Josefina Madeira . 26

Era a casa da mãe, a casa da família, mas pouco sentia como a sua casa. Do que se recordava bem da sua infância era aquele ano inteiro que viveu na “cottage”, o velho casal isolado nas colinas húmidas e ventosas dos “moors”, a poucas milhas de distância para nordeste, a modesta e centenária casa rural onde se refugiaram quando a fundição se tornou estratégica na economia de guerra, e alvo da Luftwaffe.
Daqui só lhe ficou a memória vaga dos períodos de férias escolares e militares, quando vinha a casa pelo Natal e no verão, suficiente para reconhecê-la como a sua casa, mas sem o afecto do lar que se reconhece no cheiro e ruídos noturnos. Nem sequer tinha um quarto certo para si. Era como se fosse sempre um visitante de malas feitas, como agora se sentia, numa casa demasiado grande, construída e enriquecida na fusão e moldação do ferro que ajudou a revolução industrial, na Grosmont que crescera na entrada do túnel da via férrea, erguida com o carvão e minério de ferro do subsolo da charneca dos antepassados de sua mãe batizados na igreja de St. Hedda de Egton Bridge, registados desde que no século XVII o pároco católico passou a fazê-lo livremente.

Sebastian lamentava-se por não ter nenhuma casa ou terra que considerasse como a sua origem, onde sentisse a ligação umbilical, o bem estar do berço, o refúgio ansiado nos maus momentos. A infância de que se recordava passara-a em Portugal, na tenra juventude foi internado no colégio, a primeira maioridade fez-se na formação do serviço militar, pelo meio teve a, que sabe hoje ter sido, primeira necessidade de afirmação pessoal, com a vontade e voluntariedade que o levou à guerra do Suez, para defender um mundo e ideais, de um Cairo e Egipto num império decadente natal, que a realidade já faz duvidar.

Seu avô paterno fora oficial de cavalaria colocado em Bombaim. Seu pai nasceu lá, em 1906, mas veio estudar e fazer formação militar para Inglaterra, onde conheceu e casou-se com Beatrice, antes de rumar ao Egipto, na força britânica de proteção e controlo do canal do Suez e restantes interesses, a seguir à tumultuosa e frágil independência egípcia de 1922.
Sebastian nasceu no Cairo, em 1935, mas acompanhou a sua mãe na primavera de 1940, embarcados à pressa para a que julgavam segura Grã-Bretanha, com todo o restante pessoal civil colonial, perante a ameaça das forças italianas na vizinha Líbia, numa angustiosa viagem de barco pelo Mediterrâneo e Atlântico, sob ameaça constante das marinhas italiana e alemã.
A vaga memória desta viagem e o testemunho do sofrimento da mãe com notícia da morte do pai, em 1942, que mal compreendeu na altura, moldou-lhe definitivamente a juventude, fê-lo seguir a carreira militar, como o pai e o avô, e tentar emendar o que julgava seren erros políticos, com a aventura egípcia de 1956.
De onde era, a quem pertencia, para onde ia, eram dúvidas que não conseguia responder.

Após guardar a Bessie na gravilha em frente à porta de serviço das traseiras, Tom guiou-o, com poucas palavras, pela porta da esquerda do hall, para a grande sala de estar com maples, sofás, candeeiros de pé entretanto acendidos, mesas de apoio com copos e cinzeiros, armário de bebidas e charutos, e uma lareira, sob um espelho, na parede interior oposta às cinco janelas que davam para a frontaria. Havia mais duas janelas na parede do fundo, a ladear a mesa de jogo.
A sala criava três ambientes diferentes. Um conjunto de sofás pesados, enfrentava a lareira, agora apagada, ao lado direito, para conforto do inverno. Outro conjunto de sofás opunha-se-lhes, virados para as janelas, mais claros e floridos, em sintonia com a luz de fim de tarde que irrompe das janelas nos serões longos e luminosos dos dias de verão. Ao fundo, uma mesa de jogo aliciava os desafiadores da sorte, em noites de inverno aquecidas a álcool e tabaco.

Incomodava-lhe a formalidade. Tentou sorrir para Tom, mas ele baixou o olhar, recebendo-o como visitante que era de facto.
Tom ofereceu-lhe vários aperitivos alcoólicos, sem sucesso, até Sebastian aceitar um copo de limonada, e saiu pela porta de serviço, ao fundo, a seguir à lareira.
Sebastian aguardou de pé, a olhar à volta, para os quadros, de românticas paisagens bucólicas, com ninfas desnudas na borda de lagos entre árvores e ruínas de templos clássicos, uns, e outros de retratos dos homens das várias gerações Thompson, que prosperaram a escavar a terra para arrancar carvão e ferro que moldaram carris, máquinas e armas de guerra.
Pensou que a mãe iria figurar bem naquele grupo. Tinha mais têmpera do que quase todos, diria, para ficar bem retratada naquele espaço de parede vazio, que a aguardava entre quarta e quinta janelas.

Tom retornou com um copo e a caneca de limonada numa bandeja de prata, ao mesmo tempo que passos ecoaram no hall, pela porta oposta.
“- My dear Seb, my lovely boy!”, disse Beatrice num sorriso contido mas sincero, enquanto atravessava o salão de braços abertos para o abraçar, e largar um ósculo junto à sua face direita, seguido dum chorrilho pausado de perguntas, cuidados, dúvidas e conselhos.

A mãe era de uma contradição surpreendente, capaz do maior cuidado e atenção, e, logo de seguida, alhear-se em descrições minuciosas de acontecimentos quotidianos, num monólogo entediante, que Sebastian entendia como uma afirmação de personalidade, mas também como a expressão da forma como os fortes escondem a timidez nervosa. Ela interessava-se genuinamente pela sua saúde e estafa da viagem, mas perdia-se nos seus pensamentos em voz alta. O ego sobrepunha-se à interação, mesmo com os mais próximos.
Sebastian tinha genuínos amor e admiração pela mãe, mas a sua inteligência e personalidade forte, tão apreciados e elogiáveis, maçavam-no na imposição de si própria no atropelo rápido de palavras e perguntas sem tempo para responder, mas a sua maturidade já lhe permitia ouvir sem ter a vontade imediata de partir que o fez correr o mundo.

“- Meu querido Sebastian, vá-se refrescar e arranjar para jantar, ao seu quarto.
Thomas ajuda-o com a bagagem, enquanto eu preparo o serviço do jantar.”

Sebastian mal teve tempo de pousar a bagagem no quarto que lhe destinaram, para descer à sala de jantar contígua ao hall de entrada.
Sentou-se à direita da mãe, que já o aguardava de pé, e foram servidos por Tom, que vestira uma jaqueta preta e luvas brancas, e por uma miúda tímida, com ligeiro sotaque irlandês, fardada de branco.
Comeram em silêncio, como sempre foram as refeições com sua mãe, com Tom discretamente atento na passagem para a copa, a coordenar o serviço da sopa de faisão, seguido de shepherd’s pie com cenouras e ervilhas, a terminar com trifle do qual Sebastian só se serviu de uma pequena porção, acompanhados de água e bom vinho português enviado regularmente, às caixas, pelos primos.
Os Thompson sempre se serviram bem, mesmo em tempo de guerra.

Depois de jantar, passaram para o salão, onde se sentaram para beber uma pequena porção de Porto.
Tom serviu e retirou-se fechando as portas. Beatrice bebericou o vinho de olhos fechados e começou a falar.

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started