“A mulher mal-educada aproximou-se a passos cautelosos de Hans Castorp e, sem dizer palavra, estendeu-lhe a mão para beijar — não as costas, mas sim a palma. E Hans Castorp beijou o interior daquela mão; beijou aquela mão pouco cuidada, um tanto larga, de dedos curtos, com a pele áspera nas bordas das unhas.Novamente oContinue reading “Ainda a Honra e a Vergonha”
Category Archives: Literatura
A honra e a vergonha, e o sentido da vida
“Ainda se lembrava muito bem daquela situação, decerto um pouco ignominiosa, mas também cómica e agradavelmente desembaraçada, que desfrutara durante o último trimestre, quando deixara de se esforçar e pudera “rir-se de tudo”. Não é fácil precisar os seus pensamentos, visto serem obscuros e confusos, mas parecia-lhe, em suma, que a honra oferecia vantagens consideráveis,Continue reading “A honra e a vergonha, e o sentido da vida”
Deixa lá!
12.“…Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância,Continue reading “Deixa lá!”
Famintos
Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos. “Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa voltaContinue reading “Famintos”
O mar
“O mar sempre o atraíra como um íman. Ver o oceano, apreciar sua cor e o seu cheiro, o seu mistério insondável, transmitiam-lhe enorme sensação de empatia e de descontração. De promessas de liberdade, mais do que de limite e de encerramento. Durante anos, há muito tempo, quando sonhava mais frequentemente com a possibilidade deContinue reading “O mar”
Um sábio muito entendido em tragédias e livros
“Havia na mesa um homem sábio e de bom gosto, que apoiou o que a marquesa dizia. Falou-se em seguida de tragédias. A dama perguntou por que razão havia tragédias que eram representadas algumas vezes, mas que ninguém conseguia ler. O homem de bom gosto explicou muito bem como é que uma peça podia terContinue reading “Um sábio muito entendido em tragédias e livros”
Romancista como vocação
“Na vida, todos tivemos uma fase em que queríamos ser cool. Pouco antes de acabar o secundário, tomei a decisão de expressar apenas metade do que sentia. Já não me lembro do que me levou a isso, mas, nos anos que se seguiram, pus a minha teoria em prática. Um belo dia, descobri que meContinue reading “Romancista como vocação”
Algarve
“A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a soteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a soteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que éContinue reading “Algarve”
As Berlengas
“Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado governador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. SóContinue reading “As Berlengas”
Golfe
“O dia de descanso nacional era agora passado no country club, um Valhalla de silenciosos relvados de golfe, aspersores sibilantes e crianças aos gritos a brincar na piscina coberta, mas Ferguson raramente acompanhava os pais naquelas viagens de quarenta minutos até Blue Valley, dado que domingo era o dia em que treinava com as suasContinue reading “Golfe”