12.“…Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância,Continue reading “Deixa lá!”
Category Archives: Literatura
Famintos
Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos. “Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa voltaContinue reading “Famintos”
O mar
“O mar sempre o atraíra como um íman. Ver o oceano, apreciar sua cor e o seu cheiro, o seu mistério insondável, transmitiam-lhe enorme sensação de empatia e de descontração. De promessas de liberdade, mais do que de limite e de encerramento. Durante anos, há muito tempo, quando sonhava mais frequentemente com a possibilidade deContinue reading “O mar”
Um sábio muito entendido em tragédias e livros
“Havia na mesa um homem sábio e de bom gosto, que apoiou o que a marquesa dizia. Falou-se em seguida de tragédias. A dama perguntou por que razão havia tragédias que eram representadas algumas vezes, mas que ninguém conseguia ler. O homem de bom gosto explicou muito bem como é que uma peça podia terContinue reading “Um sábio muito entendido em tragédias e livros”
Romancista como vocação
“Na vida, todos tivemos uma fase em que queríamos ser cool. Pouco antes de acabar o secundário, tomei a decisão de expressar apenas metade do que sentia. Já não me lembro do que me levou a isso, mas, nos anos que se seguiram, pus a minha teoria em prática. Um belo dia, descobri que meContinue reading “Romancista como vocação”
Algarve
“A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a soteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a soteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que éContinue reading “Algarve”
As Berlengas
“Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado governador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. SóContinue reading “As Berlengas”
Golfe
“O dia de descanso nacional era agora passado no country club, um Valhalla de silenciosos relvados de golfe, aspersores sibilantes e crianças aos gritos a brincar na piscina coberta, mas Ferguson raramente acompanhava os pais naquelas viagens de quarenta minutos até Blue Valley, dado que domingo era o dia em que treinava com as suasContinue reading “Golfe”
Primos
“Era estranho estar tão próximo de uma rapariga, descobriu Ferguson, sobretudo uma rapariga que ele não tinha qualquer vontade de beijar, o que era uma forma inaudita de amizade para ele, tão intensa como qualquer amizade que tivera com um rapaz e no entanto, dado que Amy era uma rapariga, havia uma tonalidade diferente nasContinue reading “Primos”
As primeiras palavras
“A luz rotunda do amanhecer tropical, filtrada pela janela, caía como um foco teatral projetado na parede de onde pendia o calendário, com as suas doze quadrículas perfeitas distribuídas em quatro filas de três retângulos cada.” A Transparência do Tempo, Leonardo Padura