A pessoa e a sua circunstância

O ambiente social, económico e político molda-nos e limita-nos as oportunidades, da mesma forma que a família, amigos e demais interações influenciam as nossas escolhas e atitudes, e, embora possuindo capacidade de tomar livremente decisões que podem afetar a nossa vida e a dos outros, limitamo-nos ao cenário criado por essa mesma circunstância.

O inferno são os outros

A observação pelos outros faz-nos confrontar com as nossas fraquezas, mentiras e falhas, definindo quem somos, com profundo impacto na nossa própria percepção, mas também ficamos dependentes dessa necessidade de sermos vistos e avaliados, num julgamento viciante que atormenta-nos mais do que qualquer punição externa.

Gosto de ti

Ela apreciava o sentido gosto de ti com que ele se despedia, após lhe beijar a face. Era simples, inocente, mas tão forte como o amor puro que os fazia sorrir como crianças.
Naquele dia ele não disse. Levantou-se, beijou-lhe a mão e saiu. Nem se curvou.
Ela sabia-o preocupado com a sua vida, mas não teria ficado triste se soubesse que ele só queria esconder a fraqueza de pedir consolo, e permissão para pousar a face no seu colo e sentir o afago das suas mãos.

Vamos

Vamos correr montes e vales de mãos dadas
Explorar, mergulhar no mar, deitar na praia até a pele estalar

Degustar sabores, sorrir nos olhos
Rir dos disparates, ouvir histórias passadas que fingimos não lembrar

Confessar inseguranças, perdoar o que passou
Derrubar muros, confiar, começar de novo

Vou contar estrelas ao serão
Até adormecer nos teus braços.

Castelos de areia


O castelo de areia era feito com a mesma areia, com o mesmo tipo de balde e com duas pás iguais, mas ainda assim a ala norte da construção era forte e esbelta, enquanto a frente sul ameaçava já começar a ruir. O pai sorria a olhar para os dois rapazes: como podiam ser tão fisicamente parecidos e tão talentosamente diferentes. No Mateus tudo era harmonioso e estético; cada ameia da sua torre estava perfeitamente delineada por uma massa que mais parecia ter cimento nela; e no balde não restava um grão de areia que fosse. Já no João tudo era tosco e rápido; o forte era fraco, construído de forma torpe e atabalhoada, com metade da areia a ficar colada nos cubos ocos do fundo do balde.

Quanto mais o sol lhes tisnava a pele morena, mais lhes clareava as madeixas do cabelo que iam ganhando matizes douradas. Os dois tinham olhos cuja cor mudava consoante o cenário do fundo: junto ao mar adquiriam um suave tom azulado, mas na areia ganhavam um doce brilho de mel. João cansava-se muito mais rapidamente das brincadeiras e exigia, por isso, uma atenção diferente do pai. Enquanto Mateus aprimorava a sua arte, já João tinha puxado o pai para um jogo de bola e para uma partida de raquetas. Apreciando o conforto que um filho como o Mateus lhe dava, o pai ia, porém, estreitando mais os laços afetivos com João que o obrigava a uma atenção e cuidados redobrados. 

Naquela tarde, o sol estava especialmente quente, escaldando a areia que não era molhada pelas ondas. A água estava fria para aquela época do ano e aliviava os corpos entorpecidos pelo calor. Apesar das altas temperaturas, a energia do João não lhe dava descanso, nem aos pais. O garoto pediu aos dois que fossem brincar com ele para dentro da água, ao que os dois acederam, mais motivados pela necessidade de arrefecer do que para fazer a vontade ao filho. Na água, o instinto materno não deixava de lançar um olhar regular ao Mateus que preferira ficar a escavar um fosso para dragões à volta de todo o castelo. Num desses momentos, a mãe viu Mateus tombar com força para a frente, destruindo a ponte levadiça que moldara com tanto afinco. Percebendo que algo estava mal, e ignorando o cuidado a ter com as rochas afiadas, saiu a correr do mar, lançando-se para acudir o garoto. Quando o alcançou, este estava inanimado e tratou de lhe tirar as postas de areia que lhe enchiam a boca. Como uma louca, começou a gritar por ajuda, a que respondeu de imediato o marido e metade da praia. Ao telefone com o socorro já um banhista tratava de dar as indicações precisas quanto ao local. A ambulância não chegava ali. Os nadadores-salvadores rapidamente se articularam com os médicos para levar a criança até ao parque de estacionamento mais próximo. O pequeno veículo todo-o-terreno destruiu o que restava do castelo infantil para acomodar a mãe que exigia segurar a criança no colo, não deixando os homens levarem o seu filho. Aquele carro trator não demorou a chegar à sirene que captara a atenção da outra metade do povo que, até então, ainda não se tinha apercebido do drama que se vivia. Mateus continuava inconsciente, com a cabeça pendente, e foi arrancado dos braços da mãe para ser colocado na parte de trás da ambulância. A porta traseira bateu com força, pondo fim ao voyeurismo dos banhistas que se acotovelavam para tentar ver a tragédia. As lágrimas da mãe foram encaminhadas para o lugar de pendura e o veículo azul e amarelo arrancou, deixando para trás uma nuvem de poeira e uma tenebrosa melodia de alarme que ia perdendo volume. 

Desorientado, o pai procurou reunir todos os pertences, para levar o João para o carro onde pensaria melhor o que fazer. Já não sentia a chama da areia, embora o petiz chorasse por colo. Arrumou-o, juntamente com o chapéu de sol, debaixo do braço e apanhou apenas o saco com os documentos, deixando para trás as toalhas, os baldes e as pás que estavam espalhadas pelo solo. Quando chegou ao carro perguntou-se porque não deixara também o chapéu de sol e atirou-o para uns arbustos, colocando o João na cadeira das crianças, enquanto lhe apertava com força o cinto de segurança. Não sabia para que hospital ir. Não sabia, sequer, onde ficava ali algum hospital. Gritou a um dos empregados do bar de praia que lhe indicou as urgências, a dez quilómetros dali.  Só a preocupação com o João o fez frenar nos semáforos, onde, ainda assim, passou todos os vermelhos, assinalando com os faróis e a buzina um frenético desespero. A criança berrava quando chegaram à porta das urgências e um segurança os obrigou a estacionarem o carro, porque este não podia ficar a barrar a entrada dos veículos de socorro. Conduziu o carro às cegas até ao parque, deixando-o parado no meio da via. Com o filho ao colo, e não vislumbrando a mulher, correu até à receção. Mateus. Filho. Tombou. Praia. Mulher. Ambulância. A estrutura das frases, diria que a tinha perdido pelo caminho. A funcionária compreendeu, habituada que devia estar à universal linguagem da aflição. Lançou-lhe um dedo indicador para a esquerda para onde ele voou. Num corredor frio e escuro encontrou o choro de uma mãe que se agarrou a ele e ao filho. Levaram-no. Não sei nada. O meu menino. Quero ir com ele. A mesma linguagem do pai: compreendiam-se. O choro era o seu novo canal de comunicação e dizia o que os dois queriam dizer: dor, dor, dor. 

A luz ao fundo do túnel, que dizem existir, não iluminava aquele corredor. Do seu fundo só escuridão. Era um corredor estéril, de onde não saía nada. Vivalma. Vazio. Vácuo. Vento. Assim ficaram os três, agarrados, encolhidos numa massa única, fundida no sofrimento. Apertavam-se para se fazerem mais pequenos, esperando que assim a tragédia não os visse e passasse por eles para ir procurar outros. De repente, a esperança surgiu na forma de um gigante que vestia uma bata branca e que lhes vomitou para cima uma palavra: leucemia. O Mateus debatia-se com uma leucemia que se manifestou mais visivelmente naquela tarde de praia quente. O alívio de saber que o menino estava vivo misturou-se com o terror da palavra e deu origem a um sentimento novo: medo. Perguntas. Muitas perguntas. Respostas. Poucas respostas. Era urgente encontrar um dador e a família era sempre por onde se começava. De imediato, os três foram submetidos a análises, enquanto chegavam familiares e amigos que aumentavam o leque das difíceis possibilidades.

Foram muitas as horas de angústia até chegar o veredicto final: João era a combinação perfeita, o dador ideal, o super-herói do irmão…Ainda não tinham acabado de respirar fundo, porém, já o médico abanava com um outro sobrescrito e pedia aos pais para lhes falar a sós. Avançaram corajosos: não havia nada que lhes pudessem dizer que afastasse aquele bálsamo de alívio. Com o jeito pragmático que é conhecido aos homens das ciências – que parecem ignorar o colorido da vida, substituindo-o por relatórios e radiografias escuras – o médico ditou-lhes que as análises ao sangue haviam revelado um outro dado surpreendente: as duas crianças não eram filhas do mesmo pai. Pausa. Pausa. Pausa. Olhos-nos-olhos. Olhos-perdidos-nos-outros-olhos.

Como podia ser? Interrogaram-se. As crianças nasceram no mesmo dia, com o João sempre mais apressado a sair com quatro horas de avanço em relação ao irmão…O médico deixou novamente as cores de lado para explicar com frieza o fenómeno da “superfecundação heteropaternal”: é possível acontecer quando dois óvulos da mesma mãe são fecundados por homens diferentes. Ocorre quando uma mulher, ovulando, mantém relações sexuais com diferentes homens num curto intervalo. Os bebés partilham o material genético da mãe, mas crescem em placentas diferentes. 

A explicação é curiosa e o fenómeno até teria graça, se não levantasse aqui a pequena questão moral. Perante o silêncio da mãe, a voz do pai soou demasiado alta: qual dos dois é o meu filho?

Nenhum dos dois, rasgou o médico, colocando cuidadosamente a folha de papel dentro do envelope

Tratar da alma


Até ao século dezoito, o desígnio de vida de um europeu era salvaguardar um lugar no céu. Construíam igrejas cada vez maiores, engrossavam enormes procissões e peregrinações, ofereciam-se para combater na guerra santa contra os infiéis. A vida terrena não tinha  importância, a sua qualidade também não. Morria-se e matava-se por muito pouco, escravizava-se e batia-se indistintamente. As famílias criavam filhos em grande número, que eram pouco mais do que unidades de produção de uma economia agrária e de manufatura.

As execuções também se adaptavam à encomenda das almas. Os hereges eram queimados, os criminosos eram enforcados. A única morte honrada era a decapitação, reservada a nobres, em processos mais ou menos políticos.

Sociedades relativamente sofisticadas e industrializadas, como a japonesa, mantiveram estas práticas até ao seculo vinte, em que morrer com honra era mais importante do que a própria vida. Até à segunda guerra mundial, perante um embaraço grave, não se hesitava no hara-kiri. Também não faltavam voluntários para ataques kamikaze.

O século vinte e um também abriu com espetaculares ataques suicidas, complexos e meticulosamente preparados, por motivações religiosas, agora perpetrados por radicais islâmicos, num ressurgimento das piores práticas medievais.

Felizmente o ocidente já passou a fase do fanatismo e da desvalorização da vida. A ciência permite viver cada vez mais tempo e com qualidade. A instituição mais valorizada pela sociedade é o serviço nacional de saúde. Mas será que vivemos com qualidade de vida moral? Somos felizes?

Somos herdeiros de décadas de lutas de classe e pelos direitos cívicos das minorias. Com defeitos ainda por corrigir, praticamente atingimos a equidade social, com a educação e saúde gratuita, e não há, ou tende a não haver, discriminação de raça ou de género. Mas porque é que somos tão infelizes, pelo menos aparentemente, com permanentes revoltas, greves e conflitos sociais?

A infelicidade social tem a ver com a forma como se progride na sociedade e nas suas etapas. Inicialmente é necessário subsidiar os mais pobres, dar de comer, dar casa, dar medicamentos, isentar de impostos, de forma a que possam beneficiar de oportunidades em igualdade de circunstâncias. Ao mesmo tempo é necessário criar quotas para que as minorias, geralmente pior formadas pela discriminação a que foram sujeitas, possam aceder aos mesmos  lugares de trabalho, gestão e responsabilidade das maiorias.
Tudo isto custa muito dinheiro pelas ineficiências que provoca. No início, os melhores preparados e produtivos têm de ceder riqueza, pagar, para melhorar as condições de vida dos mais pobres, e também têm de ceder lugares às minorias.

Numa sociedade ideal, passar-se-á depois para a fase seguinte, que é a de haver mais gente, melhor preparada e diversificada, a contribuir para o desenvolvimento económico e social global, numa sociedade liderada pelos melhores, independentemente da sua origem.

Mas a nossa sociedade não é ideal. Há um fator importante que não podemos descurar: a atração e fixação pelo poder.

Quem detém o poder, num determinado momento, não tem interesse em que a sociedade se desenvolva além do que já está. Porque desenvolvimento traz novos desafios, novas soluções, novos protagonistas, novos rivais. O que fazem é distribuir a riqueza já arrecadada, em operações de cosmética social, disfarçadas de progresso, para que não se alterem as condições do momento. Enquanto houver aforro, riqueza ou património para taxar, e capacidade de endividamento, vão tentar manter tudo como estiver, sem reformar.
Este poder pode ser do estado, dos governos nacionais, regionais ou autárquicos, mas também é das oposições, lideranças partidárias, corporações e associações profissionais, sindicatos, associações patronais, todo o tipo de poder, grande ou pequeno. Quem acede ao poder nunca quer reformar.

Mas há um limite e este já foi atingido nos países da Europa ocidental. Chegou-se ao limiar em que os recursos para manter a sociedade actual a funcionar, as operações de cosmética, já absorvem o quinhão que deveria ser gasto em investimento para criar novos postos de trabalho e para remunerar melhor os que já existentes, novas oportunidades, para construir ou reconstruir casas, ou remodelar, para criar riqueza em geral.
Não há investimento público porque o estado gasta tudo na manutenção da situação, e não há investimento privado porque o estado exaure a economia com impostos, também para poder pagar a manutenção da situação.

Vive-se com uma sensação de fim dos tempos. Corremos o risco de aparecer alguém a convencer-nos de que isto já não vale a pena, não tem saída, e que o melhor é começarmos a tratar da alma.
Foi sempre assim na história.

Design a site like this with WordPress.com
Get started