Um sábio muito entendido em tragédias e livros

“Havia na mesa um homem sábio e de bom gosto, que apoiou o que a marquesa dizia. Falou-se em seguida de tragédias. A dama perguntou por que razão havia tragédias que eram representadas algumas vezes, mas que ninguém conseguia ler. O homem de bom gosto explicou muito bem como é que uma peça podia ter algum interesse e não possuir quase nenhum mérito. Provou em poucas palavras que não bastava apresentar uma ou duas dessas situações que se encontram em todos os romances e que sempre seduzem os espectadores, mas que o autor deve ser inovador sem ser ridículo, muitas vezes sublime e sempre natural; deve conhecer o coração humano e pô-lo a falar, ser um grande poeta sem que nenhuma das personagens pareça poeta, conhecer muito bem a língua, falá-la com pureza, com uma harmonia constante, sem que a rima seja feita em detrimento do sentido.

Quem não observar todas essas regras acrescentou pode fazer uma ou duas tragédias aplaudidas no teatro, mas nunca fará parte da lista dos bons escritores; há muito poucas tragédias boas; umas são idílios em diálogos, bem escritos e bem rimados; outras são discursos políticos que fazem dormir ou são amplificações que entediam; outras são sonhos de energúmenos, em estilo bárbaro, frases interrompidas, com longas apóstrofes aos deuses, porque não sabem falar aos homens, máximas falsas e lugares-comuns cheios de retórica.

Cândido ouviu atentamente estes comentários e ficou com muita consideração pelo orador.”

(in Cândido ou O Otimista, cap. XXII, Voltaire)

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