– Já te desiludiram?
– Muitas vezes.
– Zangas-te?
– Não. Saio.
– Sais para onde?
– Saio, simplesmente. Ausento-me.
– E dizes-lhes?
– Não. Saio calado.
– Mas isso não é sincero.
– Para quê ser sincero se me desiludiram?
– Podes estar a ser injusto.
– Sou cobarde. Não gosto de afrontamentos.
– És complicado.
– Poupo energia.
Grande demais
O único momento em que conseguia esquecer a sua condição era quando estava mergulhado nas águas do mar. Sabia que estava longe o suficiente quando os outros se assemelhavam a pequenas pontas de alfinetes. Nadava muito para lá da zona das ondas, onde podia relaxar e deixar-se flutuar, sem sobressaltos, acalmando o corpo e a mente. Ali era só ele e o sal marinho. A água salina segurava-lhe os pesos e fazia boiar os problemas. Só o frio era capaz de colocar um fim àquela breve e cúmplice relação. Esse incómodo haveria de o abraçar e abusar de todo o seu corpo até alcançar o areal. Chegava gelado. Hirto. Com os membros entorpecidos e o espírito rígido, estava de volta à sua sina. Saía da água como entrou, com os olhos dos outros cravados na sua singularidade. Ele, que sempre mirava em frente, era espiado de baixo para cima por numerosos torcicolos de espanto. Manuel era grande. Gigante. Grande demais, ouvia muitas vezes. E nem a natural curvatura que fora criando para caber nas portas e nos carros o fazia mais pequeno. Nas plateias podia dizer-se que havia um espaço “antes” e “depois” do Manuel: quem ficava no “antes” rabujava e havia até quem reclamasse o preço dos bilhetes; quem se encavalitava nos seus ombros usufruía do panorama, posto que não sofresse de vertigens. Do seu alto, Manuel sentia ventos que os outros não sentiam, bronzeava mais rapidamente e avisava sobre os primeiros pingos de chuva. Nos supermercados era muitas vezes requisitado para aceder às prateleiras superiores, limpava as janelas e podava quase todas as árvores dos vizinhos. Manuel falava com os pássaros, com quem se cruzava muitas vezes enquanto caminhava. Afagava os ninhos com carinho e até ajudava a compô-los quando rajadas de vento os desmanchavam. Os pais diziam-lhe que vivia com a cabeça nas nuvens e ele nunca percebeu se estavam a ser metafóricos. No inverno a mãe fazia-lhe umas meias grossas, com um cano muito alto, para proteger os pés que não cabiam em nenhuma cama.
Vivia com a dúvida de saber o que significava ser “grande demais”. Um dia, Manuel foi consultar um padre, que o aconselhou um médico, que o orientou para um psicólogo, que lhe sugeriu falar com um amigo, que lhe recomendou um padre…
Foi só no mar que percebeu que ser grande não é um problema. O mar é grande, mas nunca demais, e Manuel é como ele: cabem nele aqueles que quiserem flutuar e usar do seu sal marinho para aliviarem os seus problemas. Só a frieza instilada pode enfraquecer a grandeza de Manuel.

Maresia #2320
Sete músicas por semana, uma por cada dia, vinte a trinta minutos de emoção.
Créditos no Spotify.

Amizade
– Quando gosto de uma pessoa digo-lhe, abro-me, conto-lhe tudo, humilho-me.
– Humilhas-te como?
– Desproporciono a relação. Não sei se sou correspondido. Sujeito-me ao cinismo.
– Isso pode ser mesmo muito mau.
– Mas gosto desse risco. Arriscar é viver. Como posso descobrir os outros se não lhes mostro como sou?
– O bom ou o mau de ti?
– Todos nós mostramos só o bom, voluntariamente, mas ninguém consegue esconder o mau, todo o tempo.
– Já fizeste amigos, assim?
– Não sei. Não passou tempo suficiente.
Arco-íris
– Gostas do arco-íris?
– Porque é que não havia de gostar?
– Sei lá! És sempre tão pragmático. Se não é útil não existe.
– Mas também não prejudica. Está lá, não chateia e é bonito. E nem reparo. Tenho coisas mais importantes com que me chatear.
– Tens de levantar a cabeça, ver o sol, a chuva, as nuvens, os montes, orientares-te na paisagem, ver a sequência dos elementos, os cheiros, a luminosidade…
– Também queres que vá atrás do pote de ouro?
– E o que é a nossa vida, senão isso?
Kubrick
“A film is – or should be – more like music than like fiction. It should be a progression of moods and feelings. The theme, what’s behind the emotion, the meaning, all that comes later.”
-Stanley Kubrick

Maresia da semana #2319
Uma vaidade, uma missão, uma presunção, uma fraqueza. Sete músicas por semana, uma por cada dia, vinte a trinta minutos de emoção.
Cada uma delas fez-me parar e desviar da rotina. Não interessa a ordem, não são novidade, não são as melhores, não precisam de descrição ou explicação, valem por si.
Os créditos estão todos nos spotify.
https://open.spotify.com/playlist/6vDckEVIladDbtHe7OYYZB?si=NuOfz0tdSyqF6a-Sb7VPBw

Escrever para ti
– Escreves para quem?
– Escrevo para mim.
– Porque escreves, se é para ti? Não basta a memória?
– Escrevo para mim no futuro.
– Mas se calhar não vais estar cá para ler.
– Quem me lê, agora ou depois, já está em mim no futuro.
Fotografia
A memória é feita de imagens fixas. Daquele almoço que nos marcou, guardamos um sorriso, um desafio, uma inquirição, a emoção de um olhar marejado. Momentos, instantâneos, paragem na uniformidade do universo. Tempo.
O nosso cérebro enquadra o que lhe interessa, desinteressa-se do redor, cria uma fantasia de atenção, um rectângulo na paisagem, como se mais nada fosse importante. Espaço.
Sempre que revejo as minhas fotografias, volto àquele sítio, àquele dia e hora, sinto o calor, o frio, a alegria ou o medo, revivo o meu. Propriedade.
Sempre que vejo as dos outros, de sítios onde nunca fui, sinto-me à janela de um comboio ou a ver televisão. Informação.
Estranho ver fotografias de outros do meu ambiente quotidiano, familiar. Ver o meu território retratado com outro cuidado, outra perspectiva, outra luz, outra atenção, outro instantâneo. Vejo coisas que não vi, sempre estiveram lá, estão lá. Sinto-me nos olhos do outro, no espírito. Comunhão.
Terra de brumas
Os primeiros hominídeos chegaram à Europa há mais de um milhão de anos, do leste, do Cáucaso e Ásia Menor, de passagem vindos de África, em várias levas até à última, a do homo sapiens há cerca de 50.000 anos.
A Europa ocidental desse tempo, em plena Idade do Gelo, era muito diferente do que é hoje. A calote polar, de gelos permanentes, cobria toda Escandinávia, norte da Alemanha e Grã-Bretanha, o Canal da Mancha atravessava-se a pé, os invernos eram rigorosos a norte dos Alpes e Pirinéus, a Serra da Estrela cobria-se de neves eternas e o vale do Zêzere era um extenso glaciar.
Em busca de caça e fruta selvagem, de paragens mais amenas, pequenos grupos nómadas, de neandertal e sapiens, marcharam para ocidente, chegaram ao fim da terra, assentaram e deixaram vestígios de Altamira ao Lapedo ou Foz Côa.
Não sabemos como se organizavam nem comunicavam, mas imagino que, olhando o céu em noites límpidas de lua nova, a Via Láctea surgiria como um apontar do caminho para lá do sítio onde o sol se põe, alimentando o mito do fim da terra e do recomeço.
No século I AC, os sofisticados romanos chegaram ao noroeste da península ibérica, pelo mesmo ancestral caminho leste-oeste, e encontraram uma população tribal, organizada em castros, guerreira e orgulhosa, com forte sentimento místico e religioso, numa costa pejada de santuários pagãos em quase todos os cabos e promontórios. A mais famosa divindade seria Lugus. Tinha um muito requisitado e visitado altar pagão, diz-se que no mesmo local onde viria a ser construída a catedral de Santiago de Compostela.
No século IV surgiu na Galécia, província do império romano já cristão, coincidente com a actual Galiza e norte de Portugal, com capital em Bracara Augusta, um movimento religioso liderado por Prisciliano de Ávila.

O priscilianismo era uma forma de gnosticismo cristão que enfatizava a importância do conhecimento espiritual e da experiência pessoal acima da estrita adesão à doutrina tradicional da igreja. Prisciliano pregava que o mundo material era mau e que somente se poderia alcançar a salvação por meio de conhecimento e esclarecimento.
Defendendo que a espiritualidade podia ser encontrada em experiências pessoais e na natureza, Prisciliano foi atraído, pela sua curiosidade, ao santuário de Lugus, na cidade de Iria Flávia. Lá, terá realizado uma cerimónia religiosa, bastante assistida, que envolvia uma fogueira. Alguns estudiosos acreditam que pode ter sido um precursor do culto do Botafumeiro, um objeto litúrgico utilizado ainda hoje na catedral de Santiago.
Os ensinamentos de Prisciliano eram controversos e no ano 380 foi excomungado por um sínodo de bispos em Zaragoza. Mas como recusou a decisão e continuou a pregar as suas crenças, a excomunhão deu-lhe ainda mais atenção e notoriedade, tornando-se uma proeminência da cristandade ibérica.
Em 385 foi acusado de feitiçaria e heresia e levado perante o imperador Maximiano, na cidade de Tréveris, actual Trier, Alemanha. Apesar dos protestos do Papa Sirício e de vários clérigos e teólogos, como Martinho de Tours, foi considerado culpado e Maximiano decretou a sua decapitação imediata e de vários dos seus seguidores mais próximos. Posteriormente, seus corpos terão sido levados para Ávila ou outra cidade da Hispânia. Não se sabe.
O priscilianismo continuou a ser um movimento controverso e perseguido durante os séculos seguintes, atraindo seguidores à Galécia, entretanto sueva, visigoda e leonesa, apesar da aura de paganismo e heresia e do esquecimento a que foi votado pela igreja romana.
Por esse tempo corria também a lenda de Santo Iacobus ou São Tiago, o apóstolo. Martirizado na Jerusalém do século I, seu corpo terá sido depositado num barco de pedra, atravessado todo o Mediterrâneo, rumado a norte, no Atlântico, e chegado às costas da Galiza.
Numa noite do século IX, Paio, ou Pelayo, o Eremita, avista uma luz brilhante a pairar no bosque de Libredón, nos arrabaldes da velha povoação romana de Iria Flávia. Alertado, o bispo Teodomiro deslocou-se ao local e descobriu um sepulcro de pedra onde repousavam três corpos, que identificou como sendo de Santiago Maior e de dois dos seus discípulos Teodoro e Atanásio.
Numa época de reconquista cristã e forte fervor religioso, o Rei Afonso II das Astúrias torna-se o primeiro peregrino de Santiago, manda construir a catedral e funda a cidade de Santiago de Compostela, tornando o apóstolo o padroeiro da sua causa e futuro padroeiro de Espanha.
Em 1875, o arcebispo Miguel Payá Rico decide realizar um rigoroso estudo arqueológico, sob a direção dos historiadores López Ferreiro e Labín Cabello, aos restos mortais que, segundo a tradição, estavam sepultados sob o altar-mor. Em 1879 encontraram um ossário e conseguiram reconstruir os esqueletos do que seriam os restos do apóstolo e seus dois discípulos.
Em julho de 2013, um grupo de especialistas da Universidade de Santiago de Compostela voltou a investigar os restos mortais com técnicas de datação por carbono e análises antropológicas. Embora os resultados tenham sido dados como inconclusivos, mostraram compatibilidade com a datação do século I, idades entre 35 e 45 anos de idade, mas pouca probabilidade de serem originários do médio oriente.
Não sabemos quem está lá sepultado, nem todos os caminheiros saberão porque lá vão, mas basta olhar o céu límpido de uma noite de lua nova para nos orientarmos no milenar caminho de despojamento e renovação, que nos leva à contemplação do pôr do sol atlântico de brumas e maresia, que nunca me cansa.