“Não sejas abnegado, não gosto, fica-te mal”, disseste-me secamente quando, mais uma vez, te cedia o melhor lugar.“Não sejas abnegado” ficou-me horas na consciência. Fui procurar a definição exacta. Conheço a palavra mas não me lembro de a ter usado uma única vez. Abnegação, auto-sacrifício altruísta, acto de renunciar a algo em benefício de outraContinue reading “Abnegação”
Author Archives: Rui Rodrigues
Ida e volta
Se a fazes rir, estás no bom caminho.Se ela não pára de rir, verifica se não é tonta.Se ela não pára de rir e não é tonta, olha por ti abaixo. Deves ser a piada.
O estado de nós
Os Estados são criações humanas, artificiais, e, como tal, refletem as qualidades, os defeitos, os anseios e os riscos das relações individuais. Quando os Estados têm de partilhar o mesmo espaço geográfico ou económico, partilhar recursos, riscos e oportunidades, dialogar e interagir por obrigação, surgem tensões que se acumulam continuamente. As relações entre as pessoas,Continue reading “O estado de nós”
Trapézio
A vida é um trapézio e cada um nasce com o seu. Mais alto ou mais baixo, com rede ou sem rede, frágil ou robusto.Quando somos jovens, ensaiamos os nossos números, garbosos, com as lantejoulas a resplandecer os focos da atenção. Os mais destemidos arriscam e quando falham caem na rede tecida desde a nascença.Continue reading “Trapézio”
Maresia #2327
Sete dias, sete músicas
Hipnagogia
Cansado e nervoso da tensão do dia e da sucessão de noites mal dormidas, deitei-me na cama, vestido sobre a roupa, e cruzei os braços sobre a cabeça, procurando alívio na pressão da dor latejante, do pulsar nervoso do cérebro contra o crânio. A cervical doía-me, perra como se faltasse lubrificação. Não conseguia dormir, esgotado,Continue reading “Hipnagogia”
Paul Auster, “4321”, capítulo 2.2
“Li três livros desde que cheguei”, escreveu ele na última carta, que datava de 9 de agosto, “e achei que eram todos fantásticos. Dois deles foram-me enviados pela minha tia Mildred, um pequeno de Franz Kafka chamado A Metamorfose e um maior de J.D. Salinger chamado À Espera no Centeio. O outro foi-me dado peloContinue reading “Paul Auster, “4321”, capítulo 2.2″
Livros
O livro das nossas vidas está cheio de passagens pintadas de preto, como aqueles documentos classificados como secretos, quando tornados públicos, com nomes e locais tapados. Há por aí livros imaculados, mas eu só perco tempo com boa literatura.
Felicidade
Felicidade também é gestão de espectativas.O idiota é feliz porque não tem espectativas. Um rebuçado sabe-lhe como um banquete. Não és idiota, mas às vezes pareces. Não porque não tenhas espectativas, mas porque as tuas são tão altas que nunca as vais atingir, por falta de talento, mas também porque não acontece aquela conjugação espetacularContinue reading “Felicidade”
Silêncios
Os silêncios abrem feridas que, mesmo cosidas com desculpas, deixam cicatrizes para todo sempre.