Geração

Agarro uma manada de areia, com as duas mãos, e atiro bem alto, por cima de mim. Cada grão, por si, cumpre a sua trajectória parabólica descrita por Galileu. Sobem alto, com a velocidade inicial da juventude, todos iguais, esperançosos, num super slow motion de pequenos choques, ultrapassagens, ocultações.
Uns, com mais quartzo, brilham de nascença. Outros, mais fortes, mais pesados, destacam-se, bem visíveis. A maioria mal se vê, não se destinguem, ocultados, baços e anónimos. Os que sobem mais alto batem recordes. Os frágeis e pequenos mal avançam. E há os que nem sequer partiram, colados na mão suada.
Quando chegam ao topo, a alturas diferentes, em instantes diferentes, a lei vital da gravidade vence o impulso juvenil do lançamento e mergulham numa descida final de novos choques, ultrapassagens e ocultações.
No fim, voltam à terra de onde foram colhidos, em tempos diferentes. Uns pousam suavemente, outros com violência. Todos desaparecem no mesmo chão.

Alma e a vida

Alma passou toda a vida a imaginar que um dia aquele momento chegaria. Aconteceu. Evitou pensar nele enquanto pôde, mas havia alturas em que determinadas situações o destapavam mais do que ela gostaria. Desassossegava-se. Não gostava de o ver assim, nu, a acenar-lhe insolente, o tal episódio. Como um herpes latente que se manifesta perante uma baixa de defesas, assim era a sua inquietação. Enervava-se. Por mais previsões que tivesse feito, sentia que não estava preparada para lhe dar resposta e isso deixava-a desconfortada. Revolvia-se. Era mãe de uma menina há 15 anos. Planeara-a. Durante 15 anos foi construindo para ela um abrigo que julgava ser à prova de tudo. Esforçou-se. Agora, porém, percebia que não havia blindagem possível para aquela questão. Frustrou-se. A sua filha passava por aquilo que também ela vivera. Repetia-se. A adolescente questionava-se sobre o que fazer. Alma também. A garota queria ter respostas. Alma também. Chegara o momento em que a vida tinha para revelar algo muito importante à jovem. Chamou-a a um canto. Assegurou-se que ninguém ouvia o que lhe sussurrava. Parecia, até, algo entusiasmada enquanto lhe fazia a confidência. Disse-lhe ao ouvido “eu não faço sentido”. A miúda não percebeu. “Não há uma lógica em mim”, continuou trocista. Porquê? “Porque eu é que decido”. Rematou. Alma sabia que aquele era o momento em que tudo podia ruir. Suspirou. Como explicar à filha que tudo o que lhe transmitira até ali de pouco lhe servia? Hesitou. Como assegurar a manutenção da diferença entre o bem e o mal explicado ao longo daquele quindénio? Não sabia. Mais difícil: como insistir que o bem devia sempre prevalecer? Ignorava. Contra a vida não há argumentos. Aceitou. A filha experienciava a primeira grande injustiça que a vida lhe tinha destinada. Resignou-se. Os quarenta anos dela sabiam que era isso mesmo: a primeira injustiça; de tantas; de muitas; das que viessem; das que tiverem de ser. Consolou-a. Era só isso que podia fazer. Ouviu-a. A miúda chorou. Amparou-a. A filha soluçou. Agarrou-a.
Queria sovar a vida. Pedir-lhe explicações. Perguntar-lhe quem é que ela pensava que era. Agarrá-la pelos colarinhos. Amaldiçoá-la. Chamar-lhe nomes: manhosa, injusta, maquiavélica, ardilosa, errada. Desejar o mesmo para os filhos dela, não fora esta ser uma reles infértil, estéril, árida, seca e infecunda…vidas.

Sobressalto

– Vivo no sobressalto de quem não sabe o que é o todo, mas sabe que falta sempre uma parte.
– És um insatisfeito.
– E tu és um chato. Sabes tudo?
– Não, mas não me importo. Tens de aprender a valorizar o que tens.
– Leste isso em que livro?
– Num qualquer, está em todos. É uma verdade universal.
– Outra? Tu és todo certezas universais.
– Temos de assentar os pés na terra.
– Isso é conversa motivacional de medíocre remediado.
– E o que é que tu és?

Quadrados

– Não gosto de pessoas quadradas.
– Tipo Spongebob?
– Não brinques. Sabes bem do que estou a falar.
– Referes-te a pessoas rectas, verticais, com princípios bem definidos e vincados?
– Não. Refiro-me a gente monolítica, pouco facetada, com arestas e vértices agressivos.
– Estou a ver que preferes pessoas tipo seixo, volúveis, que nunca sabes se estão de frente ou de costas, escorregadias.
– Já tentaste abraçar uma coluna quadrada? Não consegues. Magoas-te nas esquinas vivas.
– Já caminhaste em cima de pedra polida e rombuda, como as rochas da praia? Escorregas.
– Mas aí escorrego no lodo. Não tem nada a ver.
-Tem, tem. Escorregas na curva do penedo. Se for plano e horizontal, andas de pé. Num plano liso e inclinado, sabes para que lado escorregas. Se for curvo, nunca sabes para que lado vais cair.
– Queres-me convencer que um tipo quadrado é mais estável, previsível e seguro?
– Claro. E muito mais cooperante, encaixa melhor. Guardas muito mais peças de dominó, numa caixa, do que seixos.
– Mas eu prefiro um seixo polido e macio. É único, não há dois iguais, consigo apertá-lo na mão sem me magoar, não me rompe os bolsos se o guardar.
– És um individualista. Vê lá se o teu calhau rombudo te escapa entre os dedos.
– E tu? Gostos de quadrados, numerados, bem arrumadinhos numa caixa.
– Gosto de ordem.
– Somos diferentes.

Afonso III, o Bolonhês

Afonso III, o Bolonhês, foi o Rei de Portugal de 1248 até sua morte, em 1279. Era filho de Afonso II e pai de D. Dinis, tendo sucedido a seu irmão Sancho II.
Ficou na história por conquistar Lisboa – passou para lá a capital – e o Algarve, passando a designar-se Rei de Portugal e do Algarve.

Mas a verdadeira revolução de Afonso III foi económica.
Dotado de grande capacidade de gestão, transforma a Coroa e os domínios régios numa autêntica empresa pré-capitalista, com economia monetária e de mercado. Usa técnicas pioneiras como a desvalorização monetária para aplicar impostos extraordinários, organiza o cadastro predial régio para cobrança eficaz de rendas, financia-se vendendo a cobrança de rendas, investe em meios produtivos como azenhas, lagares e casas nas cidades para arrendar, protege a pesca e as feiras para que não faltasse abastecimento e mercado livre, impediu a exportação de bens escassos no país como cereais e metais preciosos, obrigou as importações a passarem por portos onde a cobrança da dízima fosse eficaz, criou um posto de cobrança régia em Vila Nova de Gaia para arrecadar uma parte dos cobiçados rendimentos do Bispo do Porto, introduz o sistema monetário padrão libra usado no resto da Europa, intensifica o comércio externo no Atlântico Norte e Mediterrâneo.

D. Dinis herda uma administração régia bem organizada e com rendimentos assegurados.

Filía

Deixem-me lá escrever algumas sentenças sobre a amizade. Não se pode pedir amizade. Mas pode-se aceitar amizade. A amizade exige a aprendizagem do silêncio na presença do outro. No outro o amor e o bom silêncio são uma consequência de uma espécie de paz, a que alguns chamam felicidade. Toda a amizade é desinteressada, os favores são espontâneos e não têm conta corrente. A verdadeira amizade não exige presença, muito menos imposição física, mas o amigo real nunca adia uma pulsão de contacto e sabe ler os constrangimentos. O amigo nunca pesa, a amizade é um objecto leve, quântico. Os amigos nunca são numerosos, porque saber sê-lo é uma das mais raras virtudes animais. E pode-se ficar muito amigo de alguém num só dia, mais do que de muitos numa vida inteira. Precisamente por uma espécie de osmose ou leitura química dessa virtude.

#amizade #friendship #amitié #pedroguilhermemoreira

Design a site like this with WordPress.com
Get started