Armando entusiasmava-se com os outros, interessava-se, preocupava-se e cuidava, mas era só se fosse solicitado ou estimulado para reagir. Quando se lhe dirigiam diretamente ou faziam algo que lhe chamasse a atenção, acionava o seu mecanismo social-afectivo e brilhava na fatuidade do momento, com evidentes vantagens pessoais, profissionais e políticas. Mas se estivesse distraído eContinue reading “The Man Machine”
Author Archives: Rui Rodrigues
Maresia #2330
Sete dias, sete músicas
As primeiras palavras
“A luz rotunda do amanhecer tropical, filtrada pela janela, caía como um foco teatral projetado na parede de onde pendia o calendário, com as suas doze quadrículas perfeitas distribuídas em quatro filas de três retângulos cada.” A Transparência do Tempo, Leonardo Padura
Twist
Reformar a nossa vida é como fazer um bolo.Temos ovos, farinha, açúcar e fermento, queremos um bolo saboroso, mas não sabemos ao certo como fazer, não queremos ter trabalho, não nos queremos sujar, e, principalmente, não queremos correr o risco de o bolo sair mal e ficarmos sem ovos e sem bolo.
Património
Olhou-me no olhos e disse-me sentir um enorme vazio. Não percebi porquê. Comparado com a minha, tem uma vida preenchida de trabalho, filhos, netos e uma mulher bonita como eu nunca tive. O olhar continuava vazio. Ficamos longos minutos em silêncio.– Estou velho, disse-me.– Isso é bom, tens saúde, experiência, memórias boas, respondi.– Já nãoContinue reading “Património”
Contador
A tua vida é um contador indiano cheio de gavetas, umas maiores, outras mais pequenas, algumas com chave. Guardas tudo o que passaste e que te lembras. O que não te lembras também está lá, mas no fundo, por baixo do que consegues ver, às vezes maior e mais pesado do que pensas, custa aContinue reading “Contador”
Ginasta
Sonhei que era um ginasta na barra fixa, aquela barra horizontal a dois metros e tal do chão. Rodopiava, girava, largava, voava, agarrava, voltava a girar, sem parar. A barra era um enorme nariz de Pinóquio.
Cidades
A cidade é encontro e renovação. As pessoas vêm e vão, as gerações mudam, as paredes ficam. Os velhos desaparecem sem darmos conta envergonhados pelo desinteresse a coberto do recato que pretendemos manter, mas chegam novas gentes, famílias, crianças, hábitos, ruídos, sotaques. Mudam cortinados, candeeiros, pinturas, jardins, novos carros à porta. Surgem comércios, forasteiros eContinue reading “Cidades”
Maresia #2329
Sete dias, sete músicas
Fotografar
“Ela descobrira este impulso contrário em si mesma no casamento da prima Charlotte, aquele trabalho gratuito em 1955 que se tinha tornado uma exuberante orgia de três horas e meia de fotografia frenética, à medida que ela girava pela multidão, liberta das restrições da preparação laboriosa e mergulhada num rodopio de composições velozes, uma fotografiaContinue reading “Fotografar”