– Vivo no sobressalto de quem não sabe o que é o todo, mas sabe que falta sempre uma parte.
– És um insatisfeito.
– E tu és um chato. Sabes tudo?
– Não, mas não me importo. Tens de aprender a valorizar o que tens.
– Leste isso em que livro?
– Num qualquer, está em todos. É uma verdade universal.
– Outra? Tu és todo certezas universais.
– Temos de assentar os pés na terra.
– Isso é conversa motivacional de medíocre remediado.
– E o que é que tu és?
Quadrados
– Não gosto de pessoas quadradas.
– Tipo Spongebob?
– Não brinques. Sabes bem do que estou a falar.
– Referes-te a pessoas rectas, verticais, com princípios bem definidos e vincados?
– Não. Refiro-me a gente monolítica, pouco facetada, com arestas e vértices agressivos.
– Estou a ver que preferes pessoas tipo seixo, volúveis, que nunca sabes se estão de frente ou de costas, escorregadias.
– Já tentaste abraçar uma coluna quadrada? Não consegues. Magoas-te nas esquinas vivas.
– Já caminhaste em cima de pedra polida e rombuda, como as rochas da praia? Escorregas.
– Mas aí escorrego no lodo. Não tem nada a ver.
-Tem, tem. Escorregas na curva do penedo. Se for plano e horizontal, andas de pé. Num plano liso e inclinado, sabes para que lado escorregas. Se for curvo, nunca sabes para que lado vais cair.
– Queres-me convencer que um tipo quadrado é mais estável, previsível e seguro?
– Claro. E muito mais cooperante, encaixa melhor. Guardas muito mais peças de dominó, numa caixa, do que seixos.
– Mas eu prefiro um seixo polido e macio. É único, não há dois iguais, consigo apertá-lo na mão sem me magoar, não me rompe os bolsos se o guardar.
– És um individualista. Vê lá se o teu calhau rombudo te escapa entre os dedos.
– E tu? Gostos de quadrados, numerados, bem arrumadinhos numa caixa.
– Gosto de ordem.
– Somos diferentes.

Madrugar em maio
Os pássaros começam a cantar, os aviões chegam de longe, os primeiros carros passam na rua, abre-se a persiana da frente, o vento sul anuncia a chuva no rodar dos comboios, naquela hora entre as cinco e as seis.
Afonso III, o Bolonhês
Afonso III, o Bolonhês, foi o Rei de Portugal de 1248 até sua morte, em 1279. Era filho de Afonso II e pai de D. Dinis, tendo sucedido a seu irmão Sancho II.
Ficou na história por conquistar Lisboa – passou para lá a capital – e o Algarve, passando a designar-se Rei de Portugal e do Algarve.
Mas a verdadeira revolução de Afonso III foi económica.
Dotado de grande capacidade de gestão, transforma a Coroa e os domínios régios numa autêntica empresa pré-capitalista, com economia monetária e de mercado. Usa técnicas pioneiras como a desvalorização monetária para aplicar impostos extraordinários, organiza o cadastro predial régio para cobrança eficaz de rendas, financia-se vendendo a cobrança de rendas, investe em meios produtivos como azenhas, lagares e casas nas cidades para arrendar, protege a pesca e as feiras para que não faltasse abastecimento e mercado livre, impediu a exportação de bens escassos no país como cereais e metais preciosos, obrigou as importações a passarem por portos onde a cobrança da dízima fosse eficaz, criou um posto de cobrança régia em Vila Nova de Gaia para arrecadar uma parte dos cobiçados rendimentos do Bispo do Porto, introduz o sistema monetário padrão libra usado no resto da Europa, intensifica o comércio externo no Atlântico Norte e Mediterrâneo.
D. Dinis herda uma administração régia bem organizada e com rendimentos assegurados.

Filía
Deixem-me lá escrever algumas sentenças sobre a amizade. Não se pode pedir amizade. Mas pode-se aceitar amizade. A amizade exige a aprendizagem do silêncio na presença do outro. No outro o amor e o bom silêncio são uma consequência de uma espécie de paz, a que alguns chamam felicidade. Toda a amizade é desinteressada, os favores são espontâneos e não têm conta corrente. A verdadeira amizade não exige presença, muito menos imposição física, mas o amigo real nunca adia uma pulsão de contacto e sabe ler os constrangimentos. O amigo nunca pesa, a amizade é um objecto leve, quântico. Os amigos nunca são numerosos, porque saber sê-lo é uma das mais raras virtudes animais. E pode-se ficar muito amigo de alguém num só dia, mais do que de muitos numa vida inteira. Precisamente por uma espécie de osmose ou leitura química dessa virtude.
#amizade #friendship #amitié #pedroguilhermemoreira

Oboé ao vento
A minha canção
As palavras surgem-me com música como se fossem letras de uma canção que não sei escrever, violentas como o trompete sobre o ribombar do tamboreio de que falava Zarathustra, ou tímidas como o oboé ao vento de Mozart, numa métrica certa e compassada com rima à procura de sentido.
Afonso II, o Gordo
A razão de tão pouco simpático cognome, de um rei do início do século XIII, não seria a vulgar obesidade, mas sim algo mais desagradável. Diz-se que teria deformações provocadas por lepra, doença relativamente vulgar na Idade Média.
Um rei leproso, cognominado de gordo, estaria condenado ao esquecimento. Em parte foi o que aconteceu, esquecido nos livros de história, entre os muito lembrados avô, Afonso Henriques, e neto, Dinis. Mas a realidade é mais interessante e merece ser recordada.
No início do século XIII, começava a surgir a necessidade de passar contratos a escrito. As referências espaciais e temporais precisavam de ser mais precisas e rigorosas, já não se podia confiar na memória das testemunhas, suas emoções e efabulações. O perto e o longe variavam com a largueza da paisagem, era tudo já ali, a propriedade tendia a ser reclamada pelo mais forte, a pau de marmeleiro ou espada, e a contagem do tempo variava com o tédio ou ocupação do contador. Havia relatos de homens grisalhos que diziam ter vinte anos ou idosos que reclamavam mais de cem.
Perante a necessidade de organizar a sociedade, Afonso II tomou a decisão de instaurar o notariado, pelo menos em alguns concelhos, e fazer dele um serviço público. A medida era demasiado precoce e por isso só se generalizou depois de 1250, mas o processo, iniciado logo no início do seu reinado, perdura até aos nossos dias.
Outra reforma importantíssima foi o início do registo dos documentos expedidos da corte. A partir de 1222, todas as leis, ordens ou instruções emanadas por si, eram passadas a escrito em quadriplicado. Uma cópia para cada um dos principais dignitários da corte, o mordomo-mor, o alferes e o chanceler, e um quarto registo guardado na chancelaria. Foi uma verdadeira revolução na administração, inovadora e pouco comum na Europa medieval.
Também na justiça, recomenda aos juízes dos órfãos que não se esqueçam de registar a relação dos bens a herdar e que as sentenças sejam passadas a escrito.
Começou a haver uma relação entre a escrita e o espaço urbano, quando passou a lei: “cada um de vós em vossas vilas que façades escrever todas estas cousas”.

Palavras contam
Os seis anos de Luísa vinham carregados de dúvidas. Na escola, os desafios que lhe lançavam não saciavam toda a sua curiosidade, pelo que diariamente aguardava a chegada a casa do pai para o interpelar sobre os mais variados temas. Todos os dias havia uma dúvida nova que fazia sorrir o pai por detrás da cara sisuda que sempre lhe mostrava. Com as crianças há que parecer sério, pensava; para infantilizados já elas têm os amigos, ponderava o progenitor. Mas nem a cara grave do pai demovia Luísa de o questionar com porfia. As perguntas tanto podiam ser sobre pássaros e minhocas, como flores e frutos. Desta vez o que intrigava a petiz eram as palavras…
– Ó pai, afinal as palavras contam? – soltou a menina, com uns olhos redondos preenchidos com dúvidas.
O pai, obedecendo ao critério do rosto austero, franziu o sobrolho para avançar:
– Não estou a perceber a tua pergunta, Lu, o que queres dizer com isso?
– Ora, isso mesmo! – atirou, segura – Hoje na escola aprendemos os números que usamos para fazer as contas…Mas os números são palavras! Então, as contas são feitas com as palavras, certo?
Desta vez o pai não conseguiu evitar o riso.
– Tens razão, as palavras contam. É com as palavras que fazemos tudo. Se não houvesse palavras tudo seria mais difícil. Não seria fácil pedir, perguntar, responder, agradecer, escrever, desculpar, ensinar, informar, explicar…e, até, contar!
– E também contam histórias – acrescentou, entusiasmada, a garota.
– Claro, as palavras contam…e muito! Contam histórias, contam números: contam contos e contam contas. Para além disso, vou-te dizer algo muito importante sobre as palavras – murmurou o pai, enquanto se curvava sobre a garota como se lhe estivesse a sussurrar um segredo – as palavras estão lá para ti….podes contar sempre com elas.

Impressão
– És um egocêntrico.
– Quê?
– Sim. Julgas que a tua vida interessa aos outros quando, se calhar, é-lhes vulgar ou insignificante perante os seus problemas. Todos temos problemas. Se calhar nem repararam em ti.
– Isso deixa-me triste.
– Porquê? Gostas de te exibir?
– Quem não gosta? Todos gostamos de impressionar.
– Só os vaidosos que julgam que valem a impressão.
– Se não mostrares a impressão nunca ninguém saberá quanto vales.
– E se descobrirem que não vales nada?
– Ao menos repararam em mim.