Era um mundo diferente do que ele conhecia. Na verdade, além de Josefina, Sebastian não lidava com pessoas mais novas, e a realidade portuguesa, onde ele tinha vivido nos últimos seus anos, era muito diferente da que se lhe deparava agora. Chegara a Manchester ao fim da tarde, de um dia cansativo de chuva eContinue reading “Josefina Madeira . 24”
Author Archives: Rui Rodrigues
Sofia.1
Todos os dias, ao passar das sete horas, sentia o focinho húmido de B no seu braço. Mesmo que estivesse acordada, deixava-o satisfazer o despertar, recompensado com afago apreciado com mimo.D era o primeiro a querer sair, junto à porta. Sério, sem olhar diretamente, orgulhosamente dissimulado.A era o mais fiel e monótono. Sentado, grande, olhava-aContinue reading “Sofia.1”
Josefina Madeira . 23
Sebastian saiu cedo, depois do pequeno almoço combinado, tratado e pago de véspera.Quando desceu, às sete horas, tinha mesa posta só para si. Deveria ser mesmo o único hóspede desse dia. Deu sinal de si à miúda de ar tímido, atrás do balcão, que mal balbuciou “ Good morning!”. Sentou-se por indicação dela, aguardou unsContinue reading “Josefina Madeira . 23”
Um dia vamos deitarmo-nos lado a lado de mãos dadas, testa com testa, e vamos partilhar todos esses sonhos e medos que nos tolhem, que guardamos por indecisão, vergonha, ou falta de coragem.
O mar
“O mar sempre o atraíra como um íman. Ver o oceano, apreciar sua cor e o seu cheiro, o seu mistério insondável, transmitiam-lhe enorme sensação de empatia e de descontração. De promessas de liberdade, mais do que de limite e de encerramento. Durante anos, há muito tempo, quando sonhava mais frequentemente com a possibilidade deContinue reading “O mar”
Um sábio muito entendido em tragédias e livros
“Havia na mesa um homem sábio e de bom gosto, que apoiou o que a marquesa dizia. Falou-se em seguida de tragédias. A dama perguntou por que razão havia tragédias que eram representadas algumas vezes, mas que ninguém conseguia ler. O homem de bom gosto explicou muito bem como é que uma peça podia terContinue reading “Um sábio muito entendido em tragédias e livros”
Os livros são como as pessoas
Os livros são como as pessoas. Há os solenes, os de capa rija, os flexíveis, os de bolso, os ilustrados e chamativos, os rudes e ásperos, os pesados de folhas grossas em contraste com os de papel fino quase transparente, os velhos e desgastados, os que perdem brilho, os maltratados, vincados e sublinhados ou manchadosContinue reading “Os livros são como as pessoas”
Josefina Madeira . 22
O cargueiro acelerava para norte, deixava o conforto da costa e lançava-se no escuro Atlântico adentro, rompendo as vagas, em sucessivas explosões de espuma. Sebastian agarrava a amurada e olhava o horizonte. Finisterra, fim da terra, fim do mundo romano, terra de Santiago, de Pelayo, dos reis de Leão, de nevoeiro, morrinhas e bruxas, deContinue reading “Josefina Madeira . 22”
Romancista como vocação
“Na vida, todos tivemos uma fase em que queríamos ser cool. Pouco antes de acabar o secundário, tomei a decisão de expressar apenas metade do que sentia. Já não me lembro do que me levou a isso, mas, nos anos que se seguiram, pus a minha teoria em prática. Um belo dia, descobri que meContinue reading “Romancista como vocação”
Josefina Madeira . 21
Acordou com uma ligeira dor de cabeça. Nada a que não estivesse habituado, nem que não se resolvesse. As réguas venezianas da janela, a nascente, filtravam a luz do sol da manhã de verão, refratada nas ondas da cortina branca transparente.Ligeiramente indisposto, mas com uma sensação agradável. Como se estivesse bem, correu bem, passou bem,Continue reading “Josefina Madeira . 21”