Vejo a vinha como um rebanho de trepadeiras domesticadas, guardado por arames e postes, em vez de cães.Conheço-as todas, já as olhei uma a uma, embora só me recorde das doentes ou das mais viçosas, o que se é normal em famílias numerosas. São mais de vinte mil.Hibernam no fim do outono, deixam-se podar noContinue reading “O meu rebanho”
Author Archives: Rui Rodrigues
Tarsis
Ouvi falar pela primeira vez nos tartessos há uns anos atrás, num programa de televisão algo fantasista e especulador, no canal História, julgo, sobre as hipotéticas localizações da Atlântida.A parte menos interessante acabou por ser a conclusão especulativa mas demonstraram a importância da desembocadura do Guadalquivir, no comércio marítimo da antiguidade, pela quantidade de âncorasContinue reading “Tarsis”
Geração
Agarro uma manada de areia, com as duas mãos, e atiro bem alto, por cima de mim. Cada grão, por si, cumpre a sua trajectória parabólica descrita por Galileu. Sobem alto, com a velocidade inicial da juventude, todos iguais, esperançosos, num super slow motion de pequenos choques, ultrapassagens, ocultações.Uns, com mais quartzo, brilham de nascença.Continue reading “Geração”
Maresia #2321
Uma semana, sete músicas
Sobressalto
– Vivo no sobressalto de quem não sabe o que é o todo, mas sabe que falta sempre uma parte.– És um insatisfeito.– E tu és um chato. Sabes tudo?– Não, mas não me importo. Tens de aprender a valorizar o que tens.– Leste isso em que livro?– Num qualquer, está em todos. É umaContinue reading “Sobressalto”
Quadrados
– Não gosto de pessoas quadradas.– Tipo Spongebob?– Não brinques. Sabes bem do que estou a falar.– Referes-te a pessoas rectas, verticais, com princípios bem definidos e vincados?– Não. Refiro-me a gente monolítica, pouco facetada, com arestas e vértices agressivos.– Estou a ver que preferes pessoas tipo seixo, volúveis, que nunca sabes se estão deContinue reading “Quadrados”
Madrugar em maio
Os pássaros começam a cantar, os aviões chegam de longe, os primeiros carros passam na rua, abre-se a persiana da frente, o vento sul anuncia a chuva no rodar dos comboios, naquela hora entre as cinco e as seis.
Afonso III, o Bolonhês
Afonso III, o Bolonhês, foi o Rei de Portugal de 1248 até sua morte, em 1279. Era filho de Afonso II e pai de D. Dinis, tendo sucedido a seu irmão Sancho II.Ficou na história por conquistar Lisboa – passou para lá a capital – e o Algarve, passando a designar-se Rei de Portugal eContinue reading “Afonso III, o Bolonhês”
Oboé ao vento
A minha canção
As palavras surgem-me com música como se fossem letras de uma canção que não sei escrever, violentas como o trompete sobre o ribombar do tamboreio de que falava Zarathustra, ou tímidas como o oboé ao vento de Mozart, numa métrica certa e compassada com rima à procura de sentido.