Josefina Madeira nasceu como a mais nova de cinco irmãos, num pequena casa com duas janelas, no número 52 da Rua Direita, tão torta como todas as Direitas.
Desde cedo, antes de ir à escola e ainda mal falava, ficara só com a mãe. Num dia de dezembro, o pai, sapateiro, não voltou da oficina. Encontraram-no caído, em cima do formão, e essa noite já a passou na igreja, entre velas e carpideiras. Se o Natal já era pobremente celebrado naquela casa, passou a ser pouco mais do que um feriado.
Em poucas semanas os irmãos, mais velhos e todos rapazes, zarparam de casa em busca de trabalho e vida mais digna. Dois rumaram para França, para as obras do país em progresso, outro embarcou para África, em busca de fortuna com o ofício aprendido a ajudar o pai, pensando que por que lá não andariam todos descalços e haveria muitos pés por calçar, não seguindo os irmãos por teimosia de desavenças antigas. O mais novo, com sonho de artista, alimentado pelo cinema que projetavam na praça do fim da rua, no verão, e pelos relatos que lhe faziam da vida no Parque Mayer, apanhou o comboio para a capital, cheio de planos e promessas de regresso triunfal.
Algumas portas acima de sua casa, abria-se à rua a Pensão Minho, com ampla sala de refeições, com especialidades minhotas e galegas, e confortáveis quartos de hóspedes, segundo se lia na placa metálica afixada ao lado da entrada. Mantinha sempre razoável freguesia, não descurando a proximidade à estação de comboios, que todos os dias libertava passageiros cansados de viagem necessitando de descanso e conforto do estômago.
A gerência e propriedade do estabelecimento pertencia Manolo Peleteiro, galego que viera em jovem com seus pais instalar-se na cidade, primeiro como aguadeiro e depois como estalajadeiro, aproveitando o talento ao lume de sua mãe, entretanto já falecida, como seu pai também já havia, num investimento que muita inveja e má língua criou nos filhos da terra, tudo sobre as dúvidas na origem dos fundos.
Tamanho movimento no estabelecimento necessitava de roupa lavada todos os dias, fossem toalhas de mesa, de banho, guardanapos ou lençóis de cama. Já desde o tempo em que a mãe de Josefina era solteira, Manolo recorria às mulheres da vizinhança para lhe lavarem e burnirem a roupa no ferro a carvão. Com a viuvez de sua mãe, que tanto sensibilizou as gentes, Manolo passou a dar-lhe preferência, com trabalho o dia todo, ajudando a criar a criança.
Desde cedo, Josefina, quando não estava na escola, acartava lençóis e toalhas à cabeça, sujos, da pensão ao lavadouro, e lavados, em sentido contrário. Estendia os molhados no arame, recolhia os secos e empilhava-os, toscamente dobrados, junto à prancha de engomar.
Depois da roupa do dia lavada, a mãe de Josefina acendia o carvão, carregava-o no ferro engomadeiro e passava o resto da jornada a entesar e dobrar com afinco os secos da véspera e dessa manhã.
O negócio de Manolo progredia. O forte era às segundas, dia de feira, mas qualquer dia era bom. A torta rua Direita ligava a estação de caminho de ferro, à cota alta, ao cais fluvial, lá em baixo. Todos os dias circulavam pequenos camiões, carroças e carros de bois, para um lado e para o outro. As mercadorias que fluíam dos montes, vales e campos, pelo rio abaixo, desembarcavam no cais e subiam a rua, até à estação, para depois seguirem para a capital e outras paragens. As novidades da cidade grande, maquinetas e bugigangas, chegavam à estação, trazidas por vendedores de toda a espécie, que também tinham de descer a rua até apanhar o barco para as terras altas, Nem todas as carroças, carros e bois paravam na Pensão do Manolo, mas de tamanho movimento sobrava sempre algum esfomeado, um sedento de um bom verde, ou um mais estafado ansioso por bom colchão de lençóis lavados.
Nesta rotina de escola e acarto de roupa, Josefina fizera a quarta classe. Por ser espertinha e curiosa, e por insistência da professora, a mãe acedera em deixá-la estudar mais dois anos, a ver o que dava. Pelo entender da professora, tínhamos moça para muito mais do que esfrega de roupa.
Entretanto Josefina fizera-se uma jovem mulher de beleza que se destacava entre as outras moças das redondezas. O corpo despontava bem na inocência desajeitada dos treze anos acabados de fazer e nem reparava nos olhares mal disfarçadamente lascivos que homens menos escrupulosos lançavam. E a coisa falava-se.
Um dia, descia os degraus a meio do corredor estreito que dava acesso ao pátio traseiro da pensão, onde estendia a roupa a secar, e cruzou-se com o velho Manolo Peleteiro. Velho para ela, claro. Ele viria da adega, cuja porta de entrada era pelo pátio. Muitas vezes ia ele à adega, contar garrafas e ver o nível aos tonéis, segundo dizia, mas o hálito revelava mais do que medições. Ao cruzarem-se nessa meia dúzia de degraus, ela chegou-se o mais que pode à parede, com a deferência devida ao patrão dificultada com a trouxa nos braços. Mas ele encostou-a ainda mais à parede e ela sentiu o vigor de uma mão firme apertar-lhe no meio das pernas.
O susto, a dor, o sobressalto, o medo, mas essencialmente a surpresa, não a deixaram falar. Não emitiu qualquer som. Ele manteve os dedos hirtos mais uns instantes, longos de mais, e disse “Estás a ficar no ponto!”. E seguiu caminho, a cheirar os dedos. Ela, por instinto, conseguiu equilibrar a trouxa e saiu-lhe da boca a exclamação estúpida de quem não percebeu bem o que lhe aconteceu: “Desculpe, senhor Manolo!”.