Nestes tempos de conturbados de indefinição, receio, hesitação, desilusão, desalento, polarização e erupção de extremismos, não é por sermos a geração mais bem preparada de sempre que não deixamos de tomar as nossas opções políticas com base na inveja, cobiça, vingança, protesto e inconsequência, num primitivismo que invariavelmente termina em violência.
Disponível
A disponibilidade é uma das maiores armas para conquistar e liderar.
Seja o chefe, pai, parceiro, funcionário de repartição ou político, conquista imediatamente a simpatia ou favores de quem precisa de atenção, carinho, um serviço ou uma simples informação, se disser um ora diz-me lá o que se passa, vamo-nos sentar, tempos tempo, em que lhe posso ser útil ou estou aqui para o servir, mesmo que seja uma pequenina hipocrisia.
O indisponível está sempre a prazo.
José Fulano
Era uma jóia de pessoa mas fazia tudo errado. Não eram coisas graves, nem era por mal, também não era incompetência social, eram meros erros de avaliação. Confiava em quem não devia, desconfiava do que saísse da rotina, embarcava em faróis, encantava-se com coisas simples, ignorava oportunidades. Foi-lhe custando caro, isolou-se, lamentava-se com os próximos que lhe sobravam, culpava a má sorte e a injustiça do mundo, mas continuou sempre a errar nas pequenas decisões.
Moral e experiência
A decisão racional e ponderada, que normalmente é a que se aproxima mais da acertada, só é atingida se o conhecimento for aplicado num contexto moral e experimentado, não necessariamente conservador.
A moral e a experiência individual podem advir da família, da prática desportiva, da religião ou do próprio sistema educativo, através da literatura, história ou filosofia, se forem devidamente enquadrados e cultivados.
Rei dos bichos
Os animais comiam-lhe na mão, chegavam-se para sentir o calor da sua palma. A voz não tinha comando mas tinha serenidade que só um timbre grave torna confiável. O olhar nos olhos parecia já tranquilizar a irracionalidade dos bichos. Era um dom, uma marca rara, diziam-lhe; a autoridade superiora da sua personalidade, veneravam.
Seria inofensivo se não se tornasse um refúgio para a sua angústia e vazio, até medo, na impotência e desilusão do relacionamento com os humanos.
Maresia #2339
Sete dias, sete músicas
Conhecimento e saber
Sendo fundamental, não é pelo maior conhecimento que um indivíduo toma a melhor decisão. Se assim fosse, não teríamos visto insignes vultos, intelectuais e cientistas, a advogar hediondos crimes de estado.
Josefina Madeira . 4
Cada quinta tem as suas leiras e socalcos, com diferentes químicas, morfologias e videiras de várias castas. Cada cesto das vindimas é identificado consoante a sua origem e qualidade, para que, na vinificação, os enólogos saibam do que dispõem para produzirem os melhores vinhos.
A trabalho de Sebastian começa quando o vinho passa das cubas de aço inoxidável para os barris de madeira, no seu primeiro inverno, ainda nas quintas. A cada barril é atribuído um código que identifica o ano, a casta e a origem exacta, que é marcado a fogo, nos dois tampos das barricas. Sebastian faz o registo de todos os barris, o que contêm, onde estão, e providencia e organiza o transporte rio abaixo. Mais tarde, após envelhecimento em madeira, entrega-os aos serviços de engarrafamento e expedição, consoante os pedidos comerciais. A segurança do armazenamento também é da sua responsabilidade.
Chegara de Inglaterra no verão do ano anterior, mesmo a tempo de assistir às vindimas, para substituir outro inglês que, após tantos anos de serviço, começara a cometer erros inadmissíveis e fora deslocado para funções comerciais, onde, com certeza, faria boas demonstrações para clientes, a ver pelo talento mostrado a beber.
Sebastian não tinha experiência de trabalho mas tivera formação de gestão logística. O trabalho era metódico, de responsabilidade e de confiança, mas não era difícil. Os Richardson pretendiam alguém muito próximo para gerir e guardar o seu maior valor: o vinho armazenado.
O primeiro passo era identificar as barricas. Antes marcava-se o nome da quinta, a vinha, a casta e o ano, em cada pipa. Agora, Sebastian adotara uma código de quatro letras e quatro números que só ele e a administração conheciam. Se houvesse roubo, ninguém saberia o que levava.
Outra medida foi criar um mapa tridimensional das pilhas de barricas, com coordenadas exatas, de forma a localizar cada pipa, dentro do armazém, em x, y e z. Quando lhe pediam um determinado vinho para engarrafar, ele sabia exatamente onde estava.
Outro cuidado foi a disposição na planta do armazém. Os vinhos que se vendiam com menos anos, lotes com mais rotação, eram colocados mais perto da porta, ou pousados por cima dos que passavam mais anos em repouso.
A forma como se empilhavam também era importante, para se aceder aos batoques, que deveriam estar sempre para cima, para testes ou inspeções.
A chegada de Sebastian provocou alvoroço entre o pessoal, pelas novidades, novos métodos, mas impôs-se pelo conhecimento e autoridade, assinaláveis para a sua juventude.
Voltando ao nosso dia, Sebastian dispensou a presença de Ernesto e chamou Josefina para entrar para o, que ela ficou a saber ser, seu gabinete. Uma sala grande, retangular, com um luxo que surpreendeu e até assustou. Enquanto ele procurava e remexia alguns papéis, de pé, numa mesa encostada à parede, ela observava atentamente.
Uma secretária grande, de madeira preta trabalhada, com canetas, aparos, frascos de tinta e uma máquina de escrever, uma cadeira grande, também de madeira preta trabalhada, com assento e encosto forrados a tecido vermelho. O tapete em tons de vermelho e preto, a condizer, trazido do oriente. As paredes apaineladas a madeira escura, abafavam os ruídos do armazém e da rua. Uma salamandra apagada, no canto, junto à janela, com marcas de muito uso. Vários retratos, nas paredes, de homens de outras épocas, pelas roupas e penteados. Alguns fardados. Uma parede forrada a livros, grandes, de capas grossas de couro. A janela a abrir para a pequena varanda, virada ao rio. Por causa do desnível do terreno, estava-se no primeiro andar, sobre a rua marginal e o cais. O rio cheio de barcos. Os do vinho, do lado de cá, e os carvoeiros e outros, do lado de lá. Alguns manobravam a meio. Do outro lado, escalava o casario da cidade, da ribeira até à Sé, enquadrado pela ponte de dois tabuleiros. No cais misturavam-se marinheiros, vendedeiras de ocasião, carrejões, alguns pequenos camiões e carros de bois. Vista era privilegiada pela beleza, mas também pelo controlo que permitia sobre o tráfego do rio.
“-Muito bem! Trabalho é simples”, disse ele virando-se para ela, falando em português com sotaque cerrado. “-Quero que sejas meus mãos e olhos no monte de vinho, ali. Tenho fazer checkings de tudo. Se há leaks, se está well fixed. Se preciso abrir barril lá cima, para tirar samples, tens de ir.
Sabes ler e escrever. Isso importante para confirmar batchs e fazer reports.
Aqui, documents todos inglês. Vocabulário simples. Eu ensino. No problem.
Antes, boy fazia trabalho. Contava mal, copiava pior. Made a lot of mistakes. I hope you are smarter.”
“-I hope so, Mr. Sebastian”, disse ela em voz baixa
Ele arregalou os olhos.
“-Come on, with me”, disse, pegando num bloco de papéis com mola, voltando-se para a porta e avançando pelo armazém, em passo acelerado.
Ela reparou que ele coxeava ligeiramente, mas, mesmo assim, andava rápido.
“-Este teu trabalho. Tens trepar como gato, subir escadas ali. Se preciso, descem-te with a rope, com roldana”, disse apontando para o teto. “Parece tens bom phisical shape. Aqui não preciso força. Enough habilidade e destreza. Inteligência, responsabilidade, also.
Hoje no time. Amanhã aqui oito horas, para primeiro trabalho. Vens direta meu office. Vou dar ordem para entrar livre. Tua roupa não proper para isto. Vou arranjar some to fit”, disse ele notando que ela estava de vestido e sobretudo.
“See you tomorrow, eight o’clock!”
“-Thank you, Mr. Sebastian. Till tomorrow”.
Chegou a casa e contou à mãe. Ela ficou satisfeita por ver a filha com trabalho, mas não percebeu muito bem o que é que Josefina ia fazer, nem com quem. Era um inglês? Não deveria haver problema. Estava lá o Ernesto, que era de confiança.
Josefina mal dormiu nessa noite. Parecia tudo irreal. E podia não ser verdade. Nessa manhã, o melhor que ela contava era com um trabalho de grupo, de limpezas, no meio do de outras mulheres, lavar garrafas ou varrer chãos, a mando do Ernesto. Agora tinha-lhe surgido esta oportunidade de melhor trabalho, dos que eram reservados para os homens e para os rapazes.
Ela nunca tinha falado com uma pessoa como o Sr. Sebastian, nem nunca tinha estado numa sala tão bonita e luxuosa como o gabinete dele. Tivera medo, é certo, mas ele dava-lhe confiança, embora mal lhe olhasse e falasse sem parar. Também percebeu que era muito exigente. Se falhasse, dispensá-la-ia como terá feito a outros, antes.
O trabalho não parecia difícil. Ela sempre fora maria-rapaz, a subir às árvores e aos telhados, e a saltar da ponte com os rapazes, no verão. As pipas parecem-lhe fáceis de trepar. Sabe de contas, escreve sem erros.
Adormeceu.
No dia seguinte, faltavam alguns minutos para a hora, entrou no armazém, passou pelo Ernesto, que olhou para ela com um misto de satisfação e apreensão. Era sempre um risco propor pessoas para um trabalho.
Às oito em ponto, batia à porta. Ouviu uma voz lá de dentro, não percebeu o que disse, mas pareceu que era o assentimento para entrar.
Sebastian estava sentado à secretária, a escrever à máquina. Já tinha meia dúzia de folhas escritas. Pediu-lhe para aguardar uns minutos. Ela ficou de pé, em frente, a olhar para os barcos no rio, pela janela.
“-Alright. Done!”
Levantou-se e dirigiu-se para a mesa do canto, onde havia vários papéis desdobrados e alguns livros, grandes, como os das estantes, abertos.
“-Vou mostrar o que temos aqui e como está organizado.”
Nas horas seguintes, Sebastian mostrou-lhe a planta do armazém, a distribuição dos barris, as guias de entrada do que vinha dos barcos, e as requisições do setor comercial.
Ela não precisava de saber o que é que estava em cada barril. Só precisava de saber a localização exata de cada um. Do ACME4325, por exemplo. Corredor F, cota 17, nível 5.
Mostrou-lhe o esquema de coordenadas, para orientação no armazém, e deu-lhe um maço de folhas com o inventário, com duas entradas.
Fizeram exercícios. Eu dava-lhe um código e ela procurava na lista a localização. E ao contrário, dando-lhe as coordenadas e ela a responder com o código da pipa.
Não parecia difícil.
Ao fim da manhã, ele levantou-se, abriu uma porta lateral, entrou e saiu com um embrulho grande, de papel.
“-Teu uniform! Podes provar ali” e apontou para a sala de onde tinha vindo.
Josefina pegou no embrulho grande, de papel grosso, e passou a porta. Era um pequeno quarto, com janela para o rio. Tinha uma cama de solteiro, impecavelmente feita, um guarda vestidos e uma pia de louça, no canto. Ela pensou se seria o quarto dele. Será que dormia ali? Mas não havia qualquer objeto pessoal que indicasse uso ou ocupação, além da cama feita.
Para não parecer mal, abriu o embrulho sem demora.
Tinha tudo em duplicado. Calças jardineira castanhas claras, camisa branca, camisola de lã castanha, colete com bolsos da cor das calças, par de botas castanhas com atacadores, meias grossas de cano alto e um chapéu de abas.
Experimentou e servia-lhe tudo quase na perfeição. Até as botas.
“-So? How it fit?”
Ela abriu a porta e saiu com a farda nova e o chapéu na mão. Ele fez um sorriso rasgado.
“-Perfect!”
Ela só então reparou que eles estavam vestidos com as mesmas cores. Só que as calças dele eram ridiculamente curtas e os sapatos eram muito esquisitos.
“-Now, your tools”, e deu-lhe um saco de pôr a tiracolo com um livro de folhas em branco, lápis, as folhas de localização das pipas, um martelo de madeira e uma pequena lanterna elétrica.
“-Para logo à tarde, after lunch”. Já era meio dia. Nem tinha dado pela passagem do tempo.
Perto da entrada do armazém, havia uma sala com mesas e bancos corridos, para os trabalhadores comerem o que traziam de casa. Josefina entrou lá, saudou as pessoas mas não conhecia ninguém. Nem o Ernesto estava lá. Não responderam e olharam para ela com desdém. A roupa nova, clara, quase reluzente, com as mesmas cores do Sebastian, punham-na à parte, como se já não fosse uma deles. Sentou-se na ponta de uma mesa, quase isolada. Ficou triste, a princípio, mas logo de seguida começou a ficar orgulhosa da sua farda nova. Farda Sebastian.
Depois do almoço, voltou ao gabinete e a cena repetiu-se. Bateu à porta, entrou. Ele estava a escrever à máquina, mais folhas, e ela aguardou uns minutos, a ver os barcos no rio, que agora parecia outro, de outra cor, com o sol do princípio da tarde.
Ela questionava-se se ele dormia ou comia. Parecia que estava sempre a trabalhar.
Nessa tarde, a formação foi prática. Subir e descer o castelo de pipas, verificar as localizações, procurar barris, ler os códigos, procurar fugas e vazamentos. Era cansativo mas não tinha dúvidas. Era tudo lógico e prático.
A figura dela estava estranha. Alta e esguia mas forte, vestida com roupa de trabalho masculina. O cabelo castanho claro, a condizer com o uniforme, não era muito comprido. Soltara-o quando mudara de roupa e agora, para poder mover-se com mais liberdade, prendera-o atrás com um laço improvisado.
Graciosamente moderna, diferente, estrangeirada. Orgulhosa.
Ao fim do dia, perguntou onde podia deixar a farda.
“-Uniform é teu. Levas tua casa e no return. My gift. Só quero limpo. You wash it!”, disse-lhe quando a dispensou às seis horas.
Josefina pegou na trouxa do resto da farda e do seu vestido, casaco e sapatos, e saiu para casa.
Só agora se lembrava que nunca tinha andado de calças na rua, como um homem, com uma camisolona castanha escura, de lã quente, botas de trabalho e chapéu de abas da cor das calças. Parecia um trabalhador das fábricas ou das obras, um operário daqueles filmes americanos. As pessoas reparavam nela, quando subia a rua, para casa. Já era noite e poucas a reconheciam. Ainda bem.
Queria mostrar à mãe.
É lidar
Obrigam-me a saltar para arena, de capa e espada.
Eu não quero, estou melhor na bancada a aplaudir outros heróis. Tem de ser, gritam-me, tu consegues.
Soltam-me a besta de quinhentos quilos. Dá duas voltas rápidas, como para se ambientar, a populaça empolga-se. Raspa o casco no chão, arranca para mim. Dou um passo ao lado, cedo-lhe a capa. Aplausos.
Nova corrida, mais um passo, agora para o outro lado. Iludo-o no pano. Aplausos de pé.
Canso o bicho. Já não corre para longe. Já lhe sinto bafo. Olha-me nos olhos, de língua de fora.
Enfio-lhe a espada no meio da testa. Cai morto, com olhar vidrado.
Que raio! Nem gosto de lantejoulas.
Caducidade
Quanto tempo duram as nossas palavras? E as nossas juras, promessas e vontades?
Uns dizem que duram o tempo que quisermos. Outros dizem que duram o tempo da memória colectiva. Outros, ainda, dizem que se forem gravadas na pedra duram para sempre. Mas o que vale uma pedra se quem a escreveu já foi esquecido há muito?
Fico-me pelo meio termo. O que te disse vai durar para sempre, enquanto um de nós se lembrar.