O mar

“O mar sempre o atraíra como um íman. Ver o oceano, apreciar sua cor e o seu cheiro, o seu mistério insondável, transmitiam-lhe enorme sensação de empatia e de descontração. De promessas de liberdade, mais do que de limite e de encerramento. Durante anos, há muito tempo, quando sonhava mais frequentemente com a possibilidade de se dedicar à escrita de histórias despojadas e comoventes como as de Salinger, usando palavras afiadas como navalhas, ao estilo de Hemingway, o sonho de ter uma casa modesta e fresca frente ao mar fora um dos seus anseios mais recorrentes. Escrever pelas manhã, banhar-se na praia à tarde, pescar à noite, fazer amor com uma bela mulher de madrugada, respirando o aroma do salitre, embriagado pelos murmúrios do oceano. Um postal idílico e insuperável. Mas a sua vida pessoal e a vida do seu país, conduzidas, cada uma delas, à sua maneira e ritmo próprios, embora em dolorosa confluência, esfumaram aquela cálida aspiração, relegando-a para um canto da memória onde acumulava as quimeras não realizadas. E, algumas delas, já definitivamente irrealizáveis.”

(Leonardo Padura, “A Transparência do Tempo”)

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