Josefina Madeira . 27

“ – A fundição molda o mundo das coisas pequenas, como o Criador nos moldou à sua imagem e semelhança. Minério de ferro derretido com carvão, ambos saídos das profundezas do chão pelo esforço da mineração, enche os ocos dos moldes de areia endurecida, formando peças de máquinas poderosas, velozes e voadoras. O futuro sai das nossas mãos, é um ato de criação”. Beatrice Coleman entusiasmava-se no seu pensamento.
“ – Isso era no tempo do comboio, mãe. Agora, os carros são feitos em aço, e os aviões em alumínio. São as máquinas do século vinte.”
“ – Talvez, mas os comboios vão precisar sempre de manutenção, os arados vão romper-se no rasgar das terra, as igrejas sempre vão precisar de sinos”.

Sebastian foi percebendo a mensagem que não queria ouvir.

“ – Quero que voltes! Quero que regresses à terra onde nasceste, tomes conta do que é teu, me dês o descanso que julgo já merecer”.
“ – Eu não nasci aqui”.
“ – Sei muito bem. Nasceste lá longe porque eu acompanhava o teu falecido pai no cumprimento do seu serviço ao rei. Mas esta é que é a tua terra.
Foi no Cairo por um acidente do império. Podes ter nascido lá, como podias ter nascido na Índia ou no Quénia – também passamos por lá – mas nunca deixarias de ser de Grosmont”.
“ – Não me quero prender a uma terra”.
“ – Já não és um rapazinho. Tens vinte e oito anos. Com a tua idade, o teu avô já liderava centenas de operários, alimentava as suas famílias, e o teu pai já tinha condecorações por bravura em combate”.

Também deveria ter a minha, pensava Sebastian enquanto acariciava a cicatriz do calcanhar.
Tudo lhe parecia vazio e opaco, como o canto da sereia no nevoeiro, uma tentação irresistível, vertiginosa, confortável e apelativa, de atração pelo conforto do caminho já calcorreado, de repetição de receita antiga, numa longa decadência sem sobressaltos.
Haviam-se sentado na sala, defronte da lareira apagada. Tom entrou para servir um Porto, a tempo de se retesar com as palavras que ouviu.

“ – És o único herdeiro do negócio e não há aqui mais ninguém capaz.
Sei muito bem dos teus progressos e fico muito orgulhosa das descrições elogiosas que leio nas cartas do primo George.
Não faço ideia onde aprendeste o que eles dizem que sabes fazer, mas é mesmo disso que preciso aqui.
Fazer uma fábrica nova, uma fundição para o ano dois mil”.

Sebastian sorriu, a imaginar uma fundição quente, negra, fumegante, no ano dois mil, sem reparar no olhar tenso de Tom, a sair pela copa em passo rápido.

“ – Não a quero ofender, mãe, mas o meu futuro não passa por aqui”.
“ – Porque não?
A casa é grande, fica toda para ti, eu refugio-me no cottage que tanto adoro. Ficas à vontade, mudas e modificas o que quiseres.
Já fiz a minha parte, agora é a tua vez”.

Passaram longos minutos a mirar a lareira apagada gasta e enegrecida de toneladas de lenha queimadas durante décadas, no jogo de espera de resposta de Sebastian ou de algum conveniente importuno que fizesse esquecer a conversa

“- Não posso, mãe!
Não me sinto daqui. Falta-me sol e calor.”

Respirou fundo, perante o olhar tenso de Beatrice.

“- Isto não tem futuro, ou, pelo menos, futuro que me faça viver. Estamos na era atómica, a pôr homens no espaço, a caminho da lua. O nosso Concorde enche jornais com notícias de voar mais depressa do que o som, os transistores estão a entrar em nossa casa num mundo de computadores que um dia vão falar comigo…”

Fez uma pausa.

“-… e a mãe vem falar-me de fundição de ferro para comboios e máquinas agrícolas, de fuligem de carvão, tecnologia de há séculos, de gregos e romanos.”

Perante o silêncio da mãe, continuou, após mais constrangedores minutos.

“ – O mundo já não está em 1940.
Estamos falidos, não temos império, as nossas indústrias estão obsoletas, os sindicatos vivem de uma luta do passado, a Coroa endivida-se para satisfazer as promessas dos políticos. Os nossos têxteis já são feitos em Itália e Espanha, e todos os dias abrem fábricas novas, em Hong-Kong e Portugal, muito mais produtivas e eficientes. Os nossos carros já não se comparam aos franceses, alemães e italianos, e agora já chegam os japoneses. E a mãe quer que eu fique aqui, na fuligem, a morrer lentamente no bucolismo dos Moors, de chuva e da cerveja de fim de tarde no pub?”

A lareira apagada fixava-lhes o olhar.

“ – Na semana passada esteve cá o Michael Hendricks.”
“ – Como vai o negócio dele?”
“ – Dizem que de vento em popa.”
“ – As ovelhas dele são para carne ou lã?”
“ – Para tudo. Vende tosquia para as tecelagens daqui, leite para queijarias, e carne para os mercados de Londres.”
“ – É bom saber isso.
Agasalho e alimentação serão sempre precisos.”
“ – Trouxe a filha com ele.
A Mary já fez dezoito anos e parece bastante ajuizada. Saiu bonita como a sua falecida mãe.”
“ – Ainda bem.”
“ – É filha única e vai herdar duzentos hectares de pasto e mais de dois mil animais. Ovelhas Swaledale, das melhores.”
“ – Vai-lhe sobrar trabalho.
Espero que aprenda muito com o pai.”
“ – Acho que a devias conhecer.”
“ – Então porquê?”
“ – Já tens vinte e oito anos. Tens de pensar na tua vida, estabilizar.
Criar raízes, família.
O pai dela concorda comigo.”

Sebastian bocejou sem pudor, e sua mãe fingiu não reparar no indecoro.
“ – Vou-me deitar, mãe.
A viagem foi longa e já venho com vários dias acumulados.”
“ – Sim, meu filho. Vai descansar.
Amanhã, a luz do dia aclarar-nos-á o espírito.”

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