Tranca do diabo

Os dias correm na sua entediante monotonia de lento desgaste, encadeando pequenas irritações com ainda menores entusiasmos, neste passeio de sentido único da vida diária que sabemos como acaba, acreditando que nos vamos aborrecer de morte antes que ela se aborreça de nós.
Nada é pior do que a injustiça do chefe, as contas do fim do mês que não batem certo, a pequena inveja da amiga, a avaria da caldeira de casa, os vizinhos barulhentos ou a multa que não contávamos. O maior azar é não ter o golpe de sorte que nos permita saltar o quotidiano cansaço.
Até aquele dia em que o telefone toca de madrugada ou o médico nos chama para uma conversa séria, e o nosso passeio deriva para um outro ramal, nova paisagem, novo destino, outra paragem. Quando o diabo dispara uma tranca.

Josefina Madeira . 3

O mês de janeiro era de grande azáfama nos armazéns de vinho, com os engarrafamentos de inverno, aproveitando estabilidade da hibernação sazonal da atividade biológica do envelhecimento em madeira, para a trasfega e deposição em vidro. Além do trabalho de enchimento, arrolhamento, lacragem e rotulagem, feito por pessoal efetivo e bem treinado, era necessário um pequeno exército de indiferenciados para movimentação de barricas sem rolamento, lavagem e preparação do vasilhame, e encaixotamento das garrafas em berço de palha e madeira.
Os trabalhos mais delicados, embora simples, eram entregues preferencialmente a mulheres. Elas lavavam as garrafas vazias, colocavam-nas a escorrer e secar junto dos engarrafadores, e, no fim da linha, depositavam-nas cuidadosamente, com o rótulo para cima, nos caixotes de madeira, para que os homens pregassem as tampas, de seguida.
Toda esta atividade, que durava mais de um mês, entre janeiro e final de fevereiro, dava trabalho, muito bem vindo, a algumas dezenas de pessoas por cada armazém.

Naquela manhã da nova vida de Josefina, mãe e filha desceram decididamente a torta rua Direita, de braço dado, ainda antes do sol nascer, até ao imponente edifício que se destacava no casario, virado ao rio, com o letrame iluminado William Richardson & Co.
O grande portão traseiro por onde costumavam entrar e sair camiões, já estava todo aberto, iluminando a calçada polida, mas não se via vivalma lá dentro. Vários vultos aguardavam fora, discretamente, resguardados da atenção da iluminação da porta, calados ou a conversar em voz baixa, denunciados pelos cigarros em brasa.
Maria e Josefina, chegaram, espreitaram para dentro, não viram ninguém, e juntaram-se ao pequeno grupo do lado direito, com a saudação matinal indistinta que se deve na circunstância. Com o pouco entusiasmo do coro de resposta, perceberam que devia ser gente de longe ou de fora, que não as reconhecia. Melhor assim.

Às oito em ponto, a claridade da manhã já esbatia a luz artificial do armazém. Ernesto, o encarregado, assomou ao portão e mandou entrar os que tinham estado nos dias anteriores. Hoje precisava de mais três mulheres e um rapaz ágil, mas os noviços eram nove mulheres e um homem perto da meia idade.
Maria aproximou-se de Ernesto, um velho conhecido do marido, da meninice.
“- Então, Maria! Também vens procurar trabalho por aqui? Arranjo qualquer coisa para ti.”
“-Bom dia, Ernesto. Eu sou burra velha, vou perdendo as forças e já não tenho como aprender, mas trago a minha filha, na força da mocidade e com cabecinha como eu nunca tive. A professora Amélia diz que se ela quisesse, podia até acabar o liceu.”
“-Ó Maria, para ti tinha já lugar, que já cá andaste noutros anos. Mas, para meter de novo, vou ter de dar vaga a essas que já cá estiveram ontem e antes de ontem. Não quero confusões.”
“-Ó Ernesto! Vamos, confia em mim, ficas bem servido.”
“-Deixa-te ficar por aí. Algumas desatinam com o serviço e vão-se embora. Ou mando-as eu.”
“-Não posso, Ernesto. Tenho de ir trabalhar. Mas deixo aqui a minha menina. Fica à porta, e sei que antes do meio dia, vens cá chamá-la.”
“-Pode ficar. Não prometo nada.”

Josefina ficou encostada ao muro, em frente, a apreciar toda a movimentação dentro do portão.
O engarrafamento era ao fundo. Os barris chegavam do armazém, do lado esquerdo, empurrados num carrinho de rodas com três homens. Entravam para trás de um parede, e do lado direito, saíam vazios, aos rebolões, enquanto as garrafas, que também vinham de lá, eram metidas nos caixotes cheios de palha, para um par de homens assentar pregos na tampa, a toda a força.
Entretanto chegou mais uma carrinha grande, cheia de garrafas. Devem ter vindo de outro armazém, ou da fábrica, mesmo. Meia dúzia de mulheres descarregaram-nas a braços, para o chão, e começaram logo a lavá-las com mangueira e escovilhão, e a virá-las ao contrário, enfiadas nuns espigões verticais armados noutro carrinho com rodas. Percebeu que era para escorrerem, no caminho para o engarrafamento.
Josefina só não via o que se passava atrás da parede do meio. Ficou cheia de curiosidade. Imaginava uma máquina enorme, a comer garrafas vazias, a beber vinho, e a largar garrafas luzidias e arrolhadas.
O tempo foi passando, pelo meio da manhã já estava farta de estar ali, à espera não sabia do quê, deu-lhe a fome. Pegou no embrulho de pano que a mãe lhe deixou no bolso do velho casaco comprido. Abriu. Pão de milho e um troço de chouriço. Ia saber-lhe bem e dava para o dia todo. Água tinha no fontenário ali ao lado.
Ficou melhor. Deixou-se estar. A mãe disse para esperar. Ia esperar. Havia um degrau mas não se sentava. Sentar é sinal de fraqueza e falta de respeito, aprendeu com a mãe. Nunca te sentes, a menos que te convidem ou não estejas à vista de ninguém. Não era o caso. Queria que a vissem com respeito e aspeto forte.
Ao fim da manhã já estava a esmorecer. Não acontecia mais nada. Lá dentro as garrafas estavam lavadas e levadas para trás da parede, a barricas continuavam a vir da esquerda, as garrafas cheias a encher as caixas de madeira, do lado direito, e as caixas a desaparecerem ainda mais para a direita, para outro armazém.

Ernesto veio à porta. Devia esperar alguém. Olhava para ambos os lados da rua, nem reparara em Josefina, em frente. Acendeu um cigarro. Olhou para ela. Era a única pessoa na rua.
Duas passas no cigarro.
“-Ó rapariga! Tu és a filha da Maria, não és?”
“-Sim, Sr. Ernesto. Precisava de algum do meu trabalho?”
Ele não respondeu. Ficou a olhar para ela, pensativo. Fumava o cigarro, olhava à volta, olhava para ela. Quando acabou, fez mola entre o polegar e o indicador e lançou a pirisca para o fim da rua.
“-Anda comigo!”

Ela atravessou a rua a correr e pôs-se logo atrás de Ernesto, a correr o armazém. Viraram para a esquerda e entraram noutro armazém ainda maior, escuro. A luz mal entrava pelas pequenas janelas gradeadas.
Era daqui que saiam as pipas. Umas roldanas dependuradas no teto, com cordas puxadas a braços, por quatro homens, retiravam as barricas, da pilha até ao teto, para o carrinho que as levava, uma a uma, para trás da parede que tinha visto.
Atravessaram um corredor imenso, rodeado por milhares de pipas, achou ela, até uma porta entreaberta, ao fundo.
Ernesto bateu à porta. Uma voz ouviu-se, lá de dentro. Josefina não percebeu.
“-Espera aqui fora!”, disse Ernesto, e entrou.
A porta ficou entreaberta como estava. Agora habituara os olhos ao escuro. Admirava as pipas.Tantas. Tão grande, tão bonito, paredes de pedra, teto muito alto, em madeira. Cheirava bem.
Ouvia a voz de Ernesto.
“-É uma rapariga, mas acho que serve.”
Ela não conseguia perceber o que outra pessoa dizia. Falava baixo.
“-Para aí quinze anos. Mas é forte.”

“-O que o senhor quer é alguém ágil e forte. E mais esperto do que esse desgraçado que cá andava.”

“-Sim. E está aqui comigo. Se quiser, pega já.”

Ouviu um barulho de cadeira a arrastar e a porta abriu-se toda. Josefina ficou iluminada pela luz lá de dentro. Saiu um homem que lhe pareceu enorme, com Ernesto logo atrás.
Primeiro reparou nas calças claras dele, curtas, estranhas, com uns sapatos de atacador castanhos. As meias grossas, altas, sem mostrar a perna. Depois na camisola grossa, também castanha, como os sapatos, de gola alta.
Olhou-o nos olhos.
Estava sério a olhar para ela. Era bonito. Tinha o cabelo claro, liso, muito curto atrás, penteado para o lado à frente, comprido sobre a testa.
Continuava a olhar para ela. Era novo, teria pouco mais de vinte anos.

“-My name is Sebastian, Sebastian Coleman.”
“-My name is Josefina, Josefina Madeira.”
Sebastian ficou impassível, a olhar para ela. Ernesto abria a boca.
“-Do you speak english?”
“-A little bit.”
Sebastian abriu os braços com uma gargalhada.
“-Wonderful, wonderful! Excellent, Ernesto. Thank you.”

Ernesto continuou sem perceber exatamente que milagre tinha acontecido, mas Josefina agradeceu intimamente à professora Amélia, por lhe ter emprestado e insistido na leitura de “Adventures of Huckleberry Finn” e “Alice in Wonderland”. Pouco percebia do que lia mas a professora insistia para levar os livros para casa, todos os dias, para ler mais um pouco, à noite, e no dia seguinte conversavam e discutiam, no intervalo da escola, sobre o que ela tinha lido na véspera.

Um homem na corrente

Todos os dias entrava na corrente de gente que ia para lá, fosse para onde fosse, ordeira na pressão sobrelotada. Passava o torniquete, descia a longa escada mecânica, encostado à direita, como faziam os previdentes que se tinham levantado a tempo, chegava à sala grande das decisões, escolhia a direção que levasse mais gente, queria fazer parte da maioria, ser como os outros, sentido de grupo, metia-me no corredor estreito, ombro a ombro, atento à distância higiénica ao da frente que não é cumprida pelo que vem atrás, curvas a noventa graus, empurrões dos de fora, que perdem terreno no maior perímetro a percorrer, pi sobre dois vezes a distância à esquina, fazia os cálculos, os cálculos distraem-me, até chegar à comprida e estreita plataforma de teto curvo, já cheia dos que iam à frente, auriculares, copos com tampa de bebidas que já tinham esfriado há muito, olhares na publicidade a férias no outro lado do mundo, vozes gravadas a anunciar direções e sentidos, apertados atrás da linha amarela.
A linha amarela dá-me medo.
O barulho dos carris, corrente de ar quente, surge a máquina, minhoca apressada, grande, guiada por um homenzinho atrás do vidro da frente que parece que fica surpreendido por ver tantos à espera. Pára, as portas abrem-se, há alguns para sair. Como é que há gente que anda ao contrário? Não sabem que vamos todos para lá? É deixá-los sair, coitados. Entramos, empurrões, cabe sempre mais um, a porta não fecha, aviso sonoro, fecha-se, arrancamos, olhos nos teto, no chão, nos telemóveis, excêntricos com jornal de papel, barulho, trepidação. Primeira paragem, entra mais gente. Segunda paragem, saem uns, entram outros. Perco a conta às paragens.
Agora saem quase todos, saio com eles. Nunca tinha saído aqui. Amanhã venho outra vez.
Cuidado com a linha amarela.

Último dia

Ela vivia obcecada com o último dia da sua vida. Todos os dias de manhã, acordava a pensar que esse poderia ser o dia. Fazia listas do que faltava, do que queria, do que ia deixar, do que queria visitar, do que ficou por fazer, do que ainda não disse.
Todos os dias acabavam por ser dias normais. Não eram os últimos nem os primeiros, eram dias que sucediam a véspera e antecipavam o amanhã, na sucessão de dia e noite, de acordares ansiosos e deitares estafados na revisão de tarefas para o dia que poderia ser o último da sua vida.

Quando estava com colegas, amigos ou amantes, a pergunta inevitável assolava perturbadoramente: Se este fosse o último dia da tua vida, o que farias? Já o fazia como um teste eliminatório, na esperança de obter uma resposta que lhe serenasse o espírito, sabendo de antemão da inevitável desilusão. Uns estranhavam outros riam-se, mas o desconforto da pergunta distanciava-os, deixando-a sempre sozinha, a pensar ainda mais no que queria e ainda lhe faltava fazer.

Um dia fez a pergunta a um quase estranho que acabara de conhecer, rapaz simpático, de poucas falas, levemente interessante. Se este fosse o último dia da tua vida, o que farias? A resposta foi incomodamente pronta:

És a pessoa que eu mais gosto com quem partilhei menos tempo na minha vida.
Se estivesse no meu último dia, ia querer estar o tempo todo contigo, para saber o que não soube, rir o que não ri, chorar o que não chorei, abraçar o que não abracei, sonhar o que não sonhei.
Mas sei que amanhã ainda não é a véspera desse dia, e que o dia de hoje vou vivê-lo tranquilamente contigo, para saber mais um pouco do que ainda não sei de ti, rir de mais uma das tuas histórias, chorar outra das tuas tristeza, abraçar-te mais uma vez e sonhar com o que provavelmente nunca faremos.

Não foram felizes para sempre, mas a vida dela mudou. Perdeu a arrogância de julgar saber e conhecer tudo, e passou a viver mais tranquila, aproveitando a pequena dose diária de ensinamentos que a vida lhe proporciona.

W 75th St

Nunca vos contei a história dos meus vizinhos de baixo? Adoro-os. Vivem frente a frente, a um patamar de distância. Quando estão em casa nem fecham as portas, como se fosse um só apartamento. Ninguém se importa, nem o senhorio. Dão vida ao condomínio, não se metem com ninguém, têm as contas em dia e não são barulhentos.
Quando se deitam, fecham as portas. Quando se juntam, num dos apartamentos, para comer ou conversar, também fecham as portas. São tão discretos que nós, vizinhos, sabemos quando fecham as portas, mas nunca sabemos se se deitaram, se se juntaram, ou se fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.

Ele já não é novo. Terá cerca de setenta anos. Está reformado e não faço ideia porque é que veio para cá. Viuvo ou divorciado é o meu palpite. Solteiro não é, de certeza. Vive só, entre os livros e histórias que escreve, a cozinha, que cultiva com esmero, e as horas que passa diariamente no Met, na NYPL ou nas muita livrarias que frequenta diariamente. Também passa todos os dias no Italian Market, no Deli e no Fairway do bairro.
Não é rico mas tem rendimentos suficientes para viver com algum desafogo. Nunca sai de Manhattan, não tem carro, nem responsabilidades. Foi onde arranjou o refúgio dos fantasmas do passado.

Ela é mais nova mas tem o porte e a confiança de uma mulher madura e segura. Tão segura que solta com confiança os seus cabelos grisalhos sobre os ombros e usa muito pouca maquilhagem. É divorciada de um francês, alto quadro da Unesco. Trabalhava numa agência de comunicação com projetos de ONGs e das Nações Unidas. Viviam em Paris. Foi um bom casamento, de vários anos, mas não tiveram filhos. Um dia ela concorreu para o ECOSOC, o Conselho Económico e Social da ONU, ganhou o lugar, e foi para Nova Iorque. Ele não quis sair da sua cidade. Ainda estiveram um ano casados, entre aviões e aeroportos, mas depois cada um seguiu a sua vida. Foi o homem da vida dela, mas a decisão estava acima de tudo: queria participar no governo do mundo, na capital do mundo, construir um mundo melhor.

Agora, sai de manhã, muito cedo, e passa o dia todo no seu gabinete na ONU, em reuniões várias, quando não está a viajar pelo mundo, várias semanas por ano, a verificar a aplicação das suas medidas. Quando volta ao fim da tarde, às vezes mesmo tarde, tem a casa quente, candeeiros de luz baixa acesos, duas velas na mesa e um cheiro delicioso a sair da pequena cozinha. Ah, já me esquecia, e um copo de vinho servido ou pronto a servir.
Os jantares são quase um monólogo. Ele quer saber o que se passa lá fora, e ela quer contar tudo, revoltada com as ineficiências, má fé e, muitas vezes, falta de jeito dos políticos. Ele ouve-a pacientemente e dá a sua opinião de mero cozinheiro, como diz, mas com a experiência de quem por muito passou e enterrou no passado.
Depois de jantar, a conversa segue sempre animada, no pequeno sofá ou nos almofadões no chão de carpete. Grande parte das vezes, ela adormece, exausta, ele deita-a e recolhe-se ao seu apartamento, para ler. Outras vezes não, mas isso, nós, os vizinhos, só imaginamos.
Já vos disse que eles são muito discretos?

Labirinto

Ando a abrir portas por corredores escuros
Se calhar perdido. Encontrado não estou, com certeza

Acendes uma luz, dás comigo aninhado ao canto. Nu
Berras e reclamas uma razão que já nem me lembro
Culpa minha, de certeza. É sempre, confesso

Não exijas mais do que te posso dar
Dou tudo. Não sei quanto. Tudo

Enquanto valer a pena.
Quanto vale?

Josefina Madeira . 2

Josefina desceu ao pátio e começou a estender roupa mecanicamente, sem pensar. A rotina do trabalho, o movimento, o esforço físico acalmou-lhe a emoção. Não percebeu o que aconteceu, foi muito rápido e inesperado. O desconforto do toque forçado e o medo da vulnerabilidade cobriram-na como um manto negro entorpecente. Só via as mãos, as molas, a roupa.
Tontura, enjoo.
O que a princípio lhe parecera um acidente, uma trapalhada, um embaraço, agora causava-lhe medo e vergonha.
Estendia a roupa.
Encostara-se, encolhera-se, desviara-se, mas ele apertou-a. Ele tinha espaço, foi propositado.
Revolta. Estendia as toalhas.
O aperto não tinha sido forte mas sentia-se amassada, dorida, e também um ardor como o de vinagre em ferida aberta.
Suja. Dor.
Estendia mais um lençol.
Queria arranjar-se, refrescar, lavar, despachar o serviço.
Outro lençol. Nojo.
Uma toalha de mesa.

“…
-Que se passa rapariga? Não me respondes?”
Nem se apercebera que a Rosa falava com ela. Rosa era ajudante de cozinha, mais velha, mãe de filhos. Vinha do armazém, ao lado da adega, com um saco de cebolas para a cozinha.

“-Que cara é essa? Estás a chorar?”
“-Não. Não é nada.”
Outra toalha.
“-Eu ajudo-te”.
Só faltavam três peças. Rosa pousou as cebolas e ajudou a dependurar o resto em silêncio.
“-Anda comigo beber água à cozinha.”

Àquela hora, a meio da tarde, havia pouco movimento na pensão. Os quartos estavam vazios, a sala de refeições já estava em silêncio, a louça do almoço lavada e arrumada. Preparava-se já o jantar, mas o movimento da noite não era nem metade do do meio dia.

“-Então, rapariga, estás doente?”, perguntou Rosa percebendo que o mal era da alma e não do corpo. “- Alguém te fez mal? Foi com a tua mãe?”

Josefina chorava, bebia água mas continuava com a boca seca. Não se queria sentar. Ninguém se senta na hora do trabalho. Mas estava tonta. Não estava bem. Tinha medo de sentar. Tinha medo de Manolo. Não queria que a vissem fragilizada, principalmente ele. Já bastava a Rosa a fazer tantas perguntas.
Não queria falar. Não queria contar à Rosa. Estava com medo que contasse à mãe. Os pensamentos e os sentimentos atropelavam-se na sua cabeça. Medo da severidade da mãe. A relação com a mãe era muito distante. Não se lembra de um sorriso ou abraço dela. Tudo regras, obrigações e aparências. Por onde ir, a que horas, para quem olhar, como vestir, o que dizer. Jogo de silêncios. Se falhara nalguma coisa, a culpa era dela. Era sempre.
Para onde ir? Não queria ir para casa. Não queria ficar aqui. Manolo andava por cá e a mãe estaria mesmo a chegar do lavadouro. Josefina viera à frente, mas a mãe viria logo atrás, com a trouxa maior de roupa lavada.
Pálida, sentou-se num banco.

“-Ó rapariga, conta lá o que se passa contigo!”
“-Estou enjoada… dói-me.. aperta-me…”
Sentada, pressionou a saia à frente e passou a mão ligeiramente entre pernas.
A expressão de Rosa endureceu. O mal não seria só de espírito.
“-Que tens? O que te aconteceu? Como é que dói?”
“-Apertou-me… com força. Raspou… grossos.” Foi dizendo entre soluços
“-Quem?” Rosa começou a ficar nervosa.
“-Ele…” Apontou para fora. Ali, àquela hora, não havia outro ele. “- O senhor… o senhor Manolo.”
“-O que é que ele te fez?”
“-A mão… apertou…” E voltou a pressionar a saia à frente.
Rosa enrubesceu-se e ficou bastante agitada.
“-Porco!” Disse alto, sem tomar cuidado se alguém a ouvia. “- Porco! Não tem respeito nem pela própria carne. Anda comigo, vamos ter com a tua mãe. Larga tudo!”

De mão dada, Rosa descia a rua a passos largos rebocando a miúda a enxugar as lágrimas como pôde. Passaram a casa delas e alguns metros abaixo já vinha a mãe de Josefina carregada com a trouxa final da lavagem desse dia.
“-Ó Mariazinha. Abra aí a porta e vamos dentro de sua casa. Preciso de falar já consigo.”
“-Não posso mulher. Estou carregada.” Mas olhou os olhos vermelhos da filha.” – Que te aconteceu?”
“-Abra a porta, por favor. Preciso falar consigo. Pouse isso lá no chão.”
“-Ajuda-me! Tira-me a chave aqui do avental.”
Lá entraram, pousou a trouxa húmida e pesada no chão.
“-Que te aconteceu Josefina? Magoaste-te? Fizeste asneira?” Asneira. Culpa. O jeito da mãe. Não queria falar. Não conseguia.
“-Foi aquele porco. Deitou-lhe a mão.”
A mãe empalideceu. Olhou para Rosa.
“-A mão?”
“-Apertou-a. Mexeu-lhe.” Disse fazendo o gesto com a mão em baixo, côncava e com a palma para a frente.
“-Minha filha, anda cá comigo. Deixa-me lavar-te e mudar-te a roupa.”
A mãe de Josefina era a decisão em pessoa. Quando parecia que ia ceder, sob tensão, imediatamente tomava uma decisão e avançava.
“-Rosa, vai indo para cima que já lá vou ter com a roupa.”
“-Não, Mariazinha. Fique aí com a sua filha. Eu levo a roupa e dependuro-a no estendal. Trato disso. Fique com a sua filha.”

“-Tu não voltas lá. Aquele homem desgraçou a minha vida mas não vai desgraçar a tua. Acabaste a escola, foste mais longe do que queria e do que é necessário. Vais trabalhar para os ingleses. Precisam de mulheres lá, para encher garrafas. Vamos lá amanhã.”

A mãe aquecia mais água no fogão, enquanto lavava a filha cuidadosamente.
Josefina estava mais calma. Não se lembrava de tanto cuidado e tantas palavras de sua mãe. Há anos que se lavava sozinha e a conversa entre elas era sempre de ordens em frases de poucas palavras.
Estava a gostar do calor do pano quente e húmido, do cheiro do sabão perfumado, das palavras tranquilas da mãe. Falava-lhe com um carinho que lhe parecia distante, na memória de criança. Tão bom.

A mãe começou a secá-la, já a noite se punha lá fora. Não é que tivessem grandes janelas, mas, com a noite, tiveram de acender o candeeiro a petróleo. Tinham luz elétrica mas o petróleo era mais barato. Josefina gostava da cor do petróleo a arder na pequena salinha de trás, que fazia de cozinha, sala de jantar e sala do banho de sábado ou quando fosse preciso, como hoje. Reconfortava-se com o jogo da chama amarela nas sombras das paredes e no tecto, o cheiro do petróleo e do sabão, a suavidade das mãos e das palavras da mãe, as memórias de criança.

Maria falava como Josefina nunca tinha ouvido. À luz do petróleo, as mãos gastas do trabalho, marcadas pelo sabão e raspadas na pedra do tanque, espalhavam óleo pelo corpo da filha com a suavidade do toque sedoso de mãe. Não lhe parecia aquela pedra negra, insensível, que dormia todos os dias na cama ao lado da sua.
Com carinho, em voz baixa, acariciando, protegendo a sua menina, a falar sem mudar o ritmo nem o tom de voz.
Josefina ouvia com a descontração e a proteção que as crianças sentem nas mãos dos pais. Parecia que não percebia o que a mãe lhe dizia, mas estava a compreender tudo. As duas, agora, era como se fossem só uma. As dores de uma eram as dores da outra, a esperança era comum, partilharam o arrependimento, a perda, o medo e o esforço passado.
O pai de Josefina fora um santo homem, dizia a mãe. Tinha estabelecido e montado oficina de sapateiro com dinheiro emprestado, bem antes de Josefina nascer. Mas não tinha grande cabeça para o negócio, fiava demais, cobrava barato, tinha pena dos clientes, remediava sempre. A vida complicou-se, tinham quatro filhos para alimentar, e Maria teve de arranjar trabalho na pensão. Já não podia confiar no rendimento do marido nem na irregularidade dos serviços a dias que pudesse arranjar. O pai começou a beber, trabalhava cada vez mais horas, mas produzia pouco, ganhava mal, foi perdendo clientes. Bebia cada vez mais. Maria começou a desesperar. Pediu ajuda ao patrão. Ele ajudou. Ela já andava de cabeça perdida, depois perdeu-se por todo. Engravidou. O casal sabia que o marido não era o pai da criança. Depois de nascer, ele começou a dormir quase sempre na oficina. As vizinhas ajudaram como puderam. Os filhos começaram a trabalhar na estiva.
O galego não se calou. Quando bebia demais falava das mulheres que se tinham deitado na cama dele. O nome de Maria veio à baila. Mais uma. Daí até as más línguas questionarem a paternidade da criança foi um fósforo. Foi isso que matou José, e fez os filhos saírem tão novos de casa. As dívidas e a vergonha.

“- Desgraçou-me, desgracei-me, e vou viver com esta culpa para toda a vida. Perdoa-me, minha filha!”

Josefina sentia-se anormalmente calma, para tanta informação dramática. Sentia as dores da mãe, compreendia-a e perdoava-lhe. Agora era ela a adulta, perante a revelação da fragilidade da mãe. Os erros da mãe eram agora também seus, compreendia a vida, o que lhe tinha acontecido nessa tarde e a reação de Rosa.
Via o futuro à sua frente, que já não passava pela rua Direita nem pela Pensão Minho.

“-A quem é que o pai ficou a dever dinheiro?”
Após longa pausa, Maria respondeu:
“-Ao galego.”

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