Josefina Madeira . 4

Cada quinta tem as suas leiras e socalcos, com diferentes químicas, morfologias e videiras de várias castas. Cada cesto das vindimas é identificado consoante a sua origem e qualidade, para que, na vinificação, os enólogos saibam do que dispõem para produzirem os melhores vinhos.
A trabalho de Sebastian começa quando o vinho passa das cubas de aço inoxidável para os barris de madeira, no seu primeiro inverno, ainda nas quintas. A cada barril é atribuído um código que identifica o ano, a casta e a origem exacta, que é marcado a fogo, nos dois tampos das barricas. Sebastian faz o registo de todos os barris, o que contêm, onde estão, e providencia e organiza o transporte rio abaixo. Mais tarde, após envelhecimento em madeira, entrega-os aos serviços de engarrafamento e expedição, consoante os pedidos comerciais. A segurança do armazenamento também é da sua responsabilidade.
Chegara de Inglaterra no verão do ano anterior, mesmo a tempo de assistir às vindimas, para substituir outro inglês que, após tantos anos de serviço, começara a cometer erros inadmissíveis e fora deslocado para funções comerciais, onde, com certeza, faria boas demonstrações para clientes, a ver pelo talento mostrado a beber.
Sebastian não tinha experiência de trabalho mas tivera formação de gestão logística. O trabalho era metódico, de responsabilidade e de confiança, mas não era difícil. Os Richardson pretendiam alguém muito próximo para gerir e guardar o seu maior valor: o vinho armazenado.
O primeiro passo era identificar as barricas. Antes marcava-se o nome da quinta, a vinha, a casta e o ano, em cada pipa. Agora, Sebastian adotara uma código de quatro letras e quatro números que só ele e a administração conheciam. Se houvesse roubo, ninguém saberia o que levava.
Outra medida foi criar um mapa tridimensional das pilhas de barricas, com coordenadas exatas, de forma a localizar cada pipa, dentro do armazém, em x, y e z. Quando lhe pediam um determinado vinho para engarrafar, ele sabia exatamente onde estava.
Outro cuidado foi a disposição na planta do armazém. Os vinhos que se vendiam com menos anos, lotes com mais rotação, eram colocados mais perto da porta, ou pousados por cima dos que passavam mais anos em repouso.
A forma como se empilhavam também era importante, para se aceder aos batoques, que deveriam estar sempre para cima, para testes ou inspeções.
A chegada de Sebastian provocou alvoroço entre o pessoal, pelas novidades, novos métodos, mas impôs-se pelo conhecimento e autoridade, assinaláveis para a sua juventude.

Voltando ao nosso dia, Sebastian dispensou a presença de Ernesto e chamou Josefina para entrar para o, que ela ficou a saber ser, seu gabinete. Uma sala grande, retangular, com um luxo que surpreendeu e até assustou. Enquanto ele procurava e remexia alguns papéis, de pé, numa mesa encostada à parede, ela observava atentamente.
Uma secretária grande, de madeira preta trabalhada, com canetas, aparos, frascos de tinta e uma máquina de escrever, uma cadeira grande, também de madeira preta trabalhada, com assento e encosto forrados a tecido vermelho. O tapete em tons de vermelho e preto, a condizer, trazido do oriente. As paredes apaineladas a madeira escura, abafavam os ruídos do armazém e da rua. Uma salamandra apagada, no canto, junto à janela, com marcas de muito uso. Vários retratos, nas paredes, de homens de outras épocas, pelas roupas e penteados. Alguns fardados. Uma parede forrada a livros, grandes, de capas grossas de couro. A janela a abrir para a pequena varanda, virada ao rio. Por causa do desnível do terreno, estava-se no primeiro andar, sobre a rua marginal e o cais. O rio cheio de barcos. Os do vinho, do lado de cá, e os carvoeiros e outros, do lado de lá. Alguns manobravam a meio. Do outro lado, escalava o casario da cidade, da ribeira até à Sé, enquadrado pela ponte de dois tabuleiros. No cais misturavam-se marinheiros, vendedeiras de ocasião, carrejões, alguns pequenos camiões e carros de bois. Vista era privilegiada pela beleza, mas também pelo controlo que permitia sobre o tráfego do rio.

“-Muito bem! Trabalho é simples”, disse ele virando-se para ela, falando em português com sotaque cerrado. “-Quero que sejas meus mãos e olhos no monte de vinho, ali. Tenho fazer checkings de tudo. Se há leaks, se está well fixed. Se preciso abrir barril lá cima, para tirar samples, tens de ir.
Sabes ler e escrever. Isso importante para confirmar batchs e fazer reports.
Aqui, documents todos inglês. Vocabulário simples. Eu ensino. No problem.
Antes, boy fazia trabalho. Contava mal, copiava pior. Made a lot of mistakes. I hope you are smarter.”

“-I hope so, Mr. Sebastian”, disse ela em voz baixa
Ele arregalou os olhos.

“-Come on, with me”, disse, pegando num bloco de papéis com mola, voltando-se para a porta e avançando pelo armazém, em passo acelerado.
Ela reparou que ele coxeava ligeiramente, mas, mesmo assim, andava rápido.
“-Este teu trabalho. Tens trepar como gato, subir escadas ali. Se preciso, descem-te with a rope, com roldana”, disse apontando para o teto. “Parece tens bom phisical shape. Aqui não preciso força. Enough habilidade e destreza. Inteligência, responsabilidade, also.
Hoje no time. Amanhã aqui oito horas, para primeiro trabalho. Vens direta meu office. Vou dar ordem para entrar livre. Tua roupa não proper para isto. Vou arranjar some to fit”, disse ele notando que ela estava de vestido e sobretudo.
“See you tomorrow, eight o’clock!”

“-Thank you, Mr. Sebastian. Till tomorrow”.

Chegou a casa e contou à mãe. Ela ficou satisfeita por ver a filha com trabalho, mas não percebeu muito bem o que é que Josefina ia fazer, nem com quem. Era um inglês? Não deveria haver problema. Estava lá o Ernesto, que era de confiança.
Josefina mal dormiu nessa noite. Parecia tudo irreal. E podia não ser verdade. Nessa manhã, o melhor que ela contava era com um trabalho de grupo, de limpezas, no meio do de outras mulheres, lavar garrafas ou varrer chãos, a mando do Ernesto. Agora tinha-lhe surgido esta oportunidade de melhor trabalho, dos que eram reservados para os homens e para os rapazes.
Ela nunca tinha falado com uma pessoa como o Sr. Sebastian, nem nunca tinha estado numa sala tão bonita e luxuosa como o gabinete dele. Tivera medo, é certo, mas ele dava-lhe confiança, embora mal lhe olhasse e falasse sem parar. Também percebeu que era muito exigente. Se falhasse, dispensá-la-ia como terá feito a outros, antes.
O trabalho não parecia difícil. Ela sempre fora maria-rapaz, a subir às árvores e aos telhados, e a saltar da ponte com os rapazes, no verão. As pipas parecem-lhe fáceis de trepar. Sabe de contas, escreve sem erros.
Adormeceu.

No dia seguinte, faltavam alguns minutos para a hora, entrou no armazém, passou pelo Ernesto, que olhou para ela com um misto de satisfação e apreensão. Era sempre um risco propor pessoas para um trabalho.
Às oito em ponto, batia à porta. Ouviu uma voz lá de dentro, não percebeu o que disse, mas pareceu que era o assentimento para entrar.
Sebastian estava sentado à secretária, a escrever à máquina. Já tinha meia dúzia de folhas escritas. Pediu-lhe para aguardar uns minutos. Ela ficou de pé, em frente, a olhar para os barcos no rio, pela janela.

“-Alright. Done!”
Levantou-se e dirigiu-se para a mesa do canto, onde havia vários papéis desdobrados e alguns livros, grandes, como os das estantes, abertos.
“-Vou mostrar o que temos aqui e como está organizado.”

Nas horas seguintes, Sebastian mostrou-lhe a planta do armazém, a distribuição dos barris, as guias de entrada do que vinha dos barcos, e as requisições do setor comercial.
Ela não precisava de saber o que é que estava em cada barril. Só precisava de saber a localização exata de cada um. Do ACME4325, por exemplo. Corredor F, cota 17, nível 5.
Mostrou-lhe o esquema de coordenadas, para orientação no armazém, e deu-lhe um maço de folhas com o inventário, com duas entradas.
Fizeram exercícios. Eu dava-lhe um código e ela procurava na lista a localização. E ao contrário, dando-lhe as coordenadas e ela a responder com o código da pipa.
Não parecia difícil.

Ao fim da manhã, ele levantou-se, abriu uma porta lateral, entrou e saiu com um embrulho grande, de papel.
“-Teu uniform! Podes provar ali” e apontou para a sala de onde tinha vindo.
Josefina pegou no embrulho grande, de papel grosso, e passou a porta. Era um pequeno quarto, com janela para o rio. Tinha uma cama de solteiro, impecavelmente feita, um guarda vestidos e uma pia de louça, no canto. Ela pensou se seria o quarto dele. Será que dormia ali? Mas não havia qualquer objeto pessoal que indicasse uso ou ocupação, além da cama feita.
Para não parecer mal, abriu o embrulho sem demora.
Tinha tudo em duplicado. Calças jardineira castanhas claras, camisa branca, camisola de lã castanha, colete com bolsos da cor das calças, par de botas castanhas com atacadores, meias grossas de cano alto e um chapéu de abas.
Experimentou e servia-lhe tudo quase na perfeição. Até as botas.
“-So? How it fit?”
Ela abriu a porta e saiu com a farda nova e o chapéu na mão. Ele fez um sorriso rasgado.
“-Perfect!”
Ela só então reparou que eles estavam vestidos com as mesmas cores. Só que as calças dele eram ridiculamente curtas e os sapatos eram muito esquisitos.
“-Now, your tools”, e deu-lhe um saco de pôr a tiracolo com um livro de folhas em branco, lápis, as folhas de localização das pipas, um martelo de madeira e uma pequena lanterna elétrica.
“-Para logo à tarde, after lunch”. Já era meio dia. Nem tinha dado pela passagem do tempo.

Perto da entrada do armazém, havia uma sala com mesas e bancos corridos, para os trabalhadores comerem o que traziam de casa. Josefina entrou lá, saudou as pessoas mas não conhecia ninguém. Nem o Ernesto estava lá. Não responderam e olharam para ela com desdém. A roupa nova, clara, quase reluzente, com as mesmas cores do Sebastian, punham-na à parte, como se já não fosse uma deles. Sentou-se na ponta de uma mesa, quase isolada. Ficou triste, a princípio, mas logo de seguida começou a ficar orgulhosa da sua farda nova. Farda Sebastian.

Depois do almoço, voltou ao gabinete e a cena repetiu-se. Bateu à porta, entrou. Ele estava a escrever à máquina, mais folhas, e ela aguardou uns minutos, a ver os barcos no rio, que agora parecia outro, de outra cor, com o sol do princípio da tarde.
Ela questionava-se se ele dormia ou comia. Parecia que estava sempre a trabalhar.

Nessa tarde, a formação foi prática. Subir e descer o castelo de pipas, verificar as localizações, procurar barris, ler os códigos, procurar fugas e vazamentos. Era cansativo mas não tinha dúvidas. Era tudo lógico e prático.

A figura dela estava estranha. Alta e esguia mas forte, vestida com roupa de trabalho masculina. O cabelo castanho claro, a condizer com o uniforme, não era muito comprido. Soltara-o quando mudara de roupa e agora, para poder mover-se com mais liberdade, prendera-o atrás com um laço improvisado.
Graciosamente moderna, diferente, estrangeirada. Orgulhosa.
Ao fim do dia, perguntou onde podia deixar a farda.
“-Uniform é teu. Levas tua casa e no return. My gift. Só quero limpo. You wash it!”, disse-lhe quando a dispensou às seis horas.

Josefina pegou na trouxa do resto da farda e do seu vestido, casaco e sapatos, e saiu para casa.
Só agora se lembrava que nunca tinha andado de calças na rua, como um homem, com uma camisolona castanha escura, de lã quente, botas de trabalho e chapéu de abas da cor das calças. Parecia um trabalhador das fábricas ou das obras, um operário daqueles filmes americanos. As pessoas reparavam nela, quando subia a rua, para casa. Já era noite e poucas a reconheciam. Ainda bem.
Queria mostrar à mãe.

É lidar

Obrigam-me a saltar para arena, de capa e espada.
Eu não quero, estou melhor na bancada a aplaudir outros heróis. Tem de ser, gritam-me, tu consegues.
Soltam-me a besta de quinhentos quilos. Dá duas voltas rápidas, como para se ambientar, a populaça empolga-se. Raspa o casco no chão, arranca para mim. Dou um passo ao lado, cedo-lhe a capa. Aplausos.
Nova corrida, mais um passo, agora para o outro lado. Iludo-o no pano. Aplausos de pé.
Canso o bicho. Já não corre para longe. Já lhe sinto bafo. Olha-me nos olhos, de língua de fora.
Enfio-lhe a espada no meio da testa. Cai morto, com olhar vidrado.
Que raio! Nem gosto de lantejoulas.

Caducidade

Quanto tempo duram as nossas palavras? E as nossas juras, promessas e vontades?
Uns dizem que duram o tempo que quisermos. Outros dizem que duram o tempo da memória colectiva. Outros, ainda, dizem que se forem gravadas na pedra duram para sempre. Mas o que vale uma pedra se quem a escreveu já foi esquecido há muito?
Fico-me pelo meio termo. O que te disse vai durar para sempre, enquanto um de nós se lembrar.

Tranca do diabo

Os dias correm na sua entediante monotonia de lento desgaste, encadeando pequenas irritações com ainda menores entusiasmos, neste passeio de sentido único da vida diária que sabemos como acaba, acreditando que nos vamos aborrecer de morte antes que ela se aborreça de nós.
Nada é pior do que a injustiça do chefe, as contas do fim do mês que não batem certo, a pequena inveja da amiga, a avaria da caldeira de casa, os vizinhos barulhentos ou a multa que não contávamos. O maior azar é não ter o golpe de sorte que nos permita saltar o quotidiano cansaço.
Até aquele dia em que o telefone toca de madrugada ou o médico nos chama para uma conversa séria, e o nosso passeio deriva para um outro ramal, nova paisagem, novo destino, outra paragem. Quando o diabo dispara uma tranca.

Josefina Madeira . 3

O mês de janeiro era de grande azáfama nos armazéns de vinho, com os engarrafamentos de inverno, aproveitando estabilidade da hibernação sazonal da atividade biológica do envelhecimento em madeira, para a trasfega e deposição em vidro. Além do trabalho de enchimento, arrolhamento, lacragem e rotulagem, feito por pessoal efetivo e bem treinado, era necessário um pequeno exército de indiferenciados para movimentação de barricas sem rolamento, lavagem e preparação do vasilhame, e encaixotamento das garrafas em berço de palha e madeira.
Os trabalhos mais delicados, embora simples, eram entregues preferencialmente a mulheres. Elas lavavam as garrafas vazias, colocavam-nas a escorrer e secar junto dos engarrafadores, e, no fim da linha, depositavam-nas cuidadosamente, com o rótulo para cima, nos caixotes de madeira, para que os homens pregassem as tampas, de seguida.
Toda esta atividade, que durava mais de um mês, entre janeiro e final de fevereiro, dava trabalho, muito bem vindo, a algumas dezenas de pessoas por cada armazém.

Naquela manhã da nova vida de Josefina, mãe e filha desceram decididamente a torta rua Direita, de braço dado, ainda antes do sol nascer, até ao imponente edifício que se destacava no casario, virado ao rio, com o letrame iluminado William Richardson & Co.
O grande portão traseiro por onde costumavam entrar e sair camiões, já estava todo aberto, iluminando a calçada polida, mas não se via vivalma lá dentro. Vários vultos aguardavam fora, discretamente, resguardados da atenção da iluminação da porta, calados ou a conversar em voz baixa, denunciados pelos cigarros em brasa.
Maria e Josefina, chegaram, espreitaram para dentro, não viram ninguém, e juntaram-se ao pequeno grupo do lado direito, com a saudação matinal indistinta que se deve na circunstância. Com o pouco entusiasmo do coro de resposta, perceberam que devia ser gente de longe ou de fora, que não as reconhecia. Melhor assim.

Às oito em ponto, a claridade da manhã já esbatia a luz artificial do armazém. Ernesto, o encarregado, assomou ao portão e mandou entrar os que tinham estado nos dias anteriores. Hoje precisava de mais três mulheres e um rapaz ágil, mas os noviços eram nove mulheres e um homem perto da meia idade.
Maria aproximou-se de Ernesto, um velho conhecido do marido, da meninice.
“- Então, Maria! Também vens procurar trabalho por aqui? Arranjo qualquer coisa para ti.”
“-Bom dia, Ernesto. Eu sou burra velha, vou perdendo as forças e já não tenho como aprender, mas trago a minha filha, na força da mocidade e com cabecinha como eu nunca tive. A professora Amélia diz que se ela quisesse, podia até acabar o liceu.”
“-Ó Maria, para ti tinha já lugar, que já cá andaste noutros anos. Mas, para meter de novo, vou ter de dar vaga a essas que já cá estiveram ontem e antes de ontem. Não quero confusões.”
“-Ó Ernesto! Vamos, confia em mim, ficas bem servido.”
“-Deixa-te ficar por aí. Algumas desatinam com o serviço e vão-se embora. Ou mando-as eu.”
“-Não posso, Ernesto. Tenho de ir trabalhar. Mas deixo aqui a minha menina. Fica à porta, e sei que antes do meio dia, vens cá chamá-la.”
“-Pode ficar. Não prometo nada.”

Josefina ficou encostada ao muro, em frente, a apreciar toda a movimentação dentro do portão.
O engarrafamento era ao fundo. Os barris chegavam do armazém, do lado esquerdo, empurrados num carrinho de rodas com três homens. Entravam para trás de um parede, e do lado direito, saíam vazios, aos rebolões, enquanto as garrafas, que também vinham de lá, eram metidas nos caixotes cheios de palha, para um par de homens assentar pregos na tampa, a toda a força.
Entretanto chegou mais uma carrinha grande, cheia de garrafas. Devem ter vindo de outro armazém, ou da fábrica, mesmo. Meia dúzia de mulheres descarregaram-nas a braços, para o chão, e começaram logo a lavá-las com mangueira e escovilhão, e a virá-las ao contrário, enfiadas nuns espigões verticais armados noutro carrinho com rodas. Percebeu que era para escorrerem, no caminho para o engarrafamento.
Josefina só não via o que se passava atrás da parede do meio. Ficou cheia de curiosidade. Imaginava uma máquina enorme, a comer garrafas vazias, a beber vinho, e a largar garrafas luzidias e arrolhadas.
O tempo foi passando, pelo meio da manhã já estava farta de estar ali, à espera não sabia do quê, deu-lhe a fome. Pegou no embrulho de pano que a mãe lhe deixou no bolso do velho casaco comprido. Abriu. Pão de milho e um troço de chouriço. Ia saber-lhe bem e dava para o dia todo. Água tinha no fontenário ali ao lado.
Ficou melhor. Deixou-se estar. A mãe disse para esperar. Ia esperar. Havia um degrau mas não se sentava. Sentar é sinal de fraqueza e falta de respeito, aprendeu com a mãe. Nunca te sentes, a menos que te convidem ou não estejas à vista de ninguém. Não era o caso. Queria que a vissem com respeito e aspeto forte.
Ao fim da manhã já estava a esmorecer. Não acontecia mais nada. Lá dentro as garrafas estavam lavadas e levadas para trás da parede, a barricas continuavam a vir da esquerda, as garrafas cheias a encher as caixas de madeira, do lado direito, e as caixas a desaparecerem ainda mais para a direita, para outro armazém.

Ernesto veio à porta. Devia esperar alguém. Olhava para ambos os lados da rua, nem reparara em Josefina, em frente. Acendeu um cigarro. Olhou para ela. Era a única pessoa na rua.
Duas passas no cigarro.
“-Ó rapariga! Tu és a filha da Maria, não és?”
“-Sim, Sr. Ernesto. Precisava de algum do meu trabalho?”
Ele não respondeu. Ficou a olhar para ela, pensativo. Fumava o cigarro, olhava à volta, olhava para ela. Quando acabou, fez mola entre o polegar e o indicador e lançou a pirisca para o fim da rua.
“-Anda comigo!”

Ela atravessou a rua a correr e pôs-se logo atrás de Ernesto, a correr o armazém. Viraram para a esquerda e entraram noutro armazém ainda maior, escuro. A luz mal entrava pelas pequenas janelas gradeadas.
Era daqui que saiam as pipas. Umas roldanas dependuradas no teto, com cordas puxadas a braços, por quatro homens, retiravam as barricas, da pilha até ao teto, para o carrinho que as levava, uma a uma, para trás da parede que tinha visto.
Atravessaram um corredor imenso, rodeado por milhares de pipas, achou ela, até uma porta entreaberta, ao fundo.
Ernesto bateu à porta. Uma voz ouviu-se, lá de dentro. Josefina não percebeu.
“-Espera aqui fora!”, disse Ernesto, e entrou.
A porta ficou entreaberta como estava. Agora habituara os olhos ao escuro. Admirava as pipas.Tantas. Tão grande, tão bonito, paredes de pedra, teto muito alto, em madeira. Cheirava bem.
Ouvia a voz de Ernesto.
“-É uma rapariga, mas acho que serve.”
Ela não conseguia perceber o que outra pessoa dizia. Falava baixo.
“-Para aí quinze anos. Mas é forte.”

“-O que o senhor quer é alguém ágil e forte. E mais esperto do que esse desgraçado que cá andava.”

“-Sim. E está aqui comigo. Se quiser, pega já.”

Ouviu um barulho de cadeira a arrastar e a porta abriu-se toda. Josefina ficou iluminada pela luz lá de dentro. Saiu um homem que lhe pareceu enorme, com Ernesto logo atrás.
Primeiro reparou nas calças claras dele, curtas, estranhas, com uns sapatos de atacador castanhos. As meias grossas, altas, sem mostrar a perna. Depois na camisola grossa, também castanha, como os sapatos, de gola alta.
Olhou-o nos olhos.
Estava sério a olhar para ela. Era bonito. Tinha o cabelo claro, liso, muito curto atrás, penteado para o lado à frente, comprido sobre a testa.
Continuava a olhar para ela. Era novo, teria pouco mais de vinte anos.

“-My name is Sebastian, Sebastian Coleman.”
“-My name is Josefina, Josefina Madeira.”
Sebastian ficou impassível, a olhar para ela. Ernesto abria a boca.
“-Do you speak english?”
“-A little bit.”
Sebastian abriu os braços com uma gargalhada.
“-Wonderful, wonderful! Excellent, Ernesto. Thank you.”

Ernesto continuou sem perceber exatamente que milagre tinha acontecido, mas Josefina agradeceu intimamente à professora Amélia, por lhe ter emprestado e insistido na leitura de “Adventures of Huckleberry Finn” e “Alice in Wonderland”. Pouco percebia do que lia mas a professora insistia para levar os livros para casa, todos os dias, para ler mais um pouco, à noite, e no dia seguinte conversavam e discutiam, no intervalo da escola, sobre o que ela tinha lido na véspera.

Um homem na corrente

Todos os dias entrava na corrente de gente que ia para lá, fosse para onde fosse, ordeira na pressão sobrelotada. Passava o torniquete, descia a longa escada mecânica, encostado à direita, como faziam os previdentes que se tinham levantado a tempo, chegava à sala grande das decisões, escolhia a direção que levasse mais gente, queria fazer parte da maioria, ser como os outros, sentido de grupo, metia-me no corredor estreito, ombro a ombro, atento à distância higiénica ao da frente que não é cumprida pelo que vem atrás, curvas a noventa graus, empurrões dos de fora, que perdem terreno no maior perímetro a percorrer, pi sobre dois vezes a distância à esquina, fazia os cálculos, os cálculos distraem-me, até chegar à comprida e estreita plataforma de teto curvo, já cheia dos que iam à frente, auriculares, copos com tampa de bebidas que já tinham esfriado há muito, olhares na publicidade a férias no outro lado do mundo, vozes gravadas a anunciar direções e sentidos, apertados atrás da linha amarela.
A linha amarela dá-me medo.
O barulho dos carris, corrente de ar quente, surge a máquina, minhoca apressada, grande, guiada por um homenzinho atrás do vidro da frente que parece que fica surpreendido por ver tantos à espera. Pára, as portas abrem-se, há alguns para sair. Como é que há gente que anda ao contrário? Não sabem que vamos todos para lá? É deixá-los sair, coitados. Entramos, empurrões, cabe sempre mais um, a porta não fecha, aviso sonoro, fecha-se, arrancamos, olhos nos teto, no chão, nos telemóveis, excêntricos com jornal de papel, barulho, trepidação. Primeira paragem, entra mais gente. Segunda paragem, saem uns, entram outros. Perco a conta às paragens.
Agora saem quase todos, saio com eles. Nunca tinha saído aqui. Amanhã venho outra vez.
Cuidado com a linha amarela.

Último dia

Ela vivia obcecada com o último dia da sua vida. Todos os dias de manhã, acordava a pensar que esse poderia ser o dia. Fazia listas do que faltava, do que queria, do que ia deixar, do que queria visitar, do que ficou por fazer, do que ainda não disse.
Todos os dias acabavam por ser dias normais. Não eram os últimos nem os primeiros, eram dias que sucediam a véspera e antecipavam o amanhã, na sucessão de dia e noite, de acordares ansiosos e deitares estafados na revisão de tarefas para o dia que poderia ser o último da sua vida.

Quando estava com colegas, amigos ou amantes, a pergunta inevitável assolava perturbadoramente: Se este fosse o último dia da tua vida, o que farias? Já o fazia como um teste eliminatório, na esperança de obter uma resposta que lhe serenasse o espírito, sabendo de antemão da inevitável desilusão. Uns estranhavam outros riam-se, mas o desconforto da pergunta distanciava-os, deixando-a sempre sozinha, a pensar ainda mais no que queria e ainda lhe faltava fazer.

Um dia fez a pergunta a um quase estranho que acabara de conhecer, rapaz simpático, de poucas falas, levemente interessante. Se este fosse o último dia da tua vida, o que farias? A resposta foi incomodamente pronta:

És a pessoa que eu mais gosto com quem partilhei menos tempo na minha vida.
Se estivesse no meu último dia, ia querer estar o tempo todo contigo, para saber o que não soube, rir o que não ri, chorar o que não chorei, abraçar o que não abracei, sonhar o que não sonhei.
Mas sei que amanhã ainda não é a véspera desse dia, e que o dia de hoje vou vivê-lo tranquilamente contigo, para saber mais um pouco do que ainda não sei de ti, rir de mais uma das tuas histórias, chorar outra das tuas tristeza, abraçar-te mais uma vez e sonhar com o que provavelmente nunca faremos.

Não foram felizes para sempre, mas a vida dela mudou. Perdeu a arrogância de julgar saber e conhecer tudo, e passou a viver mais tranquila, aproveitando a pequena dose diária de ensinamentos que a vida lhe proporciona.

W 75th St

Nunca vos contei a história dos meus vizinhos de baixo? Adoro-os. Vivem frente a frente, a um patamar de distância. Quando estão em casa nem fecham as portas, como se fosse um só apartamento. Ninguém se importa, nem o senhorio. Dão vida ao condomínio, não se metem com ninguém, têm as contas em dia e não são barulhentos.
Quando se deitam, fecham as portas. Quando se juntam, num dos apartamentos, para comer ou conversar, também fecham as portas. São tão discretos que nós, vizinhos, sabemos quando fecham as portas, mas nunca sabemos se se deitaram, se se juntaram, ou se fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.

Ele já não é novo. Terá cerca de setenta anos. Está reformado e não faço ideia porque é que veio para cá. Viuvo ou divorciado é o meu palpite. Solteiro não é, de certeza. Vive só, entre os livros e histórias que escreve, a cozinha, que cultiva com esmero, e as horas que passa diariamente no Met, na NYPL ou nas muita livrarias que frequenta diariamente. Também passa todos os dias no Italian Market, no Deli e no Fairway do bairro.
Não é rico mas tem rendimentos suficientes para viver com algum desafogo. Nunca sai de Manhattan, não tem carro, nem responsabilidades. Foi onde arranjou o refúgio dos fantasmas do passado.

Ela é mais nova mas tem o porte e a confiança de uma mulher madura e segura. Tão segura que solta com confiança os seus cabelos grisalhos sobre os ombros e usa muito pouca maquilhagem. É divorciada de um francês, alto quadro da Unesco. Trabalhava numa agência de comunicação com projetos de ONGs e das Nações Unidas. Viviam em Paris. Foi um bom casamento, de vários anos, mas não tiveram filhos. Um dia ela concorreu para o ECOSOC, o Conselho Económico e Social da ONU, ganhou o lugar, e foi para Nova Iorque. Ele não quis sair da sua cidade. Ainda estiveram um ano casados, entre aviões e aeroportos, mas depois cada um seguiu a sua vida. Foi o homem da vida dela, mas a decisão estava acima de tudo: queria participar no governo do mundo, na capital do mundo, construir um mundo melhor.

Agora, sai de manhã, muito cedo, e passa o dia todo no seu gabinete na ONU, em reuniões várias, quando não está a viajar pelo mundo, várias semanas por ano, a verificar a aplicação das suas medidas. Quando volta ao fim da tarde, às vezes mesmo tarde, tem a casa quente, candeeiros de luz baixa acesos, duas velas na mesa e um cheiro delicioso a sair da pequena cozinha. Ah, já me esquecia, e um copo de vinho servido ou pronto a servir.
Os jantares são quase um monólogo. Ele quer saber o que se passa lá fora, e ela quer contar tudo, revoltada com as ineficiências, má fé e, muitas vezes, falta de jeito dos políticos. Ele ouve-a pacientemente e dá a sua opinião de mero cozinheiro, como diz, mas com a experiência de quem por muito passou e enterrou no passado.
Depois de jantar, a conversa segue sempre animada, no pequeno sofá ou nos almofadões no chão de carpete. Grande parte das vezes, ela adormece, exausta, ele deita-a e recolhe-se ao seu apartamento, para ler. Outras vezes não, mas isso, nós, os vizinhos, só imaginamos.
Já vos disse que eles são muito discretos?

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