– Escreves para quem?
– Escrevo para mim.
– Porque escreves, se é para ti? Não basta a memória?
– Escrevo para mim no futuro.
– Mas se calhar não vais estar cá para ler.
– Quem me lê, agora ou depois, já está em mim no futuro.
Fotografia
A memória é feita de imagens fixas. Daquele almoço que nos marcou, guardamos um sorriso, um desafio, uma inquirição, a emoção de um olhar marejado. Momentos, instantâneos, paragem na uniformidade do universo. Tempo.
O nosso cérebro enquadra o que lhe interessa, desinteressa-se do redor, cria uma fantasia de atenção, um rectângulo na paisagem, como se mais nada fosse importante. Espaço.
Sempre que revejo as minhas fotografias, volto àquele sítio, àquele dia e hora, sinto o calor, o frio, a alegria ou o medo, revivo o meu. Propriedade.
Sempre que vejo as dos outros, de sítios onde nunca fui, sinto-me à janela de um comboio ou a ver televisão. Informação.
Estranho ver fotografias de outros do meu ambiente quotidiano, familiar. Ver o meu território retratado com outro cuidado, outra perspectiva, outra luz, outra atenção, outro instantâneo. Vejo coisas que não vi, sempre estiveram lá, estão lá. Sinto-me nos olhos do outro, no espírito. Comunhão.
Terra de brumas
Os primeiros hominídeos chegaram à Europa há mais de um milhão de anos, do leste, do Cáucaso e Ásia Menor, de passagem vindos de África, em várias levas até à última, a do homo sapiens há cerca de 50.000 anos.
A Europa ocidental desse tempo, em plena Idade do Gelo, era muito diferente do que é hoje. A calote polar, de gelos permanentes, cobria toda Escandinávia, norte da Alemanha e Grã-Bretanha, o Canal da Mancha atravessava-se a pé, os invernos eram rigorosos a norte dos Alpes e Pirinéus, a Serra da Estrela cobria-se de neves eternas e o vale do Zêzere era um extenso glaciar.
Em busca de caça e fruta selvagem, de paragens mais amenas, pequenos grupos nómadas, de neandertal e sapiens, marcharam para ocidente, chegaram ao fim da terra, assentaram e deixaram vestígios de Altamira ao Lapedo ou Foz Côa.
Não sabemos como se organizavam nem comunicavam, mas imagino que, olhando o céu em noites límpidas de lua nova, a Via Láctea surgiria como um apontar do caminho para lá do sítio onde o sol se põe, alimentando o mito do fim da terra e do recomeço.
No século I AC, os sofisticados romanos chegaram ao noroeste da península ibérica, pelo mesmo ancestral caminho leste-oeste, e encontraram uma população tribal, organizada em castros, guerreira e orgulhosa, com forte sentimento místico e religioso, numa costa pejada de santuários pagãos em quase todos os cabos e promontórios. A mais famosa divindade seria Lugus. Tinha um muito requisitado e visitado altar pagão, diz-se que no mesmo local onde viria a ser construída a catedral de Santiago de Compostela.
No século IV surgiu na Galécia, província do império romano já cristão, coincidente com a actual Galiza e norte de Portugal, com capital em Bracara Augusta, um movimento religioso liderado por Prisciliano de Ávila.

O priscilianismo era uma forma de gnosticismo cristão que enfatizava a importância do conhecimento espiritual e da experiência pessoal acima da estrita adesão à doutrina tradicional da igreja. Prisciliano pregava que o mundo material era mau e que somente se poderia alcançar a salvação por meio de conhecimento e esclarecimento.
Defendendo que a espiritualidade podia ser encontrada em experiências pessoais e na natureza, Prisciliano foi atraído, pela sua curiosidade, ao santuário de Lugus, na cidade de Iria Flávia. Lá, terá realizado uma cerimónia religiosa, bastante assistida, que envolvia uma fogueira. Alguns estudiosos acreditam que pode ter sido um precursor do culto do Botafumeiro, um objeto litúrgico utilizado ainda hoje na catedral de Santiago.
Os ensinamentos de Prisciliano eram controversos e no ano 380 foi excomungado por um sínodo de bispos em Zaragoza. Mas como recusou a decisão e continuou a pregar as suas crenças, a excomunhão deu-lhe ainda mais atenção e notoriedade, tornando-se uma proeminência da cristandade ibérica.
Em 385 foi acusado de feitiçaria e heresia e levado perante o imperador Maximiano, na cidade de Tréveris, actual Trier, Alemanha. Apesar dos protestos do Papa Sirício e de vários clérigos e teólogos, como Martinho de Tours, foi considerado culpado e Maximiano decretou a sua decapitação imediata e de vários dos seus seguidores mais próximos. Posteriormente, seus corpos terão sido levados para Ávila ou outra cidade da Hispânia. Não se sabe.
O priscilianismo continuou a ser um movimento controverso e perseguido durante os séculos seguintes, atraindo seguidores à Galécia, entretanto sueva, visigoda e leonesa, apesar da aura de paganismo e heresia e do esquecimento a que foi votado pela igreja romana.
Por esse tempo corria também a lenda de Santo Iacobus ou São Tiago, o apóstolo. Martirizado na Jerusalém do século I, seu corpo terá sido depositado num barco de pedra, atravessado todo o Mediterrâneo, rumado a norte, no Atlântico, e chegado às costas da Galiza.
Numa noite do século IX, Paio, ou Pelayo, o Eremita, avista uma luz brilhante a pairar no bosque de Libredón, nos arrabaldes da velha povoação romana de Iria Flávia. Alertado, o bispo Teodomiro deslocou-se ao local e descobriu um sepulcro de pedra onde repousavam três corpos, que identificou como sendo de Santiago Maior e de dois dos seus discípulos Teodoro e Atanásio.
Numa época de reconquista cristã e forte fervor religioso, o Rei Afonso II das Astúrias torna-se o primeiro peregrino de Santiago, manda construir a catedral e funda a cidade de Santiago de Compostela, tornando o apóstolo o padroeiro da sua causa e futuro padroeiro de Espanha.
Em 1875, o arcebispo Miguel Payá Rico decide realizar um rigoroso estudo arqueológico, sob a direção dos historiadores López Ferreiro e Labín Cabello, aos restos mortais que, segundo a tradição, estavam sepultados sob o altar-mor. Em 1879 encontraram um ossário e conseguiram reconstruir os esqueletos do que seriam os restos do apóstolo e seus dois discípulos.
Em julho de 2013, um grupo de especialistas da Universidade de Santiago de Compostela voltou a investigar os restos mortais com técnicas de datação por carbono e análises antropológicas. Embora os resultados tenham sido dados como inconclusivos, mostraram compatibilidade com a datação do século I, idades entre 35 e 45 anos de idade, mas pouca probabilidade de serem originários do médio oriente.
Não sabemos quem está lá sepultado, nem todos os caminheiros saberão porque lá vão, mas basta olhar o céu límpido de uma noite de lua nova para nos orientarmos no milenar caminho de despojamento e renovação, que nos leva à contemplação do pôr do sol atlântico de brumas e maresia, que nunca me cansa.
Esparguetes
Contamo-nos em gerações, agrupados como se cada uma fosse um pacote que se abre anualmente. Todos com as mesmas promessas, sonhos e planos, firmes, tesos, orgulhosos, uniformes, lineares, decididos, verticais, calibrados, medidos, iguais, prontos a ser lançados na panela da vida do grande chefe do universo.
Água, calor, sal, movimento, burbulhar, mistura de fases, mudanças de estado, vapor, o primeiro momento é um parto lento, curvar, mergulhar como o primeiro choro do primeiro minuto. Dobramo-nos, cedemos, misturamo-nos. Alguns, pobres, mal paridos, já entram quebrados.
Começa o rodopio, o carrocel, encontramo-nos, afastamo-nos, cruzamo-nos, reencontramo-nos, passamos ora por cima ora por baixo. Alguns seguem a vida juntos, outros nunca se vêem. Tocam-se uma vez e seguem rumos diferentes, em paralelo ou cruzados, voltam mais à frente ou atrás. O rodopio.
Dizem que esta vida são sete minutos. Não sei. O tamanho da panela, os litros de água, a intensidade do fogo, o testo, as gramas de sal, o caldo termodinâmico decidido pelo mestre faz a sorte de cada criação: crua, passada, al dente, insossa, apetitosa, no ponto, precoce, desperdiçada.
No fim, escorridos e depositados na taça, regados com molho de tomate, carne ou ovo, manjericão, alho, azeite, polvilhados de parmesão ralado como se fosse cal viva numa vala comum, servidos, damos a vez.
Sétima Legião

Legio VII Gemina, uma das mais famosas e bem-sucedidas legiões romanas, esteve sedeada mais de 300 anos na cidade de Legio, que lhe deve o nome, na província romana da Hispânia Tarraconensis, actualmente León, capital da região autónoma espanhola de Castilla-León, até ser mobilizada no século IV para o norte de África, para combater os invasores vândalos e alanos.
Formada por Júlio César em 52 a.c. para as campanhas na Gália, contra as tribos gaulesas lideradas por Vercingetórix, antes de ser enviada para a península Ibérica, deve o nome Gemina por partir da união de duas legiões pré-existentes, a Legio VII Claudia, fundada por Lúcio Cornélio Sula em 107 a.c., e a Legio VII Praetoria, fundada por Caio Otávio em 61 a.c.
Uma das principais batalhas em que a Legio VII Gemina esteve envolvida foi a Batalha do Rio Douro, que ocorreu em 27 a.c., em que as forças romanas lideradas pelo general Caio António derrotaram os lusitanos lideradas por Viriato.
Em tempo de Pax Romana, a legião foi responsável pela construção de estradas e fortificações como a de Bracara Augusta (Braga), uma das suas bases. A fama e prestígio chegou até aos nossos dias e enraizou-se na cultura popular simplesmente como Sétima Legião.
Full Metal Jacket

Revi ontem, pela enésima vez, Full Metal Jacket, de Stanley Kubrick.
Volto sempre a Kubrick. Sempre novo, sempre diferente, perturba, atrai, avisa, nunca está datado.
Full Metal Jacket é um filme de guerra diferente, pela montagem, pelas personagens, por tudo, mas isso é tema para outro pensamento, cinematográfico. O que me interessa aqui é a política e a sociedade, criticadas mais ou menos subtilmente.
A automatização do homem, a adaptação da personalidade ao colectivo, a necessidade de esbater as diferenças para o bem comum, a mecanização das rotinas, a pressão hierárquica, a exaltação do treino, a violência, o medo, a vingança, o poder desmesurado das pequenas chefias, o anonimato dos covardes, a coragem do espírito mais livre e esclarecido, a morte como libertação exasperada do mais fraco. Está lá tudo, na primeira parte, toda passada na caserna e campo de treino dos recrutas.
Depois vem o poder desmesurado, a máquina de guerra, a desumanização do desconhecido, o colonialismo, a violência, a ignorância, os sabujos locais, a corrupção, a miséria. Há uma frase que retive: “Estamos a matar os vietnamitas errados”.
Em qualquer manifestação de poder, político, governamental, económico, desportivo, policial, judicial, laboral e até pessoal e familiar, há sempre o acomodado, servil, obediente, e o indivíduo revoltado, quezilento, contestatário.
Uma sociedade só evolui se quem tem o poder souber ouvir quem o contesta, tanto para acolher como para alijar, em juízo, como também questionar permanentemente a valia e fidelidade dos que o adulam.
CRAZY EARL
Do I think America belongs in Vietnam? Um... I don't know. I belong in Vietnam. I'll tell you that.
DOC JAY
Can I quote L.B.J.?
REPORTER
Sure.
DOC JAY
(imitating L.B.J.)
"I will not send American boys eight or ten thousand miles around the world to do a job that Asian boys oughtta be doin' for themselves."
EIGHTBALL
Personally, I think, uh ... they don't really want to be involved in this war. I mean ... they sort of took away our freedom and gave it to the, to the gookers, you know. But they don't want it. They'd rather be alive than free, I guess. Poor dumb bastards.
COWBOY
Well, the ones I'm ... I'm fighting at are some pretty bad boys. I'm not real keen on ... some of these fellows that are . . . supposed to be on our side. I keep meeting'em coming the other way. Yeah.
DONLON
I mean, we're getting killed for these people and they don't even appreciate it. They think it's a big joke.
ANIMAL MOTHER
Well, if you ask me, uh, we're shooting the wronggooks.
RAFTERMAN
Well, it depends on the situation. I mean, I'm--I'm here to take combat photos. But if the shit gets too thick, I mean, I'll go to the rifle.
ANIMAL MOTHER
What do I think about America's involvement in the war? Well, I
think we should win.
COWBOY
I hate Vietnam. There's not one horse in this whole country. They don't have one horse in
Vietnam. There's something basically wrong
with that.
(laughs)
ANIMAL MOTHER
Well, if they'd send us more guys and maybe bomb the hell out of the North, they might, uh, they might give up.
JOKER
I wanted to see exotic Vietnam, the jewel of Southeast Asia. I wanted to meet interesting and stimulating people of an ancient culture and ... kill them. I
wanted to be the first kid
on my block to get a confirmed kill.