Não se encontram todos os dias porque ele não lhe quer parecer mal e ansioso, preservando a estabilidade que guarda de si e que julga ser a mostrada aos outros, não suspeitando que, a um olhar mais atento, revela-se um homem sensível e vulnerável, camuflado na presunção de pairar acima de convenções, expondo-se na formaContinue reading “Um tonto”
Author Archives: Rui Rodrigues
Josefina Madeira . 20
Josefina divertia-se a ouvir a descrição da vida de várias gerações, passadas e futuras, do século dezanove ao século vinte e um, encadeadas como se o mundo fosse um contínuo temporal de tarefas e desafios, trabalhos herdados e deixados, em que nenhuma se podia gabar do êxito sem se lembrar e agradecer a todas asContinue reading “Josefina Madeira . 20”
Algarve
“A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a soteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a soteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que éContinue reading “Algarve”
As Berlengas
“Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado governador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. SóContinue reading “As Berlengas”
Josefina Madeira . 19
Já passava das quatro da tarde, quando desciam para a adega no silêncio do cansaço da longa jornada.Desde manhã cedo, fizeram praticamente o mesmo percurso de cinco anos antes, com as mesmas paisagens, as mesmas subidas e descidas, paragens, apontamentos, fotografias, mas, agora, os horizontes alargavam-se, os limites estendiam-se, a quinta tinha quase o dobroContinue reading “Josefina Madeira . 19”
Passear, rir, contar histórias, aquecer, chorar, incentivar, apoiar, proteger e zangar, também.Apaziguar, aproximar, apertar, suar e adormecer.Voltar a passear e a rir, de mão dada.Viver, sonhar.Contigo.
Mais cedo ou mais tarde
Não sendo catastrofista nem apóstolo do fim dos tempos, vejo chegar o momento em que dificilmente avançaremos sem deixar alguns para trás. A luta contra a globalização, a coberto do combate ao capitalismo e na defesa da classe operária confortada do ocidente, pretendia condenar os milhões do terceiro mundo à mendicidade piedosa e à pobrezaContinue reading “Mais cedo ou mais tarde”
Rua 10 de Março
Cada cidade tem a sua rua de restaurantes, competindo avidamente pela freguesia.Tuga não foge à regra. À entrada da rua 10 de Março, na esquina do lado esquerdo, fica o maior e mais bem sucedido restaurante da cidade, o Rosa.Dois andares, amplo salão, um histórico, agora com nova gerência, liderado pelo jovem Pedro, cheio deContinue reading “Rua 10 de Março”
Josefina Madeira . 18
“-Mãe! Vou estar fora dois ou três dias no final da semana. Tenho de ir à quinta dos patrões, organizar coisas.”“-Sim, filha. Vai.”“-Vou com Sebastian.”Maria continuou na sua lide, como se não desse atenção.“-Ele, depois, vai para Inglaterra, dois ou três meses, tratar de coisas dele, e vai deixar-me a cuidar do armazém.”A filha jáContinue reading “Josefina Madeira . 18”
Josefina Madeira . 17
As ruas da cidade enchiam-se na noite mais curta de ano, a do início do verão, a noite de São João. Fogareiros à porta, sardinhas e febras das brasas para fatias de broa, vinho a jorrar de garrafões para malgas e canecas brancas, preparavam a noitada de rusgas, saltos à fogueira e alhos porros, ervaContinue reading “Josefina Madeira . 17”