Famintos

Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos.

“Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa volta um sopro frio de invencível estranhamento, mal deixamos ver, entre seres vivos, as nossas frontes marcadas com o signo da sabedoria e do desalento… nós, pobres fantasmas da existência, abordados com tímida consideração num encontro, e deixados novamente entregues a si próprios logo que possível, para que o nosso olhar oco e sapiente não estorve mais tempo a alegria… todos nós acalentamos uma furtiva, devoradora nostalgia do inocente, do simples e do vivo, de um pouco de amizade, abandono, confiança e felicidade humana. A «vida» da qual somos excluídos não se nos apresenta como visão de magnitude cruenta e beleza selvagem, não se nos apresenta a nós, extraordinários, como o extraordinário; pelo contrário, o normal, o amorável, o decoroso, esse é o reino da nossa nostalgia, é a vida na sua sedutora banalidade…!”

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