RJ, Centro

Num fim de tarde de emoções fortes, perdi-me sem desorientar no centro do Rio de Janeiro numa imersão no caos e opressão de história esquecida, do luxo e sofisticação incrustados na miséria desesperada dos sem abrigo, na herança imperial portuguesa e brasileira apagada na discutível modernidade de edifícios de vidro a sombrear palacetes e igrejas centenários sujos e gatafunhados, na tensão permanente dos olhares vazios e suplicantes de fome, de porcaria e alienação.
Nada aconteceu, nem perto esteve, talvez pela surpresa causada pelo improvável e descontraído gringo em plena Praça Tiradentes numa sexta feira chuvosa, 15 de agosto que não é feriado no Brasil.
A casa dos bisavós de uma memória contada com mais de cem anos, o paço imperial que acolheu a família real portuguesa, em fuga de Napoleão, desembarcada no cais do Carmo, hoje um monumento esquecido numas ruínas preservadas no meio da praça de terrenos conquistados ao mar, a sombra do arranha céus da sede provisória da Petrobras de má fama sobre tanta história de ruas tão bem descritas por Machado de Assis de comércios decadentes e camelôs de rua porta com porta com o melhor da Farm Rio, maltrapilhos de bicicleta enxotados pela sineta do metro de superfície na modernidade da Avenida Rio Branco, os melhores restaurantes de autor entre modestas vendas de oportunidade e sobrevivência, a roda de samba no Armazém do Senado, novo spot de encontro de turistas e campeões do samba, mantido por resistentes portugueses tropicalistas herdeiro de uma velha mercearia de bairro vende tudo que foi, com certeza, frequentada pela criança minha avó que morava uma centena de metros abaixo na mesma rua.

Eu também sou carioca. Sinto esta emoção, esta revolta por tanto potencial desperdiçado, este calor e humidade fértil de natureza e talento, estas cores impositivas, o barulho e movimento permanente. Sinto que também nasci nesta Rua do Senado, nesta cidade histórica imperial que tanto deu ao mundo, em samba, futebol, bossanova e talentos vários, que ainda tem tudo para dar.

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