Afonso II, o Gordo

A razão de tão pouco simpático cognome, de um rei do início do século XIII, não seria a vulgar obesidade, mas sim algo mais desagradável. Diz-se que teria deformações provocadas por lepra, doença relativamente vulgar na Idade Média.
Um rei leproso, cognominado de gordo, estaria condenado ao esquecimento. Em parte foi o que aconteceu, esquecido nos livros de história, entre os muito lembrados avô, Afonso Henriques, e neto, Dinis. Mas a realidade é mais interessante e merece ser recordada.
No início do século XIII, começava a surgir a necessidade de passar contratos a escrito. As referências espaciais e temporais precisavam de ser mais precisas e rigorosas, já não se podia confiar na memória das testemunhas, suas emoções e efabulações. O perto e o longe variavam com a largueza da paisagem, era tudo já ali, a propriedade tendia a ser reclamada pelo mais forte, a pau de marmeleiro ou espada, e a contagem do tempo variava com o tédio ou ocupação do contador. Havia relatos de homens grisalhos que diziam ter vinte anos ou idosos que reclamavam mais de cem.
Perante a necessidade de organizar a sociedade, Afonso II tomou a decisão de instaurar o notariado, pelo menos em alguns concelhos, e fazer dele um serviço público. A medida era demasiado precoce e por isso só se generalizou depois de 1250, mas o processo, iniciado logo no início do seu reinado, perdura até aos nossos dias.
Outra reforma importantíssima foi o início do registo dos documentos expedidos da corte.  A partir de 1222, todas as leis, ordens ou instruções emanadas por si, eram passadas a escrito em quadriplicado. Uma cópia para cada um dos principais dignitários da corte, o mordomo-mor, o alferes e o chanceler, e um quarto registo guardado na chancelaria. Foi uma verdadeira revolução na administração, inovadora e pouco comum na Europa medieval.
Também na justiça, recomenda aos juízes dos órfãos que não se esqueçam de registar a relação dos bens a herdar e que as sentenças sejam passadas a escrito.
Começou a haver uma relação entre a escrita e o espaço urbano, quando passou a lei: “cada um de vós em vossas vilas que façades escrever todas estas cousas”.

Palavras contam

Os seis anos de Luísa vinham carregados de dúvidas. Na escola, os desafios que lhe lançavam não saciavam toda a sua curiosidade, pelo que diariamente aguardava a chegada a casa do pai para o interpelar sobre os mais variados temas. Todos os dias havia uma dúvida nova que fazia sorrir o pai por detrás da cara sisuda que sempre lhe mostrava. Com as crianças há que parecer sério, pensava; para infantilizados já elas têm os amigos, ponderava o progenitor. Mas nem a cara grave do pai demovia Luísa de o questionar com porfia. As perguntas tanto podiam ser sobre pássaros e minhocas, como flores e frutos. Desta vez o que intrigava a petiz eram as palavras…

– Ó pai, afinal as palavras contam? – soltou a menina, com uns olhos redondos preenchidos com dúvidas.

O pai, obedecendo ao critério do rosto austero, franziu o sobrolho para avançar:

– Não estou a perceber a tua pergunta, Lu, o que queres dizer com isso?

– Ora, isso mesmo! – atirou, segura – Hoje na escola aprendemos os números que usamos para fazer as contas…Mas os números são palavras! Então, as contas são feitas com as palavras, certo?

Desta vez o pai não conseguiu evitar o riso.

– Tens razão, as palavras contam. É com as palavras que fazemos tudo. Se não houvesse palavras tudo seria mais difícil. Não seria fácil pedir, perguntar, responder, agradecer, escrever, desculpar, ensinar, informar, explicar…e, até, contar! 

– E também contam histórias – acrescentou, entusiasmada, a garota.

– Claro, as palavras contam…e muito! Contam histórias, contam números: contam contos e contam contas. Para além disso, vou-te dizer algo muito importante sobre as palavras – murmurou o pai, enquanto se curvava sobre a garota como se lhe estivesse a sussurrar um segredo – as palavras estão lá para ti….podes contar sempre com elas.

Impressão

– És um egocêntrico.
– Quê?
– Sim. Julgas que a tua vida interessa aos outros quando, se calhar, é-lhes vulgar ou insignificante perante os seus problemas. Todos temos problemas. Se calhar nem repararam em ti.
– Isso deixa-me triste.
– Porquê? Gostas de te exibir?
– Quem não gosta? Todos gostamos de impressionar.
– Só os vaidosos que julgam que valem a impressão.
– Se não mostrares a impressão nunca ninguém saberá quanto vales.
– E se descobrirem que não vales nada?
– Ao menos repararam em mim.

Desilusão

– Já te desiludiram?
– Muitas vezes.
– Zangas-te?
– Não. Saio.
– Sais para onde?
– Saio, simplesmente. Ausento-me.
– E dizes-lhes?
– Não. Saio calado.
– Mas isso não é sincero.
– Para quê ser sincero se me desiludiram?
– Podes estar a ser injusto.
– Sou cobarde. Não gosto de afrontamentos.
– És complicado.
– Poupo energia.

Grande demais

O único momento em que conseguia esquecer a sua condição era quando estava mergulhado nas águas do mar. Sabia que estava longe o suficiente quando os outros se assemelhavam a pequenas pontas de alfinetes. Nadava muito para lá da zona das ondas, onde podia relaxar e deixar-se flutuar, sem sobressaltos, acalmando o corpo e a mente. Ali era só ele e o sal marinho. A água salina segurava-lhe os pesos e fazia boiar os problemas. Só o frio era capaz de colocar um fim àquela breve e cúmplice relação. Esse incómodo haveria de o abraçar e abusar de todo o seu corpo até alcançar o areal. Chegava gelado. Hirto. Com os membros entorpecidos e o espírito rígido, estava de volta à sua sina. Saía da água como entrou, com os olhos dos outros cravados na sua singularidade. Ele, que sempre mirava em frente, era espiado de baixo para cima por numerosos torcicolos de espanto. Manuel era grande. Gigante. Grande demais, ouvia muitas vezes. E nem a natural curvatura que fora criando para caber nas portas e nos carros o fazia mais pequeno. Nas plateias podia dizer-se que havia um espaço “antes” e “depois” do Manuel: quem ficava no “antes” rabujava e havia até quem reclamasse o preço dos bilhetes; quem se encavalitava nos seus ombros usufruía do panorama, posto que não sofresse de vertigens. Do seu alto, Manuel sentia ventos que os outros não sentiam, bronzeava mais rapidamente e avisava sobre os primeiros pingos de chuva. Nos supermercados era muitas vezes requisitado para aceder às prateleiras superiores, limpava as janelas e podava quase todas as árvores dos vizinhos. Manuel falava com os pássaros, com quem se cruzava muitas vezes enquanto caminhava. Afagava os ninhos com carinho e até ajudava a compô-los quando rajadas de vento os desmanchavam. Os pais diziam-lhe que vivia com a cabeça nas nuvens e ele nunca percebeu se estavam a ser metafóricos. No inverno a mãe fazia-lhe umas meias grossas, com um cano muito alto, para proteger os pés que não cabiam em nenhuma cama.

Vivia com a dúvida de saber o que significava ser “grande demais”. Um dia, Manuel foi consultar um padre, que o aconselhou um médico, que o orientou para um psicólogo, que lhe sugeriu falar com um amigo, que lhe recomendou um padre…

Foi só no mar que percebeu que ser grande não é um problema. O mar é grande, mas nunca demais, e Manuel é como ele: cabem nele aqueles que quiserem flutuar e usar do seu sal marinho para aliviarem os seus problemas. Só a frieza instilada pode enfraquecer a grandeza de Manuel.

Amizade

– Quando gosto de uma pessoa digo-lhe, abro-me,  conto-lhe tudo, humilho-me.
– Humilhas-te como?
– Desproporciono a relação. Não sei se sou correspondido. Sujeito-me ao cinismo.
– Isso pode ser mesmo muito mau.
– Mas gosto desse risco. Arriscar é viver. Como posso descobrir os outros se não lhes mostro como sou?
– O bom ou o mau de ti?
– Todos nós mostramos só o bom, voluntariamente, mas ninguém consegue esconder o mau, todo o tempo.
– Já fizeste amigos, assim?
– Não sei. Não passou tempo suficiente.

Arco-íris

– Gostas do arco-íris?
– Porque é que não havia de gostar?
– Sei lá! És sempre tão pragmático. Se não é útil não existe.
– Mas também não prejudica. Está lá, não chateia e é bonito. E nem reparo. Tenho coisas mais importantes com que me chatear.
– Tens de levantar a cabeça, ver o sol, a chuva, as nuvens, os montes, orientares-te na paisagem, ver a sequência dos elementos, os cheiros, a luminosidade…
– Também queres que vá atrás do pote de ouro?
– E o que é a nossa vida, senão isso?

Maresia da semana #2319

Uma vaidade, uma missão, uma presunção, uma fraqueza. Sete músicas por semana, uma por cada dia, vinte a trinta minutos de emoção.
Cada uma delas fez-me parar e desviar da rotina. Não interessa a ordem, não são novidade, não são as melhores, não precisam de descrição ou explicação, valem por si.
Os créditos estão todos nos spotify.

https://open.spotify.com/playlist/6vDckEVIladDbtHe7OYYZB?si=NuOfz0tdSyqF6a-Sb7VPBw

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