“Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado governador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa….. Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.
– Hein?…
– Hum!…
Rosna e não diz palavra que se entenda.
– Olá!
Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:
– Que beleza, han?!…
Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pano fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:
– Que beleza o quê? Que beleza?… Isto?! – E ri-se. O vento e o mar! sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar à porta, e o mar todo o dia, toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado… Eu não sou um faroleiro – sou um náufrago. Que beleza, hein?… Nem posso dormir! nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!…
Julguei-me autorizado a interrompê-lo:
– Mas no Verão é esplêndido…
– Nem olho. Só me resta uma esperança – fugir. Se não me mudam, endoideço. O amigo sabe quantos endoideceram já? Três!…
E atirando os braços para o ar:
– Uma calamidade! Aqui não se sabe nada, aqui não chega nada. Nunca! nunca! Nem a pneumónica aqui chegou. E não posso ter uma couve, não posso ter uma abóbora… Os coelhos devoram tudo. É uma praga!
– Dê-lhes tiros.
– Tiros?! – E ri-se com dois dentes e desprezo. – Quando quero um coelho, ato um anzol a um pau, meto o pau na lura e tiro o coelho para fora; quando quero um peixe, ato um anzol a uma linha e deito a linha à água… Mas o que eu quero é fugir! fugir! fugir para muito longe, para onde não ouça o mar, para onde não veja o mar!
Roncou… Percebi que repetia com escárnio: Que beleza, han!… – E voltando-se, outra vez com o pano na mão, continuou a esfregar e a polir com desespero os metais – de costas viradas para o mar…”
(in Os Pescadores, Raul Brandão)