinha medos e hesitações que não demonstrava. Não tinha medo de pessoas, do trabalho ou das dificuldades. Vivia bem com o desconforto ou privações, não era preguiçoso. Era afetuoso, amigo, simpático, parecia bem com todos e com a sua vida, mas tinha momentos de isolamento e silêncio. Naquele serão, ela presenciara a verbalização do seu pensamento. Mais do que as palavras ditas foi a forma como falou, o sentimento que pôs nas palavras. Uma história simples, mas que não é assim tão simples, contada por quem não está bem com o mundo, nem com ninguém.
A experiência de vida de Josefina não lhe permitia fazer juízos sobre a vida de um homem mais velho e experiente, embora ainda jovem. A sensibilidade dela, que lhe permitiu perceber a densidade da personalidade de Sebastian, poderia tomá-la de vaidade ou excesso de confiança, na maturidade que não tinha, até iludi-la no convencimento de uma igualdade, proximidade e intimidade que ela, no fundo, sabia não existir.
Ele estava tão longe dela como na véspera, ou na semana anterior, mas o saber cada vez mais dele, o conhecer, o aprofundar, aumentava-lhe a curiosidade e o fascínio.
Quando desceu à cozinha, Sebastian estava de volta dos papéis, como sempre, e com a caneca de café fumegante na mão.
Maria mandou-a sentar, enquanto preparava o pequeno almoço. Mais uma vez, Josefina embaraçou-se. Era uma miúda, empregada de armazém, filha da lavadeira e do sapateiro, sem pretender ser mais do que é, aqui tratada como uma senhora importante, da cidade. A modéstia fazia-a saber que não era por ela, mas sim por Sebastian, mas, mesmo assim, o transbordar da consideração por ele até ela, desta maneira, só era possível pela importância que ele tinha para Maria, para os primos e para a William Richardson & Co. E ele impunha esse transbordo, de alguma forma.
O menino era mesmo especial.
Sebastian mal olhou para ela. Estava envolto nas plantas da adega e do armazém que trouxera com ele. Ele estudara todo o processo de produção e armazenagem, com plantas, esquemas, tabelas e quadros.
Quando entrasse na adega, saberia mover-se de olhos fechados entre lagares, cubas, prensas e bombas, saberia a disposição dos equipamentos e dos fluxos de material. No armazém, saberia a disposição dos lotes e as quantidades declaradas no inventário. Também saberia quantas pessoas trabalhavam em cada local e os nomes próprios de cada um.
Exactamente o mesmo método que lhe permitiu circular pelas vinhas, sem se perder, para confirmar as qualidades e disposições dos socalcos.
Se tudo não se encontrasse como levava na memória ou nos seus apontamentos, alguém se daria muito mal. Não admitia falhas de informação e era implacável com os erros por desleixo ou omissão. Ele não se intrometia na gestão da produção mas a informação tinha de ser fidedigna. Dela dependia a gestão e eficiência de todo o negócio.
Dizia que todos os erros têm de ser justificados. A incompetência serve de justificação, porque pode ser aferida e julgada, mas a ignorância é imperdoável. “Se não sabe, invente!”, era o seu grito de guerra.
Sairam de casa às sete horas em ponto. Ainda estava escuro, não estava ninguém na adega, nem sequer tinham a chave da porta.
Sebastian dizia que queria ver o nascer do sol, mas na realidade queria ver as pessoas a chegar, quem era o primeiro, de onde vinham, como se deslocavam, a rotina da abertura, a disposição. Pequenos pormenores de organização, informações que podiam fazer a diferença para tomar decisões dramáticas, se necessário.
“-A quinta tem dois responsáveis técnicos, o Francisco e o José.
O Francisco trata de tudo o que tem a ver com a adega e o armazém daqui. Recolhe as uvas, rala para o lagar, pisa, prensa, cuida da fermentação, dos tempos, das agitações. Trata das correções química, segundo o estipulado pelo laboratório. Bombeia para as cubas, armazena em pipas e reserva-as no armazém. É o vinificador, é o homem da adega.
O José é o homem das vinhas. Prepara os terrenos, planta, poda, aduba, trata e colhe nas vindimas.
Eles reportam aos meus primos, que, agora, decidiram mandar-me fazer o levantamento e controlo da situação.
Não gosto nada disto mas tenho de fazer o que mandam os chefes.
Não percebo nada de vinhas nem de vinificação. Pareço um fiscal.
Mas não interessa se é vinho, algodão ou carvão. Os procedimentos estão padronizados e têm de ser seguidos
A minha função é verificar se estão a fazer segundo as regras estipuladas, se registam os atos e os movimentos, se o que relatam é exatamente o que aconteceu aqui, se está tudo o que dizem, no sítio certo.”
Josefina mal conseguia acompanhar o raciocínio. Estavam de pé, à porta da adega, enquanto raiava a madrugada. Eram quase sete e meia e ainda não tinha aparecido ninguém. Sebastian parecia tenso. A juventude e responsabilidade pesavam.
Os patrões tomavam conta da promoção e vendas, viajavam e recebiam clientes, usavam a quinta para lazer e receção de convidados, mas receavam estar a desleixar a produção.
A competência e empenho de Sebastian, demonstradas no armazém, levara-os a confiar-lhe uma auditoria à quinta.
“-Onde é que aprendeu tanta coisa?”, perguntou Josefina, num elogio simpático para tentar desanuviar.
Sebastian não sorriu. Olhou em frente durante longos segundos.
“-É uma história, para contar mais logo ou amanhã. Não tem segredos mas é longa. Ou talvez não. Para mim é longa e inacabada.”
Josefina não compreendeu a resposta, mas não teve coragem de se esclarecer. Nem tempo. Já tinha surgido uma carrinha de caixa aberta, no topo do estradão de terra, a levantar pó nas curvas iluminadas pela primeira luz da manhã.
“-Bom dia!”
“-Bom dia!”
Um homem com pouco mais de trinta anos, moreno, cabelo e olhos pretos, monocelha, cara larga, a esforçar um sorriso de dentes grandes, que lhe ficava mal, dirigiu-se a Sebastian, de mão esticada.
“-Sr. Sebastian, sou Francisco Simões, o encarregado da adega.”
“-Muito gosto.”
“-Seja bem vindo e espero que esteja tudo de…”. Francisco ia continuar a falar, de olhos postos em Sebastian, quando este o interrompeu.
“-Apresento-lhe Josefina Madeira, minha assistente e futura responsável pelas auditorias à adega e vinhas.”
A Josefina, gelaram-lhe as entranhas, à inesperada apresentação, quando já se sentia transparente, como era habitual no trabalho entre homens. Mas não se descompôs, saudando com uma pequena vénia com a cabeça, sem esticar a mão.
Francisco ficou indeciso, tão surpreendido como ela. Manteve o mesmo sorriso aparvalhado. Se já tinha de lidar com o catraio inglês, magro, trinta centímetros mais alto do que ele, tinha agora de responder a uma miúda com metade da sua idade, ou menos, quase tão alta como o inglês. Bem, não era tão alta mas tinha de olhar bem para cima, para ela também.
“-Quem abre a porta? Tem chave?
“-Sim, sim. Sou que quem abre a porta todos os dias.”
“-Vamos lá! Faça de conta que eu não estou aqui. Tudo normal, dê início ao trabalho, eu vou observando e depois falamos. Temos tempo. Se eu tiver dúvidas pergunto. Depois vou precisar de muita informação sua, mas só mais logo.”
Francisco abriu o portão grande, para o logradouro, onde tinha parado a sua carrinha, acendeu luzes e dirigiu-se para um pequeno gabinete envidraçado.
Entretanto chegaram dois indivíduos, a pé, a entrar receosos e curiosos.
“-Bom dia Natércio, bom dia Cândido. Não me conhecem. Sou Sebastian Coleman. Esta senhora é Miss Josefina Madeira, minha assistente. Estamos cá para saber das vossas dificuldades e anseios, para, se for o caso, informar a gerência e aconselhar melhores práticas de trabalho.”
Josefina divertir-se-ia com a situação se não fosse a tensão que se sentia no ar. A atitude de Sebastian era desconcertante. A colocação de voz, o sotaque carregado e o surpreendente vocabulário. Natércio e Cândido não terão percebido tudo, mas não tiveram dúvidas sobre quem mandava e o que pretendia.
Josefina adorou o título de Miss. Sempre quis ser Miss.