A Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta, no século V a.C., foi a primeira guerra entre regimes políticos devidamente registada e documentada, confrontando a oligarquia espartana e a democracia ateniense. A guerra, violenta e atravessando toda a civilização grega, da Sicília à Ásia Menor, foi travada em nome da liberdade, reclamada igualmente por ambas as partes, mas entendida de forma profundamente diferente.
Em Atenas, as magistraturas e os cargos políticos eram escolhidos por sorteio, fazendo com que qualquer cidadão, rico ou pobre, fosse chamado a exercer o poder político directo durante o seu período de vida, permitindo-lhe governar e ser governado em superação da relação de mando e domínio que caracteriza a vida política tradicional. Qualquer um tinha, também, a oportunidade de se dirigir aos seus concidadãos na Assembleia onde todos os cidadãos assentavam, para expor as suas ideias e poder brilhar e ser admirado. Para evitar abusos, os mandatos eram limitados e promovia-se o escrutínio no fim da ação política.
Mas esta liberdade democrática não alcançava a esfera económica, mantendo-se profundas desigualdades e tensões sociais.
Por outro lado, Esparta era conservadora, austera e rigorosa, definindo liberdade como a oposição, no plano externo, às interferências impostas por estrangeiros que lhe negassem autonomia e capacidade para tratar dos seus próprios assuntos, e, no plano interno, como resistência às arbitrariedades permitidas pela espontaneidade, entretenimento, fausto e exposição pública da vida ateniense. A cultura do regime era a das chamadas boas leis, educação rigorosa, exigente e pública, contenção da individualidade, simplicidade, patriotismo, culto da pobreza e vida castrense.
Não existia o conceito de família. As crianças eram retiradas aos pais e treinadas para a guerra, praticava-se o infanticídio dos menos capazes, não havia o conceito de lar, marido e mulher. As refeições eram partilhadas num grande refeitório comunal.
Na economia, Esparta limitava rigidamente comerciantes e artesãos, condenava luxos e acumulação de riqueza, proibia deslocações ao exterior e entrada de estrangeiros. Cada cidadão recebia do colectivo da cidade um lote de terra pública, da mesma dimensão, para garantir sustento mais ou menos igual.
Os cargos públicos eram vitalícios, sem escrutínio, crítica ou desafio.
Enquanto a Atenas democrática era a turbulência ruidosa das suas assembleia, inconstância das decisões, lutas intestinas e movimento, Esparta era ordem, estabilidade e repouso.
Encontro similitudes à guerra do Peloponeso, nos dias de hoje, nos vários conflitos que grassam pelo mundo, da Coreia às Américas, passando pela Ucrânia e Gaza, e em posicionamentos político-sociais, na ascensão de novas – e ressurgimento de velhas – orientações políticas nos Estados Unidos e na Europa.
Esparta ganhou a guerra, em 404 a.C., derrotando Atenas na derradeira batalha de Egospótamos, encerrando a Era Clássica da Grécia Antiga.
A nossa guerra ainda decorre.