A última curva abria a paisagem sobre a vila de pequenas casas, de chaminés negras de fuligem da queima da hulha, emparedadas a tijolo vermelho e geminadas em ruas de habitação de mineiros, operários e ferroviários, entrecortada pelo brilho dos carris reluzentes na linha do comboio que saía do túnel escuro até se perder noContinue reading “Josefina Madeira . 25”
Author Archives: Rui Rodrigues
Deixa lá!
12.“…Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância,Continue reading “Deixa lá!”
Famintos
Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos. “Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa voltaContinue reading “Famintos”
Rio de Janeiro
Ao amanhecer do dia 1 de janeiro de 1502, os três navios da pequena frota capitaneada por Gaspar de Lemos entravam na embocadura de um enorme rio de águas salgadas.A euforia instalava-se entre a cansada mas esperançosa tripulação. Tinham largado a barra do Tejo, em março, com a missão de aportar as Terras de VeraContinue reading “Rio de Janeiro”
Conto de Natal
Escreviam horas por dia, ele à janela, ela junto à lareira, num silêncio sereno de rotinas simples de quem se aceita e compreende, como se fossem de um para o outro desde o início, de refeições simples e prontas servidas da dispensa e do frigorífico, abastecidos em tempo quando decidiram recolher-se na montanha nevada, noContinue reading “Conto de Natal”
Terapia
Seis meses de viagem à volta do mundo, de cores, ruídos, desilusões e deslumbramentos, longas horas de ligações, caminhadas, refeições, esperas e corridas, e o descanso entrelaçado, pele a pele, ao fim do dia, sem vergonha de mostrar como se é, nem tenção de exibir o que nunca se será, num suar relaxado de medos,Continue reading “Terapia”
Amen
Quanto a religião, definitivamente sou abstémio.
Bum!
A paixão é tão fácil de acontecer como impossível de segurar, na reacção química exotérmica e explosiva, inevitável, aquando da combinação certa dos reagentes em atmosfera adequada.
Sofia . 2
Pedro não era corajoso o suficiente para dominar a aleatoriedade da vida, nem homem de fé para resignar-se tranquilamente ao desígnio de uma amada entidade superiora, aceitando as orientações impostas por opções e prioridades alheias. Mas não se deu sempre mal. Os seus sucessos eram justamente invejados, mas sentia-se sempre a reacção de outros actores,Continue reading “Sofia . 2”
Vazio
Houve um tempo que os bancos ocuparam os cafés na indignação de Manuel António Pina, mas agora o vazio enche-os no intervalo de fugazes imobiliárias de bairro e postos quase móveis de colecção de análises.A cidade esvai-se.